sábado, 15 de novembro de 2008

Li "o apocalipse dos trabalhadores" e ...

"o apocalipse dos trabalhadores " ... nesta única obra que, até agora li de Valter Hugo Mãe, uma das primeiras coisas que "saltou-me logo à vista" foi o facto do autor português recusar-se a utilizar maiúsculas. Por aquilo que andei a pesquisar e, como o próprio o diz, relaciona-se com uma justa pretensão de destronar determinadas ideias feitas de que algumas palavras são mais importantes do que as outras.
Teoria engraçada ... ;)
Com uma facilidade enorme para relacionar espaços sem cortes bruscos, o escritor recorre a um constante saltitar entre vários cenários e com isso constrói uma narrativa cheia de ritmo, que alia o humor às tragédias humanas, umas mais amargas que outras.
Deparei-me com uma verdadeira paródia negra, em que apesar de até nem faltarem hilariantes provocações ao divino ( o céu pode não ser mais do que um local onde à entrada se vendem souvenirs da terra ) não deixa de abordar temas tão práticos e reais do quotidiano, tais como: o aumento exponencial do nº de emigrantes no nosso país, sendo importante olhar para a diferença e aceitá-la; a vida dura daqueles que sem empregos estáveis, e dos que com trabalho muito precário e mal pago, levam uma vida de desenrasque constante e o recorrente tema da fragilidade feminina numa sociedade claramente patriarcal.
Através de um sarcasmo e ironia inteligentemente refinados, Valter Hugo Mãe foi bem sucedido ao pintar de uma forma quase que singela a vida tal como ela é ... difícil.
Gostei bastante e recomendo vivamente este retrato social e humano do Portugal contemporâneo ! Um retrato que situa-se no difícil limiar da lágrima e do sorriso.

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