domingo, 2 de novembro de 2008

Li "O Nariz" de Nikolai Gógol e ...

Carlo Collodi ( 1826 - 1890 ) com o seu célebre Pinóquio e Nikolai Gógol com o não menos fantástico Nariz, parecem evidenciar na literatura do Séc. XIX um determinado grau de fascínio por este órgão !
Escrito entre 1835 e 1836, "O Nariz" de Gógol assume o cariz de um conto cómico-satírico no qual imperam o inesperado, a fantasia, a alegria, a originalidade ...
Trata-se de uma narrativa sobre um oficial de São Petersburgo, cujo nariz abandona o seu rosto e decide ter vida independente, ora passeando ao longo da Avenida Névski, ora encarnando a personagem de um importante Conselheiro de Estado.
Apesar de poder ser considerado como uma divertida história com o simples intuito de entreter, este conto assume todos os contornos de uma crítica burlesca à sociedade russa. Sociedade essa, extremamente burocrática e dividida em classes, onde o dinheiro e o poder desempenham um papel preponderante.
Kovaliov, o homem que é despojado do respectivo nariz, é alguém que procura a ascensão social, vivendo num mundo de aparências, onde o dinheiro e a roupa que se veste são primordiais.
Esta perca, numa sociedade onde a aparência é então fundamental, funciona como processo de emasculação de um homem que se vê impossibilitado de prosseguir a sua vida normal. Deixa de ser Kovaliov, transformando-se num ser incompleto, incapaz de sobreviver e prevalecer numa vida em comunidade.
A forma como o outro o vê e o olha é algo que o atormenta durante todos os acontecimentos.
Bastante actual, deparei-me com um conto revelador de um mundo que impossibilita a ascensão de um ser imperfeito e que confere uma importância desmedida ao visual, à aparência e ao físico.

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