segunda-feira, 1 de setembro de 2008

" Os nossos corpos. No cemitério de pianos, a noite era negra, era absoluta. Dentro desse tempo opaco, os nossos corpos existiam. Os meus braços salvavam-se ao envolvê-la. As minhas mãos procuravam paz na superfície certa das suas costas. Os nossos lábios sabiam como encontrar-se. As nossas bocas construíam formas: tantos detalhes: formas que ninguém em toda a história do mundo conseguiu imaginar, formas impossíveis de serem imaginadas, formas impossíveis de serem imaginadas por pessoas vivas com pensamentos comuns de pessoas, formas irrepetivelmente concretas. Os nossos lábios. As nossas línguas sentiam o sabor das nossas bocas: a saliva morna, o sangue morno. E os meus lábios alastravam. Os meus lábios estendiam-se na pele do seu rosto. Segurava-lhe a cabeça: os dedos entre os cabelos: e os meus lábios misturavam-se na pele do seu rosto ... "

José Luís Peixoto in "Cemitério de Pianos"

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