domingo, 1 de junho de 2008

" A Mulher Certa " de Sándor Márai

Romance que conta a história de um triângulo amoroso através da perspectiva de cada um dos amantes ( Marika, Péter e Judit ), em três monólogos distintos.
A acção começa em Budapeste, passa por Itália e estende-se aos E.U.A.
Marika relata a sua visão dos factos anos depois do seu divórcio de Péter, quando este vive com Judit. De modo patético e surpreendente, conduz-nos pelos meandros de uma relação aparentemente correcta e adequada à classe social a que ambos pertencem ( burguesia ). Todavia, Marika intui que algo se interpõe entre os dois e, acidentalmente, descobre que o marido não consegue esquecer a atracção que sente por Judit, uma das criadas da casa.
Por sua vez, Péter, ao descrever o seu relacionamento com a ex-mulher, não lhe censura nada, pois reconhece que o seu distanciamento e posterior divórcio obedece a uma paixão cega.
Péter abandona Marika e casa com Judit, relação desigual que parece conter a fatalidade da infelicidade.
Ao contar o seu envolvimento com Péter, Judit remonta à sua infância pobre e às drásticas diferenças entre a sua experiência do mundo e o que aprendeu ao começar a trabalhar na mansão do marido. Embora este o tenha descoberto talvez demasiado tarde, neste relacionamento existe ressentimento e vingança, pois Judit sabe que nunca poderá pertencer a um mundo ( o da burguesia ) que para ela continua a ser um mistério.
Estas narrações não só descrevem com subtileza os pensamentos amorosos dos protagonistas; Márai salpica os relatos com pormenores psicológicos e de costumes, que amplificam o mundo íntimo e social daqueles.
Deparamo-nos com um romance que o escritor aproveita para explorar de forma densa os mais íntimos recantos da condição humana através de um estilo realista e despojado. Aqui se cruzam a traição, o ciúme, a paixão, a vida, a morte, o desalento e essa eterna questão de entender o que é, afinal, o amor, e qual o papel que as paixões desempenham na vida de cada um.
Com uma prosa fluida, de grande qualidade, que mostra a psicologia de personagens atormentados, insatisfeitos, infelizes; ao mesmo tempo utiliza pequenos pormenores de grande eficácia estética para descrever a grandeza e miséria de um mundo em vias de extinção.

1 comentário:

Pedro disse...

De grande qualidade, os teus excertos provaram o facto. Gostei de saber que o escritor explora essas emoções e a condição humana, revelando uma obra profunda e, mais uma vez, de grande qualidade.

Espero vir a ler "As velas ardem até ao fim". Está na minha lista, só resta saber quando!