sábado, 21 de junho de 2008

Doris Lessing ( * 1919 )


" Nascida na antiga Pérsia ( actual Irão ), criada na outrora Rodésia ( hoje África do Sul ), Doris Lessing vive em Londres desde 1949. A sua obra mais famosa, O Caderno Dourado, veio a lume em 1962. Leitoras do mundo inteiro viram nela a reprodução fiel da sua própria experiência, identificando na figura da protagonista - Anna Wulf, uma mulher desiludida com os homens, atormentada por dúvidas quanto ao compromisso político assumido e bloqueada na sua capacidade de escrita - alguém como elas. O livro tornou-se, pois, um ícone do feminismo, facto que a autora menospreza não porque lhe repugnem os objectivos do movimento feminista, mas por recusar ser tomada como uma figura salvadora - sem esquecer o facto de, apesar de se tratar de um romance filosófico, O Caderno Dourado não ser uma tese. Serve-lhe de enquadramento uma história convencional, intitulada Mulheres Livres, que retrata a crise existencial de Anna, uma mulher na casa dos quarenta, mãe divorciada de uma filha e em tratamento psicoterapêutico. A acção é intercalada pelos apontamentos que, receando o caos que lhe vai na alma, Anna regista em quatro pequenos cadernos: um preto, com as lembranças da África do Sul; outro vermelho, dedicado às suas actividades políticas em Londres; um amarelo, contendo os «esforços da sua imaginação», com ideias e projectos de livros que tenciona escrever; um azul, correspondendo à busca da sua identidade como escritora. Enfim, o quinto caderninho, o dourado, trata de um amour fou, que será, quer no caso de Anna quer no do amante, a via para a autocura.

São visíveis, na obra de Doris Lessing, laivos do conceito de «individualização», elaborado pelo psicanalista suíço Carl Gustav Jung e segundo o qual as crises existenciais correspondem a histórias do desenvolvimento do ser humano no sentido de uma tomada de consciência mais vasta. Por outras palavras: o consciente é amputado de uma parte anacrónica e, desse processo doloroso, resulta, em circunstâncias favoráveis, um novo todo da personalidade. É este, também, o modelo dos livros imbuídos de ficção visionária de Doris Lessing, entre os quais, por exemplo, The Memoirs of a Survivor, surgido em 1974, quando a consciência da catástrofe no mundo ocidental se agudizou ao extremo.

Stefan Bollmann in "Mulheres que escrevem vivem perigosamente"

2 comentários:

Pedro disse...

Nunca li nada da autora, mas a minha mãe já leu "O Quinto Filho" e está de momento a ler "O Sonho Mais Doce", que está a adorar. Tratarei de ler mais tarde, quando os meus próprios livros já tiverem todos arrumados!

De facto, uma grande escritora que inspira mulheres de todo o mundo e que, finalmente, tem a honra de receber o prémio Nobel (coisa que ela própria já não acreditava ser possível!).

Butterfly disse...

Pedro, concordo plenamente contigo!

Também ainda não li nada dela, mas tenho em casa "O Sonho Mais Doce" para ler!
Depois gostaria de saber a opinião da tua mãe sobre o livro ! ;)

Bjinhos