sábado, 8 de novembro de 2008

" De início - aliás, ainda antes, havia já muito tempo - , um problema o interessava: por que é que quase todos os crimes se deslindam e as pistas deixadas por quase todos os criminosos se descobrem com tanta facilidade. Chegou, passo a passo, a conclusões muito variadas e, na sua opinião, a causa principal residia não tanto na impossibilidade material de esconder o crime, mas no próprio criminoso. O criminoso, qualquer criminoso, quase, fica sujeito no momento do crime a uma espécie de declínio da vontade e do juízo, substituídos por uma fenomenal leviandade infantil, precisamente no momento em que é mais necessário ajuizar bem e ter muito cuidado. No seu entender, o resultado era que tal eclipse mental e tal declínio da vontade se abatem sobre o indivíduo como uma doença, se desenvolvem gradualmente e atingem o seu auge pouco antes do instante do crime e algum tempo depois, dependendo isso da natureza do indivíduo; depois desaparecem, como qualquer doença pode desaparecer. Pois bem, eis a questão: é a doença que engendra o crime, ou é o próprio crime que, pela sua natureza especial, é sempre acompanhado por uma espécie de doença ? "

Fiódor Dostoiévski em "Crime e Castigo"

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