quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Li "Diário de um Louco" de Gógol e ...

Narra na primeira pessoa e com um bom humor insuperável, o dia a dia de Aksénti Ivánovitch, funcionário público que vive a fantasia esquizofrénica do poder e da riqueza.
Este, personificação da insignificância, possui uma existência pobre e solitária que revela-se no pequeno quarto no qual habita e até na falta de importância no emprego, pateticamente simbolizada pela função que desempenha: afiador das penas de escrever do Director.

O mundo de fantasia que criou para escapar à pequenez da sua vida, aliado à paixão platónica que nutre por Sophie, filha do seu chefe, fazem com que vá gradualmente enlouquecendo. Chega a interceptar conversas e correspondências entre duas cadelas ( Medji e Fidéle ) de forma a saber mais sobre a sua amada ... hilariante o excerto em que ao ler uma das cartas, resmunga da linguagem abominável de uma delas:
" « Tem um apelido muito esquisito. Passa a vida sentado a afiar penas. O cabelo dele parece feno. O papá dá-lhe ordens como a um criado. »
Parece que esta cadela nojenta está a insinuar coisas sobre a minha pessoa. Quem disse que o meu cabelo tem semelhanças com o feno ?
« Sophie não consegue conter o riso de cada vez que olha para ele. »
Mentira, sua cadela maldita ! Que linguagem abjecta ! Pensas que não sei que são intrigas invejosas ? ... "

À medida que vai passando da sanidade para a loucura, também as datas do seu diário vão-se tornando cada vez mais estranhas. Chega a inventar meses, como Martubro ( junção de Março e Outubro ) ou 43 de Abril do ano 2000, dia em que descobre ser Fernando VIII, rei de Espanha. É aqui que começa o seu fim !
" Ano 2000, Abril, dia 43
Hoje é um dia de grande solenidade. A Espanha tem um rei. Achou-se um rei. Esse rei sou eu. Foi precisamente hoje que fiquei a sabê-lo. Confesso, foi como se o clarão de um relâmpago me iluminasse. Não compreendo como alguma vez pude pensar e imaginar que era um conselheiro titular. Como se me pôde meter na cabeça esta ideia absurda ? Menos mal que ninguém se tenha lembrado de me fechar num manicómio. "

Finalmente conduzido ao manicómio, chega mesmo a delirar que os maus tratos que aí sofre provenham de hábitos nacionais inusitados.
" ... Nisto entrou o chanceler-mor. Ao vê-lo, toda a gente se dispersou. Eu, como rei, fiquei sozinho. E o chanceler, para meu espanto, bateu-me com o pau e enxotou-me para o meu quarto. É esta a grande força dos costumes tradicionais em Espanha ! "

"Diário de um Louco" mais não é que uma metáfora sobre a alienação, cujo texto ao mergulhar profundamente nas causas sociais da loucura, deixa-nos entre o riso e a comoção !

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