E porque a vida é feita de mudanças, este blogue chegou ao fim! Mas podem continuar a encontrar-me por aqui! :)
terça-feira, 9 de julho de 2013
domingo, 16 de junho de 2013
Talvez que seja a brisa
"Talvez que seja a brisa
Que ronda o fim da estrada,
Talvez seja o silêncio,
Talvez não seja nada ...
Que coisa é que na tarde
Me entristece sem ser?
Sinto como se houvesse
Um mal que acontecer.
Mas sinto o mal que vem
Como se já passasse ...
Que coisa é que faz isto
Sentir-se e recordar-se?"
Fernando Pessoa
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Poesia
A renúncia é a libertação. Não querer é poder.
"A renúncia é a libertação. Não querer é poder.
Que me pode dar a China que a minha alma me não tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza de minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.
Compreendo que viaje quem é incapaz de sentir. Por isso são tão pobres sempre como livros de experiência os livros de viagens, valendo somente pela imaginação de quem os escreve. E se quem os escreve tem imaginação, tanto nos pode encantar com a descrição minuciosa, fotográfica a estandartes, de paisagens que imaginou, como com a descrição, forçosamente menos minuciosa, das paisagens que supôs ver. Somos todos míopes, excepto para dentro. Só o sonho vê com olhar.
(...)
Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuimos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu."
Bernardo Soares
Veneza
"Na ponte eu estava
Ao moreno anoitecer.
Distante veio um canto:
Douradas gotas corriam
Pela tremente planura.
Gôndolas, luzes, música -
Ébrias vogavam para a crepúsculo ...
A minh' alma, uma lira,
Cantava-se, invisivelmente vibrada,
Oculta canção de gondoleiro,
Tremente de irisada beatitude -
Mas alguém ouvia?"
Friedrich Nietzsche
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Poesia
sábado, 15 de junho de 2013
A maioria dos homens vive com espontaneidade uma vida fictícia ...
"A maioria dos homens vive com espontaneidade uma vida fictícia e alheia. A maioria da gente é outra gente, disse Oscar Wilde, e disse bem. Uns gastam a vida na busca de qualquer coisa que não querem, outros empregam-se na busca do que querem e lhes não serve, outros ainda se perdem ...
Mas a maioria é feliz e goza a vida sem isso valer. Em geral, o homem chora pouco, e, quando se queixa é a sua literatura. O pessimismo tem pouca viabilidade como fórmula democrática. Os que choram o mal do mundo são isolados - não choram senão o próprio."
(...)
Bernardo Soares
sexta-feira, 14 de junho de 2013
A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos
"A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, princípe da Dinamarca, não sentimos os nossos - vis porque são nossos e vis porque são vis.
O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso - o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência."
Bernardo Soares
quinta-feira, 13 de junho de 2013
E por vezes
"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos"
David Mourão-Ferreira
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domingo, 2 de junho de 2013
Amor como em casa
"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraidíssimo percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde no café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa."
Manuel António Pina
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quarta-feira, 15 de maio de 2013
"O Livro está em nós
Ou somos nós que estamos dentro do Livro?
Irá ele conduzir-nos para um além
Ou conduzi-lo-emos nós para o nada?
O Livro será entre nós ambos
Um fosso a preencher
Ou uma ponte a destruir?
O Livro será uma moradia ou um barco
Um vestuário uma máscara ou o nosso verdadeiro rosto?
Será ele nós por fim desvelado?
Os dados estão lançados e o nosso livro
Lá vai hesitante para o indefinido
De um destino que não se consumará."
Roberto Bréchon em "Meditações Metapoéticas"
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terça-feira, 14 de maio de 2013
"Eu quero abrir um livro
que tivesse a luz do trigo
onde pudesse beijar os joelhos de lua
de uma plácida mulher
Ou nela contemplar
em plena noite
a vasta delicadeza das constelações
enquanto lavasse as mãos
entre as imagens das estrelas
numa celha de água fresca."
António Ramos Rosa em "Meditações Metapoéticas"
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domingo, 12 de maio de 2013
"Abro os olhos e as janelas
Faço existir o dia
Volto a fechar o leito do tempo
Entro nos bastidores do sonho
Lavo o meu corpo na luz
Estou cheio de sons e de odores
Acordar é mudar de mundo."
Robert Bréchon em "Meditações Metapoéticas"
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sábado, 11 de maio de 2013
Ready-made
"Deixámos as águas
para nos retirarmos nas pedras
deixámos as pedras
para nos retirarmos nas árvores
deixámos as árvores
para nos retirarmos no ar
deixámos o ar
para construirmos as nossas estrelas
mas as pedras mas os pássaros
o ar e as estrelas
seguiram-nos no orbe do sonho."
Robert Bréchon em "Meditações Metapoéticas"
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terça-feira, 7 de maio de 2013
"Símbolos? Estou farto de símbolos ...
Uns dizem-me que tudo é símbolo.
Todos me dizem nada.
Quais símbolos? Sonhos ...
Que o sol seja um símbolo, está bem ...
Que a lua seja um símbolo, está bem ...
Que a terra seja um símbolo, está bem ...
Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa
E ele rompe das nuvens e aponta para trás das costas
Para o azul do céu?
Mas quem repara na lua senão para achar
Bela a luz que ela espalha, e não bem ela?
Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes
Por uma diminuição instintiva,
Porque o mar também é terra ...
Bem, vá, que tudo isso seja símbolos ...
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
Mas neste poente precoce e azulando-se menos,
O sol entre farrapos vindos de nuvens,
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
E o que fica da luz do dia
Doira a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina
Onde se demorava outrora (mora perto) com o namorado que a deixou?
Símbolos? ... Não quero símbolos ...
Queria só - pobre figura de magreza e desamparo! -
Que o namorado voltasse para a costureira."
Álvaro de Campos em "O Engenheiro Aposentado (1931-1935)"
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quinta-feira, 25 de abril de 2013
"Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
(...)
Multipliquei-me para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me e entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente."
Álvaro de Campos em "A Passagem das Horas"
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quarta-feira, 24 de abril de 2013
"O melodioso sistema do Universo,
O grande festival pagão de haver o sol e a lua
E a titânica dança das estações
E o ritmo plácido das eclípticas
Mandando tudo estar calado.
E atender apenas ao brilho exterior do Universo."
Álvaro de Campos em "O Engenheiro Sensacionista (1914-1922)
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