domingo, 2 de março de 2008

" O Eterno Marido " Fiódor Dostoiévski



Tendo como ponto de partida o reencontro do " eterno marido ", Pável Pávlovitch, com o ex-amante da falecida mulher, assistimos ao desenrolar perturbante e inquietante de um relacionamento sadomasoquista, marcado por grandes tensões, emoções e ódios !



Esta relação dúbia, com um sem saber se o outro saberia ou não a verdade sobre o facto, mantem-nos incondicionalmente presos ao livro, incapazes de o deixar até ao virar da última página.



Sempre numa atmosfera de suspense embriagador, e através de uma escrita profunda e de personagens psicologicamente densas, protagonistas de diálogos fortes e inteligentes, vemo-nos confrontados com aquilo que realmente possa existir na essência mais profunda de cada um de nós !









" Devia, pois, haver algo de invulgar nessa mulher: um dom de sedução, escravização e domínio!

É uma daquelas mulheres que parecem ter nascido para ser infiéis. Tais mulheres nunca perdem a inocência em solteiras: a sua lei da natureza exige que se casem para tal. O marido é o seu primeiro amante, mas só depois do casamento. Ninguém sabe casar-se com mais facilidade e esperteza do que elas. Quando a seguir surge um amante, a culpa é sempre do marido. E tudo acontece com toda a sinceridade: estas mulheres sentem-se sempre com razão e, claro, absolutamente inocentes.

Veltchanínov estava convencido de que existia, de facto, este tipo de mulheres e, também, de que existia o tipo correspondente de maridos, cujo único destino seria precisamente o de corresponder a este tipo feminino.

Na sua opinião, a essência de tais maridos consiste em serem, por assim dizer, « eternos maridos » ou, melhor, serem na vida apenas maridos e mais nada.

Um homem assim nasce e desenvolve-se unicamente para se casar e para, depois do casamento, se tornar imediatamente num apêndice da sua mulher, mesmo no caso de ter um carácter individual incontestável.

A principal característica deste marido é um enfeite bem conhecido. Não pode deixar de ser cornudo, do mesmo modo que o Sol não pode deixar de brilhar, mas não só nunca sabe disso, como também, de acordo com as leis da própria natureza, é incapaz de sabê-lo. "


Fiódor Dostoiévski in " O Eterno Marido "

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