segunda-feira, 23 de junho de 2008

Comecei hoje a ler ...


" A lápide saltou em pedaços à primeira pancada do alvião e uma cabeleira viva, de uma intensa cor de cobre, espalhou-se para fora da cripta. O mestre-de-obras quis retirá-la completa com o auxílio dos seus operários, mas quanto mais puxavam, mais comprida e abundante ia surgindo, até saírem as últimas madeixas ainda presas a um crânio de criança. No nicho não ficaram senão uns ossitos pequenos e dispersos e na lápide de cantaria carcomida pelo salitre apenas era legível um nome sem apelidos: Sierva Maria de Todos los Angeles. Estendida no chão, a esplêndida cabeleira media vinte e dois metros e onze centímetros.

O mestre-de-obras explicou-me sem espanto que o cabelo humano crescia um centímetro por mês mesmo depois da morte e vinte e dois metros pareciam-lhe uma medida correcta para duzentos anos. A mim, pelo contrário, não me pareceu assim tão trivial porque a minha avó, quando eu era criança, contava-me a lenda de uma marquesinha de doze anos cuja cabeleira se arrastava como a cauda de um véu de noiva, que morrera com raiva devido à dentada de um cão e que era venerada entre a população do Caribe pelos seus muitos milagres.

A ideia de que aquela tumba pudesse ser a sua foi a minha notícia daquele dia e a origem deste livro. "

Gabriel García Márquez in "Do Amor e outros Demónios"


1 comentário:

Pedro disse...

De Márquez já li "Olhos de Cão Azul" e gostei, pois é um tipo de escrita diferente, quase surreal. O próximo livro que lerei dele será "Cem Anos de Solidão", "O Amor em Tempos de Cólera" ou "Crónica de Uma Morte Anunciada" (já tenho todos cá!).