segunda-feira, 19 de maio de 2008

Jane Austen ( 1775 - 1817 )

" O entusiasmo, aparentemente, não era um traço distintivo delas, pelo contrário: o que impressiona nas personagens conhecidas dos romances de Jane Austen é, sobretudo, o carácter resoluto, mas só na medida em que são sujeitos da acção. Então, determinadas e animadas de presença de espírito, avançam em direcção ao objectivo traçado, sempre movidas por um sincero entusiasmo, sem vestígios de egoísmo ou oportunismo. É certo que, entre a escolha e o momento de alcançar a meta, têm de vencer todo um percurso de obstáculos, feito de preconceitos e convenções, e dos inerentes aborrecimentos e privações. A dose certa de sentimento e carácter não basta para se ser totalmente livre: antes e não raro, a liberdade tem de se mostrar associada ao sofrimento.

Pouco sabemos da vida de Jane Austen. «Duvido», escreveu James Edward Austen-Leigh, seu sobrinho, que «fosse possível nomear outro autor importante cuja pessoa tivesse permanecido mergulhada numa tão absoluta obscuridade.» Mas não devemos ver nisso uma manifestação de automodéstia feminina: são muitas as provas de que a opção de Jane Austen pela invisibilidade foi plenamente consciente, por entender ser a atitude certa a tomar como escritora. Não queria que a identificassem pela sua vida exterior, e sim pelas suas obras. Mas o nosso desconhecimento prende-se, também, com a situação das fontes. Cassandra, irmã de Jane Austen e autora do único retrato autêntico que nos chegou dela - ainda que apenas um esboço -, não só destruiu ou apagou excertos das cartas que lhe escreveu, como fez o mesmo com as que recebeu dela.

Jane Austen apresenta-nos os seres humanos quando as modernas formas de auto-realização ainda não determinavam os seus percursos de vida, logo sem o stresse e o sentimento de exaustão que elas envolvem. As personagens principais, sobretudo as femininas, assumem o seu destino com coragem, sinceridade e sem regatear. Fazem-no em nome de um dever com elas próprias e não com as convenções instituídas. A nobreza da sua autonomia radica numaa felicidade suprema que Jean-Jacques Rousseau, fonte inspiradora de Jane Austen, designou por «sentimento da existência» - um estado de amor a si que permite ao ser humano desfrutar-se exclusivamente, bem como à sua existência, e bastar-se por completo. "

Stefan Bollmann in "Mulheres que escrevem vivem perigosamente"

1 comentário:

Pedro disse...

Gostava muito de ler "Orgulho e Preconceito", pode ser que seja um dos próximos a comprar (depois da Feira do Livro, que já tem os livros contados!).