segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Onda Nocturna

"Onda que se desfaz em espuma
Sobre o areal franjado,
Debaixo de um céu sem bruma
E de astros marchetado.

Ondino colar de pérolas
Num dispersar pela areia,
A brilhar sob as estrelas
Em noites de lua cheia.

Vem meigamente ofertar
Em nocturno esplendor ...
Delírios que tráz do mar;
Da terra conquistador !

Onda que vens e deixas
O teu mar enciumado,
A desfazer-se nas queixas
De um amor amaldiçoado ! ... "

Daniel Jorge da Silva em "A Voz do Mar"




quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Li "O Leitor" de Bernhard Schlink e ...

'Der Vorleser' ... em alemão. Título original.
'Le Liseur' ... em francês. Palavra aveludada e mais sensual do que 'Le Lecteur'.
'Il Lettore Pubblico' ... em italiano. Na minha opinião, tradução mais fiel ao contexto, por referir-se a um leitor que lê diante de outra pessoa, e sente prazer nesse acto !

Conta-nos a história de Michael Berg e do seu relacionamento com Hanna Schmitz. Hanna, de 36 anos inicia Michael, de 15, nos segredos da sexualidade. Esta relação obedece a um ritual ... antes de se amarem, banham-se e ele lê para ela livros como Emília Galotti de Schiller ou Guerra e Paz, com todas as exposições de Tolstoi sobre a História, os grandes homens, o Amor e o Casamento.
Michael fica fascinado com esta mulher madura até que de repente deixa de saber dela ! Jamais a esquecerá e jamais esquecerá que leu para ela, em voz alta, autores clássicos como Rilke ou Goethe. Anos depois, já na faculdade onde estuda Direito, resolve participar num grupo de trabalho que estuda um caso de acusação a guardas dos campos de concentração. Hanna é uma das acusadas.
Condenada a prisão perpétua, recebe de Michael, que nunca a visita, fitas com gravações de Odisseia; contos de Schnitzler e de Tchekov; poesia de Keller e Fontane, Heine e Morike e textos de Kafka, Frisch, Johnson, Bachmann, Lenz ou Zweig.

Deparei-me não com uma história de amor e muito menos romântica, mas com uma história de descobertas. De amor esquecido no interior do corpo, prematuramente desenraizado, vivido conforme é possível e conforme o quanto se está disposto a enfrentar os monstros.
É mais do que um simples romance com narrativa linear. É um livro cheio de ses, imbuído de pontas soltas, de mal entendidos, de perguntas mal feitas, de respostas nulas. É o abandonar-se a si e ao peso da solidão voluntariamente.

Fiquei presa do princípio ao fim, quando Schlink coloca em êxtase a leitura em voz alta dos clássicos, a paixão pelas histórias dos livros, o banho e o amor, relegando para segundo plano os temas da reunificação da Alemanha, lembranças brutais do holocausto ou fugas fantasistas.

Confesso que emocionei-me com o final ! Senti um aperto no estômago, esperava algo trágico, mas não propriamente aquele impacto ao virar a página !
" Mas quando cheguei no dia seguinte e quis beijá-la, desviou a cara.
- Primeiro, tens que ler em voz alta.
Estava a falar a sério. Tive que lhe ler alto Emília Galotti durante meia hora antes de me meter no duche e me levar para a cama. Agora, até gostava de tomar banho. O desejo com que chegava, esvaía-se durante a leitura. Ler desta maneira um texto, de maneira a conseguir diferenciar minimamente os diferentes personagens e dar-lhes vida, requer uma certa concentração. Debaixo do duche, voltava-me o desejo. Ler alto, tomar banho, amar e ficar ainda um bocadinho deitados ao lado um do outro, tornou-se então no ritual dos nossos encontros. "

Bernhard Schlink em "O Leitor"

" Muitas vezes eram as observações da Hanna que me levavam a aperceber-me das flores, das trovoadas de Verão e dos bandos de pássaros. As suas observações sobre literatura eram assombrosamente acertadas. «O Schnitzler ladra, o Stefan Zweig é um cão que ladra mas não morde», ou «o Keller precisa de uma mulher», ou «os poemas de Goethe são como pequenos quadros com uma linda moldura», ou «o Lenz escreve com certeza à máquina». Fiquei espantado ao aperceber-me de como muita da literatura mais antiga pode ser lida, realmente, como se fosse actual; e, quem não saiba nada de História, pode ver nas condições de vida de épocas passadas simplesmente as condições de vida actuais em países distantes. "

Bernhard Schlink em "O Leitor"

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Feliz Natal !!!


Bedtime Stories !

Once upon a time there was a blanket ...

Sinfonia do Vento

" Vento que uiva,
Que corre
Veloz !
Que açoita a tarde
Que morre
Sem nós ...
Branca agonia,
Triste saudade;
Louca sinfonia
Diabólico bailado
Marmóreo,
Frio ...
Ilusão ... Verdade;
Fúria que varre
Meu Inverno gelado !

Daniel Jorge da Silva in "A Voz do Mar"

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Motivação

" Valeu a pena ? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu. "

Fernando Pessoa ( Do «Mar Português» )

domingo, 21 de dezembro de 2008

Vou começar hoje a ler ...

" José olha o sol de frente e pensa. Pensa na mulher e no que o diabo lhe disse na venda sobre ela. E pensa no dia em que as cigarras se calarão na planície e os ramos mais finos dos sobreiros e das oliveiras se tornarão pedra. Trinta anos mais tarde, José filho de José, olha o sol de frente e pensa. Pensa na mulher do primo e no que o diabo anda a dizer ao primo na venda sobre eles. E pensa no instante em que nada restará, nem mesmo o silêncio que fazem todas as coisas a olhar-nos. "

"Nenhum Olhar" de José Luís Peixoto

sábado, 20 de dezembro de 2008

Pedras de Leitor

Biblioteca

Leitores com livros

Ler o livro antigo

Ler sobre pintura

Livros sobre o mar

« Madalena Bensusan nasceu na cidade de Lisboa, em 1964.
A sua dedicação ao livro e à leitura começou ainda era estudante. Uma vez acabado o liceu, entregou-se de corpo e alma ao mundo das livrarias, procurando cada vez mais formação nesta área, tirando para isso o curso de livreiros promovido pela APEL. Continuou o seu trajecto livreiro, passando, por grandes livrarias na cidade das 7 colinas, abraçando e desenvolvendo projectos que tinham por base a divulgação do livro e da leitura, numa tentativa contínua para que o LIVRO e a LEITURA fizessem parte de cada um de nós.
Um dia, olhando para o Tejo, imaginou pequenas criaturas sobre as rochas adaptando as suas formas a cada uma delas em busca da posição ideal para a leitura. E assim nasceram as "Pedras de Leitor".
Hoje os pequenos leitores saltam para telas coloridas e, sempre com a mesma energia, procuram alcançar o seu objecto preferido. O LIVRO!
É urgente e necessário que todos façamos uma "CORRIDA AO LIVRO". »

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Trago dentro de mim um mar imenso

" trago dentro de mim um mar imenso
feito de vagas tristes
e sonhos vagos

o horizonte é uma manhã
que eu quis minha para ser eu

e para porto de abrigo escolhi uma tarde
que soubesse chorar a morte do sol "

José Rui Teixeira

domingo, 14 de dezembro de 2008

O Pessoa Preferido

" Fernando Pessoa dispensa apresentações. Basicamente complexo, é o poeta que conseguiu chegar a todas as camadas da sociedade. E consegue-o agora mais facilmente na Internet, em http://pessoa.mdaedalus.com. Com uma base de dados bastante recheada com a obra do poeta fingidor, a pesquisa é prática, resumindo-se a página principal a um simples abecedário. Os poemas, por ordem alfabética de título ou primeiro verso, estão à distância de um clique na letra correspondente. Opiário, do heterónimo Álvaro de Campos, estará obviamente na letra O, Liberdade na letra L, e assim sucessivamente. Guarde o endereço nos seus favoritos e vá dando uma leitura numa das mais ricas obras da literatura portuguesa. "

Texto de Sara Otto Coelho

domingo, 7 de dezembro de 2008

Li "Excertos dos diários de Adão e Eva" e ...

Mark Twain, pai de Tom Sawyer e de Huckleberry Finn, publicou os seus "Excertos dos Diários de Adão e Eva" entre 1904 e 1906.
Num exercício de humor delirante, subverte e recria, em ambiente de guerra dos sexos, a história bíblica.
O modo como o autor trata o tema da criação da mulher e do homem num paraíso ironicamente idealizado, proporcionou-me momentos de leitura muito divertidos ! ;)
Deparei-me com textos plenos de um humor corrosivo, que sabem ser poéticos quando se referem a Eva, jovem apaixonada pela vida, possuída pela curiosidade e pelo fascínio da aventura, da descoberta.
Vemos surgir perante nós a ideia de uma mulher demasiado subversiva para o início do Séc XX: incontrolável, instintivamente livre e sensual, cheia de sede de conhecimento.
O escritor atreveu-se a tratá-la como alguém mais inteligente, mais divertido, mais perspicaz, mais criativo do que Adão, figura de que Twain ironiza a mentalidade limitada, o espírito tacanho e conservador, inquinado pelo machismo e pelos preconceitos. Cheio de ideias feitas, fugindo com afinco do ser imprevisível que tenta confrontá-lo com o novo, enquanto ele se restringe à queixa.
"Excertos dos diários de Adão e Eva" é de certo modo a explicação do começo do amor: espontâneo por parte de Eva, renitente por parte de Adão ... é a história de uma paixão que termina com um ternurento epitáfio para Eva: «Adão: Onde quer que ela estivesse era o Éden». E deste modo simples, acabou por redimir o Homem. ;)

sábado, 6 de dezembro de 2008

Diário de Adão
" Estive a examinar a cascata. É o melhor do parque, penso. O novo ser chama-lhe «Catarata do Niagara» - porquê ?, não compreendo. Diz que parece a Catarata do Niagara. Isso não é razão. É um mero devaneio e imbecilidade. Não posso nunca dar nome a nada. O novo ser dá nome a tudo o que aparece antes de eu poder esboçar um protesto. E o pretexto é sempre o mesmo: parece ser aquilo. Por exemplo, um dodo, diz que, logo que se avista um, percebe-se que «parece um dodo». Vai ter de passar a chamar-se assim, sem dúvida. Desgasta-me tentar discutir sobre isso e nem vale a pena, de qualquer maneira. Dodo ! Parece-se tanto com um dodo como eu ! "

Diário de Eva
" Agora estamos a dar-nos melhor ( ... ) Gosto muito disso e eu estudo para lhe poder ser útil todos os dias, sempre que posso, para subir na sua estima. Nos últimos dois ou três dias tirei-lhe dos ombros o fardo de dar nomes às coisas e isto deixou-o muito aliviado porque ele não tinha o mínimo jeitinho para isso e está-me muito grato por isso. Não seria capaz de inventar um nome minimamente racional nem que a sua vida dependesse disso, mas eu finjo que não me apercebo desse defeito. Sempre que surge um novo ser eu dou-lhe um nome antes sequer de ele se expor a cair num silêncio embaraçoso. "

Mark Twain in "Excertos dos diários de Adão e Eva"
Diário de Adão
" Construí um abrigo contra a chuva para mim, mas não pude sequer gozá-lo em paz. O novo ser intrometeu-se. ( ... ) Eu preferia que não falasse. Está sempre a falar ! Isto pode parecer um golpe baixo contra o pobre coitado, uma injúria; mas não é nada disso. Eu nunca ouvi a voz humana antes e qualquer som estranho e novo irrompendo aqui, na solene pacatez destas solidões de sonho, ofende os meus ouvidos e soa como uma nota artificial. E este novo som irrompe sempre tão perto de mim, vem sempre detrás do meu ombro, direito ao meu ouvido. Primeiro de um lado, depois do outro ... e eu estou habituado a sons que estão sempre mais ou menos distantes de mim. "

Diário de Eva
" Quando eu descobri que ele podia falar encontrei um novo interesse por ele porque eu adoro falar; falo a todo o instante, durante o sono, e consigo ser muito interessante, mas se eu tiver alguém mais com quem falar eu posso ser duplamente mais interessante, e acho que nunca mais parava, se eu quisesse. "

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Este blog foi premiado ... ;)


Pois é, este blog foi duplamente premiado com o Prémio Dardos ! Obrigada Pedro ( http://p-leituraseopinioes.blogspot.com/2008/11/prmio-dardos.html ) e Isabel Maia ( http://nacompanhiadoslivros.blogspot.com/2008/12/prmio-dardos.html ) !

Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada bloguista emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre as suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os bloguistas, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.

Quem recebe o Prémio Dardos e o aceita deve seguir algumas regras:
1. Exibir a distinta imagem;
2. Linkar o blogue pelo qual recebeu o prémio;
3. Escolher 15 outros blogues a quem entregar o Prémio Dardos.

Assim, os 15 blogs nomeados são:
http://bibliotecatransmissivel.blogspot.com/
http://estante-de-livros.blogspot.com/
http://p-leituraseopinioes.blogspot.com/
http://imagensdomeumundo.blogspot.com/
http://toliveirinha.blogspot.com/
http://olharnomade.blogspot.com/
http://www.olhardireito.blogspot.com/
http://www.aminhalivraria.blogspot.com/
http://lectorinfabula.blogspot.com/
http://nacompanhiadoslivros.blogspot.com/
http://biblioteca_vania.blogs.sapo.pt/
http://www.bibliofilmes.blogspot.com/
http://leituras-e-devaneios.blogspot.com/
http://escreverescrever.blogspot.com/
http://avidaebelaeamarela.blogspot.com/

Vou começar hoje a ler ...

" Um advogado alemão que amou uma ex-guarda de um campo de concentração pode vir a acusá-la sem se trair a si mesmo ? É a esta reflexão, entre muitas outras, que Bernhard Schlink nos convida em O Leitor. Michael Berg, um adolescente nos anos 60, é iniciado no amor por Hanna Schmitz, uma mulher madura, bela, sensual, secreta e autoritária. Ele tem 15 anos, ela 36. Os seus encontros decorrem como um ritual: primeiro banham-se, depois ele lê, ela escuta, e finalmente fazem amor. Este período de felicidade incerta tem um fim abrupto quando Hanna desaparece de repente da vida de Michael.
Michael só a reencontrará muitos anos mais tarde, envolvida num processo de acusação a ex-guardas dos campos de concentração nazis. Inicia-se então uma reflexão metódica e dolorosa sobre a legitimidade de uma geração, a braços com a vergonha, julgar a geração anterior, responsável por vários crimes. Perturbadora meditação sobre os destinos da Alemanha, O Leitor é, desde O Perfume, o romance alemão mais aplaudido nacional e internacionalmente. "

Também vou começar hoje a ler ...

"Os contos surpreendentes e comoventes que fazem parte de Confundir a Cidade com o Mar revelam uma maturidade e imaginação invulgares, ilustrando a capacidade de Richard Zimler para nos conduzir pelos territórios obscuros da alma e para criar personagens singulares e inesquecíveis. Estas lutam para quebrar os impasses da vida, redimir mágoas do passado ou libertarem-se das ilusões sexuais, políticas e espirituais que os afastaram de si próprios. Vivem brilhantes momentos de revelação, mas também sofrem decepções incapacitantes, e é através das suas subtis traições e dos seus pequenos gestos heróicos que Zimler explora a influência que exercem sobre nós cidades sofisticadas como S. Francisco ou comunidades mais fechadas do sul dos E.U.A ou da diáspora lusófona ( incluindo a comunidade portuguesa de Nova Iorque )."

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Mar Sonoro


" Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momento há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim. "

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Tales to take your breath away ...


As minhas manias de leitura !

- Estou sempre a ler livros em simultâneo ;

- Os meus marcadores são personalizados ;

- Tenho uma enorme paciência para retirar excertos de obras e publicá-las no Blog ;

- Sempre que entro numa livraria, perco a noção do tempo e, segundo os meus amigos, pareço uma criança no Toys 'R' Us ( "quero este, quero este" é o que mais se ouve ) ; ;)

- Adoro cheirar as páginas dos livros ;

- Só consigo adormecer a ler ;

- Tenho o hábito de ler nos transportes públicos ;

- A praia, com o mar como música de fundo, é um dos meus locais de eleição para a leitura ;

- E já que falo em música, esta é, sempre que possível, indispensável nesses momentos !

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Li "O Processo das Bruxas de Salem" e ...

Brilhante recriação de um conjunto de acontecimentos que tiveram lugar no Séc. XVII na colónia da Baía de Massachusetts, em Salem, na qual imperavam fortes tensões sociais e religiosas.
Em Janeiro de 1692, nesta comunidade puritana, Elizabeth Parris, de nove anos e Abigail Williams, de onze, começam a exibir comportamentos menos próprios.
Logo de seguida, uma série de 'meninas' pertencentes ao mesmo círculo de amizade adoptam comportamentos semelhantes, deixando aquela estranha e fechada comunidade em estado de pânico.
Como era tradição, orações e jejuns são organizados pelo Reverendo Samuel Parris, pai de Elizabeth e tio de Abigail. De forma a descobrir a origem de tais atitudes, as crianças são pressionadas para revelarem os nomes dos seus atormentadores e assim começam por nomear três mulheres, todas elas pobres e mal vistas na sociedade.
Ganhando o gosto pela denúncia, iniciam um processo de acusações sistemáticas, tendo sido instaurado um tribunal na cidade para julgar os casos de bruxaria.
Uma onda de histerismo colectivo e de intolerância instala-se e até pessoas influentes começam a ser acusadas !
Numa escalada de loucura descontrolada, inocentes são torturados e executados na forca.
O terror paira sobre a comunidade e a normalidade só regressa a Salem, após a redacção de uma carta muito importante ...
Nunca tinha lido nada sobre este assunto, e confesso que até é um tema que atrai-me bastante, de forma que, através deste livro muito interessante fiquei a conhecer um pouco sobre esta onda de intolerância e fanatismo religioso que conduziu a uma autêntica 'caça às bruxas' !

Descobre mais em http://www.salemweb.com/
Diálogo entre Tituba e Susanna English:
" - As pessoas aqui de Salem são agrestes - prosseguiu. - Como o Inverno, quando os nevões são grandes; guardam o Inverno dentro dos seus corações, durante todo a ano. ( ... )
- Como é no local de onde vieste, Tituba ?
- Lá, as pessoas também odeiam. Mas a água é tão azul e a areia tão branca. O coral tão rosado, no mar. E os pássaros, oh, têm cores tão brilhantes que não consegues distingui-los das flores. E não consegues odiar durante muito tempo, com tanta beleza em teu redor. "

Ann Rinaldi in "O Processo das Bruxas de Salem"



" Sabia o que preocupava os nossos magistrados e por que razão os Hobbs temiam tanto Abigail.
Mulheres que liam livros, que escreviam os seus pensamentos em pergaminhos, não honravam os seus pais ou ministros. Eram consideradas perigosas. Isso vinha do tempo de Anne Hutchinson.
O Pai contara-nos a história de Anne. Fora uma autoproclamada ministra que apresentara as suas próprias crenças religiosas independentes e apresentara argumentos contra os ministros ordenados.
A Colónia da Baía de Massachusetts nunca se recompusera completamente das heresias de Anne Hutchinson. Em 1637, os seus dirigentes tinham-na julgado, por pensar por si mesma, banindo-a, juntamente com os seus seguidores, para Rhode Island.

Ann Rinaldi in "O Processo das Bruxas de Salem"

terça-feira, 25 de novembro de 2008

'Happy Hour' na Net dá 3000 livros

" A livraria virtual webboom.pt, que existe no mercado português há nove anos e ressurge com o nome wook.pt, promove hoje, amanhã e depois uma campanha na Internet onde dará a possibilidade de os clientes adquirirem livros a preço zero.
«Para se concorrer é preciso que as pessoas estejam inscritas no nosso site. Depois, terão de estar atentas porque a happy hour pode acontecer durante o dia ou durante a noite. Se nesse momento a pessoa encontrar o livro que pretende, então fica com ele gratuitamente, nós enviamo-lo para casa», explica ao DN Paulo Gonçalves, responsável pela comunicação da livraria virtual, que se encontra agregada à Porto Editora.
Há ainda uma outra possibilidade de os leitores poderem beneficiar de livros gratuitos.
Segundo explicou Paulo Gonçalves, se cada pessoa mandar um e-mail para outras dez com a informação, recebe um e-mail da livraria wook.pt, com a indicação de que a happy hour (designada por Momentos Wook) será entre o horário x e y, aumentando assim as probabilidades de se ser contemplado. "
( ... )

Artigo retirado do jornal "Diário de Notícias"

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

« Sometimes a good book will put you completely in another world. »

Vou começar hoje a ler ...

« Segunda-feira. Esta nova criatura de cabelo longo é um valente empecilho. Anda sempre à minha volta e segue-me para todo lado. Não gosto disto; não estou habituado a ter companhia. Preferia que ficasse com os outros animais. Terça-feira. A nova criatura dá nome a tudo o que aparece antes de eu poder esboçar um protesto. E o pretexto é sempre o mesmo: parece ser aquilo. Por exemplo um dodo, diz que, logo que se avista um, percebe-se que "parece um dodo". Vai ter de passar a chamar-se assim, sem dúvida. Desgasta-me tentar discutir sobre isso e nem vale a pena de qualquer maneira. Dodo ! Parece-se tanto com um dodo como eu ! segunda-feira. A nova criatura diz que se chama Eva. »

" Publicados entre 1904 e 1906 estes Diários « traduzidos do manuscrito original » são um dos mais geniais pastiches da história bíblica cujo humor delirante de Twain subverte e recria em ambiente de guerra dos sexos. "

domingo, 23 de novembro de 2008

Vou começar hoje a ler ...

" Em A hora má: o veneno da madrugada, Gabriel García Márquez constrói uma inesquecível fábula da violência colectiva.
A um povoado perdido na América do Sul chegou a hora má dos camponeses, a hora da desgraça. Certo amanhecer, enquanto o Padre Ángel se prepara para celebrar a missa, ouve-se um tiro na aldeia. Um comerciante de gado, informado da infidelidade da mulher por um papel colado na porta da sua casa, acaba de matar o seu presumível amante. É um dos pasquins anónimos cravados durante a madrugada nas portas das casas, que não são panfletos políticos mas apenas denúncias sobre a vida privada dos cidadãos, e que nada revelam que não seja do conhecimento de todos há algum tempo. São os velhos boatos que agora se tornam públicos: assassinatos, segredos de família envolvendo filhos bastardos e romances escusos. Todos se sentem atingidos e ameaçados, dos cidadãos mais eminentes aos mais humildes. Todos parecem ter algo a esconder e a revelar. Qualquer habitante pode ser o autor dos bilhetes ou a próxima vítima.
Este romance foi adaptado ao cinema pelo realizador brasileiro Ruy Guerra. "
"A alma puritana não é de molde a mostrar compaixão por aqueles que são mendigos. No código puritano não há lugar para aqueles que apresentam singularidades ou fraquezas da natureza. As virtudes puritanas são muito simples. São trabalho árduo, limpeza, disciplina do espírito e do comportamento, perseverança, coragem, piedade, conhecimento dos pecados de cada um, um desejo de perdão, ódio ao Demónio e a todas as suas obras, obediência ao clero e impaciência em relação aos idólatras.
Os idólatras, é claro, são os Baptistas, Quakers e todos os outros tipos de heréticos miseráveis."

Ann Rinaldi in "O Processo das Bruxas de Salem"

sábado, 22 de novembro de 2008

" Ele sabia como eu gostava de Boston. Era, verdadeiramente, a nossa Cidade na Colina, como lhe haviam chamado os fundadores da nossa colónia. As suas docas podiam acolher navios de cantos longínquos do mundo. As suas ruas sinuosas e alamedas estavam cheias de pessoas interessantes. As livrarias eram abundantes. Em Boston, podíamos usar as nossas melhores sedas, sem que as pessoas franzissem o sobrolho. Tinham a Universidade de Harvard, o Parque, joalheiros, docas pejadas de cargas vindas de países distantes. "

Ann Rinaldi in "O Processo das Bruxas de Salem"

Há uma palavra na terra ...

" Há uma palavra na terra
Que tem encantos do céu ;
Não é amor, nem esperança ,
Nem sequer o nome teu.

Essa palavra tão doce ,
De tanta suavidade ,
Que me faz chorar de dor
Quando a murmuro: é saudade ! "


Obras Completas de Florbela Espanca - Volume I ( 1903 - 1917 )

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

" - Aquilo que resolve o problema das horas inúteis de tédio daquelas raparigas é mais do que histórias - afirmou, com ar sapiente.
- Que é, então ? Que fazem lá dentro ?
- Lêem a sina - retrucou. - Tituba é versada em artes negras. Não a trouxe o bom reverendo das Índias Ocidentais ?
- É o que dizem.
- Lêem a sina - repetiu. - Pequenas feitiçarias. Quiromancia. Ouvi dizer que ela esconjura com a peneira e as tesouras, bonecas feitas de pano, e velas.
- Essas práticas são proibidas - disse, arquejando.
- Ouvi dizer que ela lê as folhas de chá.
- Na própria casa do reverendo ?
- Sim. "

Ann Rinaldi in "O Processo das Bruxas de Salem"

Megalivraria Byblos fecha !

" FALÊNCIA. Foi considerada um 'study case' internacional. Do sistema inteligente de pesquisa dos seus 150 mil títulos à oferta integrada de um conjunto de serviços culturais, a Byblos parecia ter tudo para justificar o investimento de quatro milhões de euros. Ontem, pouco menos de um ano após a inauguração, a maior livraria do País fechou portas após várias tentativas de encontrar um investidor que a salvasse. "

Artigo retirado do jornal "Diário de Notícias" (21.11.2008)

Bertrand estende rede a cidades do interior

" Fecham casas livreiras, enormes como a Byblos, outras abrem as portas ao público de forma mais discreta, mas eficaz. É o caso da rede de livrarias Bertrand, que já ultrapassou a fronteira, e continua a crescer mesmo em tempo de crise. Hoje, reabre a sua loja, renovada e mais ampla, no centro comercial dos Olivais, em Lisboa. Até ao final do ano, inaugura mais uma casa, desta vez na cidade das Caldas da Rainha.
Ernesto Damião, um dos responsáveis do departamento comercial, refere que a política do grupo, nos próximos tempos, sem esquecer os grandes centros onde tem reforçado a posição, é continuar a expansão nas « cidades do interior, de média dimensão ». ( ... )
Não são espaços muito grandes. « A nossa livraria ideal tem 200 metros quadrados », diz Ernesto Damião. E, normalmente, instala-se em centros comerciais. De momento, espalhadas por todo o País, existem 54 livrarias da Bertrand. ( ... )
Lojas com uma área de 200 metros quadrados, segundo o responsável do departamento comercial, « permite-nos ter, além de espaço para as novidades, um fundo razoável de livros ».
( ... )

Artigo retirado do jornal "Diário de Notícias" (21.11.2008)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Li "Diário de um Louco" de Gógol e ...

Narra na primeira pessoa e com um bom humor insuperável, o dia a dia de Aksénti Ivánovitch, funcionário público que vive a fantasia esquizofrénica do poder e da riqueza.
Este, personificação da insignificância, possui uma existência pobre e solitária que revela-se no pequeno quarto no qual habita e até na falta de importância no emprego, pateticamente simbolizada pela função que desempenha: afiador das penas de escrever do Director.

O mundo de fantasia que criou para escapar à pequenez da sua vida, aliado à paixão platónica que nutre por Sophie, filha do seu chefe, fazem com que vá gradualmente enlouquecendo. Chega a interceptar conversas e correspondências entre duas cadelas ( Medji e Fidéle ) de forma a saber mais sobre a sua amada ... hilariante o excerto em que ao ler uma das cartas, resmunga da linguagem abominável de uma delas:
" « Tem um apelido muito esquisito. Passa a vida sentado a afiar penas. O cabelo dele parece feno. O papá dá-lhe ordens como a um criado. »
Parece que esta cadela nojenta está a insinuar coisas sobre a minha pessoa. Quem disse que o meu cabelo tem semelhanças com o feno ?
« Sophie não consegue conter o riso de cada vez que olha para ele. »
Mentira, sua cadela maldita ! Que linguagem abjecta ! Pensas que não sei que são intrigas invejosas ? ... "

À medida que vai passando da sanidade para a loucura, também as datas do seu diário vão-se tornando cada vez mais estranhas. Chega a inventar meses, como Martubro ( junção de Março e Outubro ) ou 43 de Abril do ano 2000, dia em que descobre ser Fernando VIII, rei de Espanha. É aqui que começa o seu fim !
" Ano 2000, Abril, dia 43
Hoje é um dia de grande solenidade. A Espanha tem um rei. Achou-se um rei. Esse rei sou eu. Foi precisamente hoje que fiquei a sabê-lo. Confesso, foi como se o clarão de um relâmpago me iluminasse. Não compreendo como alguma vez pude pensar e imaginar que era um conselheiro titular. Como se me pôde meter na cabeça esta ideia absurda ? Menos mal que ninguém se tenha lembrado de me fechar num manicómio. "

Finalmente conduzido ao manicómio, chega mesmo a delirar que os maus tratos que aí sofre provenham de hábitos nacionais inusitados.
" ... Nisto entrou o chanceler-mor. Ao vê-lo, toda a gente se dispersou. Eu, como rei, fiquei sozinho. E o chanceler, para meu espanto, bateu-me com o pau e enxotou-me para o meu quarto. É esta a grande força dos costumes tradicionais em Espanha ! "

"Diário de um Louco" mais não é que uma metáfora sobre a alienação, cujo texto ao mergulhar profundamente nas causas sociais da loucura, deixa-nos entre o riso e a comoção !

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Li "Castelos de Raiva" e ...

"Castelos de Raiva" ... primeiro romance de Alessandro Baricco, aquele que, em 1991, marcou a sua estreia como escritor !

Um livro belíssimo que renova a nossa alma e deslumbra-nos pela sua perfeição ! Uma verdadeira sinfonia de enredos carregados de múltiplos sentidos, constituindo por isso uma ode à diversidade, à heterogeneidade. Obra muito fantasiosa, quase que a transbordar de criatividade e musicalidade.

Romance subtil e cheio de surpresas onde tudo gira em torno do sonho, como se este bastasse, numa cidade onde não encontra qualquer tipo de obstáculos ou limitações. Quinnipak, cidade sem tempo e sem lugar, onde o desejo se sobrepõe à razão. Ali, o sonho alimenta sonhos, utopias que raiam a loucura e personagens surreais passeiam pelas páginas do livro sem que alguma vez sejam desacreditadas ! Apenas para levantar um pouco a ponta do véu, deixo-vos aqui alguns exemplos muito criativos de sonhadores:

- Pekisch, personagem que sabia ver os sons e as cores de que são feitos os ruídos, cientista de estranhos inventos, tais como: um surreal auto-auscultador ( tubo por onde as palavras sobem e descem, permitindo às pessoas escutarem a sua própria voz ) e um não menos original humanófono ( espécie de órgão no qual em lugar das canas estavam pessoas, em que cada uma emitia uma nota e uma só: a sua nota pessoal );

- Hector Horeau, arquitecto genial que cultivava uma ideia bastante precisa: « o mundo resultaria sem dúvida muito melhor se se começassem a construir casas e palácios não de pedra, nem de tijolo, nem de mármore, mas sim de vidro. Perseguia afincadamente a hipótese de cidades transparentes ».
Daí até à idealização do "Crystal Palace", palácio de vidro e oitava maravilha do mundo, concebida para hospedar a memorável Grande Exposição Universal dos Produtos da Técnica e da Indústria, foi apenas um passo !

"Castelos de Raiva ?!? Não ... diria antes, Castelos de Sonhos ! ;)
E, tal como diz Fernando Pessoa, «O Homem é do tamanho do seu sonho».
" Porém, embora indubitavelmente seja maravilhosa a luz do fim da tarde, há algo que consegue ser ainda mais bonito do que a luz do fim da tarde, algo que acontece precisamente quando, por incompreensíveis jogos de correntes, brincadeiras de ventos, caprichos do céu, grosserias recíprocas de nuvens defeituosas, e circunstâncias fortuitas, às dezenas, uma verdadeira colecção de casos, e de absurdos - quando, naquela luz irrepetível que é a luz do fim da tarde, inopinadamente, chove. Há o sol, o sol do fim da tarde, e chove. É o máximo. E não há homem, embora limado pela dor ou arrasado pela ansiedade, que diante de um tal absurdo, não sinta agitar-se algures um irreprimível desejo de rir. "

Alessandro Baricco em "Castelos de Raiva"
" Jun Rail. O rosto de Jun Rail. Quando as mulheres de Quinnipak se olhavam ao espelho, pensavam no rosto de Jun Rail. Quando os homens de Quinnipak olhavam para as suas mulheres, pensavam no rosto de Jun Rail. O cabelo, as maçãs do rosto, a pele branquíssima, a dobra dos olhos de Jun Rail. Mas acima de qualquer outra coisa - quer risse ou gritasse ou se calasse ou simplesmente ficasse assim, como que à espera - a boca de Jun Rail. A boca de Jun Rail não deixava em paz. Perfurava a fantasia, simplesmente. Borrava os pensamentos. «Um dia Deus desenhou a boca de Jun Rail. Foi então que lhe surgiu aquela estranha ideia do pecado.» "

Alessandro Baricco em "Castelos de Raiva"

domingo, 16 de novembro de 2008

Vou começar agora a ler ...

" Salem 1692: uma onda de histeria colectiva, fanatismo e intolerância degenera numa feroz caça às bruxas: dezanove pessoas foram enforcadas e um homem lapidado depois de um tribunal os ter considerado culpados de fazer pactos com o diabo.
Ann Rinaldi é uma autora consagrada de romances históricos, tendo recebido o prémio de melhor livro da American Library Association pela sua obra Time Enough for Drums. Pesquisadora entusiasta de documentos históricos inéditos, encontrou nas actas dos processos de Salem o relato de Susanna English, em que se inspira este romance. "

"O Processo das Bruxas de Salem" de Ann Rinaldi

sábado, 15 de novembro de 2008

Li "o apocalipse dos trabalhadores" e ...

"o apocalipse dos trabalhadores " ... nesta única obra que, até agora li de Valter Hugo Mãe, uma das primeiras coisas que "saltou-me logo à vista" foi o facto do autor português recusar-se a utilizar maiúsculas. Por aquilo que andei a pesquisar e, como o próprio o diz, relaciona-se com uma justa pretensão de destronar determinadas ideias feitas de que algumas palavras são mais importantes do que as outras.
Teoria engraçada ... ;)
Com uma facilidade enorme para relacionar espaços sem cortes bruscos, o escritor recorre a um constante saltitar entre vários cenários e com isso constrói uma narrativa cheia de ritmo, que alia o humor às tragédias humanas, umas mais amargas que outras.
Deparei-me com uma verdadeira paródia negra, em que apesar de até nem faltarem hilariantes provocações ao divino ( o céu pode não ser mais do que um local onde à entrada se vendem souvenirs da terra ) não deixa de abordar temas tão práticos e reais do quotidiano, tais como: o aumento exponencial do nº de emigrantes no nosso país, sendo importante olhar para a diferença e aceitá-la; a vida dura daqueles que sem empregos estáveis, e dos que com trabalho muito precário e mal pago, levam uma vida de desenrasque constante e o recorrente tema da fragilidade feminina numa sociedade claramente patriarcal.
Através de um sarcasmo e ironia inteligentemente refinados, Valter Hugo Mãe foi bem sucedido ao pintar de uma forma quase que singela a vida tal como ela é ... difícil.
Gostei bastante e recomendo vivamente este retrato social e humano do Portugal contemporâneo ! Um retrato que situa-se no difícil limiar da lágrima e do sorriso.
" a maria da graça recuou um passo, encheu o peito de tanta coisa que poderia ter respondido de mil maneiras, boas ou más, tão diferentes e todas tão importantes. parou os olhos no ar expectante do desconhecido e respondeu, não me interessa o amor, isso é coisa de gente desocupada que não tem o que fazer. "

Valter Hugo Mãe em "o apocalipse dos trabalhadores"

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O que escrevi ...


O azul do céu ... azul bonito, daquele tom mar escuro com pitada de sal ! A adorná-lo umas pasmadas nuvens de couve-flor, as quais, com as suas barrigas rechonchudas murmuravam brandamente entre si, escondendo-se por detrás da montanha de pão ! Esta, salpicada por pós de fermento, deixava fluir por entre o seu sorriso castanho uma bela cascata de água, cujos sons intensos, variados e repetitivos adquiriam uma harmonia quase musical. Os agricultores, à medida que íam percorrendo os caminhos de cominhos, pisavam as ervas de especiarias e ficavam boquiabertos com o que os seus olhos comiam. Aquilo que ao longe se avistava ser um campo virgem e selvagem, uma mancha escura, uma imagem sombria, mais não era que uma colorida e verdejante floresta de brócolos ! Estes, deixavam pender de seus tenros ramos, redondas ervilhas que aproveitavam o rumorejar do vento para fazerem chegar às batatas rochedo os mais doces dos segredos !

... e comentário ao que escrevi !

" Indo directamente para a radiografia do seu trabalho, pode dizer-se que está bem estruturado e que estabelece um dialogismo interessante com o hipotexto de Mário Ventura. No início dá conta, de modo abrupto da aparição do quadro natural (“O azul do céu ... azul bonito, daquele tom mar escuro com pitada de sal ! A adorná-lo umas pasmadas nuvens de couve-flor…”); depois, define uma segunda fase descritiva, onde o ponto de vista físico subitamente se abre (entre “Os agricultores, à medida que íam percorrendo os caminhos de cominhos…” e “…ao longe se avistava ser um campo virgem e selvagem, uma mancha escura, uma imagem sombria, mais não era que uma colorida e verdejante floresta de brócolos!”). Na terceira fase, surgem finalmente os actantes que se confrontam com a passagem cosmomórfica do tempo (num relato que quase escapa praticamente à tentação narrativa; veja-se: “aproveitavam o rumorejar do vento para fazerem chegar às batatas rochedo os mais doces dos segredos!”). "
Com toda a estima e amizade, Luís Carmelo.

Desafio da estante-de-livros


Ora aqui está um interessante desafio literário proposto pela Canochinha do blog estante-de-livros ...

" Com o aproximar do final de 2008, dei por mim a pensar no total de livros que terei lido durante o ano. Até à data, e de acordo com os registos do blog, li 58 livros (na verdade, serão mais 5 ou 6, sobre os quais acabei por não falar aqui). Apesar de andar com menos tempo para ler do que é costume, penso que ficarei perto dos 75 livros lidos este ano.Tenho visto vários desafios curiosos em blogs literários internacionais, nomeadamente os que fixam uma meta em relação ao número de livros a ler em 2009 (50, 100, etc). Não me parece que consiga "despachar" 100 livros num ano, mas julgo que facilmente chego aos 50. Portanto, a meta que vou fixar são 75 livros (em média, terei de terminar um livro em pouco menos de 5 dias). Vamos ver até onde consigo ir! Desde já, estão convidados a fixarem as vossas metas e a partilhá-las connosco/fazer-lhes referência no vosso blog. "


Desafio aceite, esperando alcançar em 2009 a meta dos 50 livros ! ;)
A devido tempo, colocarei na barra lateral direita do meu blog a lista de livros lidos no ano em questão, sem esquecer o respectivo nº de paginas !

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O Romance através dos Grandes Romances


PARTE IV
...
Nisto, viu uma osga a passear por entre os rochedos. Olharam-se nos olhos e Maria Eduarda vislumbrou nela todo o seu passado, toda a sua felicidade. Deixou-se conduzir por ela, por aquela ténue esperança de esquecimento e recuperação de sentimentos há tanto tempo adormecidos. De uma forma arriscada, cativante e extravagante deixou-se levar pelas suas sábias palavras que a lembravam sempre da importância de mantermos a autonomia da nossa própria identidade, personalidade e nunca submetermo-nos à escravidão de entregarmos a alma a alguém que não nós próprios.
A osga conduziu-a até a um cágado velho e este, recordando-lhe o poder do amor verdadeiro, encetou com ela uma viagem pelo mundo dos sonhos. Nesse sonho, Maria Eduarda imaginou-se Fermina Daza ... sim, as personagens do seu romance predilecto e, tal como elas, Maria Eduarda e Afonso viveram durante 51 anos, nove meses e quatro dias, um amor incondicional, total, eterno, persistente, sem idade nem espaço físico e desafiador dos limites humanos. Amavam-se de tal forma que Afonso comia pétalas de rosa e bebia frascos de perfume de forma a sentir-se próximo da essência feminina da sua amada. Maria Eduarda escrevia de tal modo apaixonante que transformava os seus guiões em cartas de amor. E, por ironia do destino, vivia num estado de permanente dualidade, iludindo o grande amor da sua alma, Afonso, com fugazes episódios de paixão carnal, Henrique.
Sim, ela sabia que a única coisa que restaria de Henrique seria uma herança do vazio. Com ele percorreria o percurso sinuoso do amor impossível, a incerteza da paixão humana, a demanda de algo inatingível . Mas não é isso que, no fundo, todos nós desejamos ?

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O Romance através dos Grandes Romances

PARTE III

Não podemos escolher as pessoas que amamos !
Estamos sempre a querer viver um grande amor e quando finalmente nos é dada essa oportunidade, ficamos com medo de chorar, de sofrer, de verter lágrimas amargas.
Henrique fazia-a verter essas lágrimas, mas Afonso fazia brotar de seus lábios sorrisos doces.
Sabia que tinha procedido mal ao envolver-se daquela forma com Henrique, mas tinha sido inevitável. Ele tinha-se imposto na sua vida, no seu pensamento, contribuindo para o desmoronamento de todo o seu mundo afectivo e sentimental. Tinha bastado apenas um olhar ...
Numa tentativa de repor a organização do seu mundo interno, Maria Eduarda acabou por aceitar o pedido de casamento de Afonso.
Simultaneamente, tentava expiar este sofrimento através do solitário ofício de imaginação da escrita. Para isso, encetou o empreendimento de escrever um livro, um romance.
Apenas sabia que queria que esse romance povoasse a sua imaginação com imagens coloridas e surreais e que através das suas palavras, a fizesse sentir parte integrante de um inebriante poema visual onde a beleza do mundo natural ocupasse um lugar destacado. Maria Eduarda queria escrever um romance, cuja bela história que a levaria a imaginar e a viajar pelo mundo inteiro, a fizesse também esquecer, ainda que de forma fugaz, toda a selvajaria daquele sentimento turbulento que nutria por Henrique.
...