terça-feira, 11 de novembro de 2008


" - Nesse artigo eu analisava, se não me engano, o estado psicológico do criminoso durante todo o processo do crime.

- Exactamente; e insiste em que o acto da execução do crime é sempre acompanhado por uma doença. Muitíssimo original, mas ... na verdade não foi essa parte do artigo que me interessou, mas uma ideia que exprime já no final, ideia que, lamentavelmente, o senhor expõe de modo indirecto, muito vago ... Numa palavra, tente lembrar-se, o senhor insinua que existem, certos indivíduos no mundo que podem ... ou antes, que não só podem, mas que têm o pleno direito de cometer todo o género de violências e crimes, e que para eles, supostamente, a lei não existe.
... no artigo dele as pessoas, de certo modo, são classificadas em «vulgares» e «invulgares». Os vulgares têm de ser obedientes e não têm o direito de transgredir a lei, porque, está a ver, são vulgares. Os invulgares, por seu lado, têm o direito de cometer crimes e transgredir a lei de todas as maneiras e feitios, precisamente porque são invulgares. É isso que vem no seu artigo, se não me engano ?

- Eu, pura e simplesmente, insinuei que uma pessoa invulgar tem o direito ... ou seja, não o direito oficial, mas o direito individual de dar à sua consciência a permissão de transpor ... certos obstáculos, e isso apenas no caso de a realização da sua ideia o exigir ( às vezes uma ideia salvadora para toda a humanidade ) . "

Fiódor Dostoiévski em "Crime e Castigo"

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