quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O Romance através dos Grandes Romances


PARTE IV
...
Nisto, viu uma osga a passear por entre os rochedos. Olharam-se nos olhos e Maria Eduarda vislumbrou nela todo o seu passado, toda a sua felicidade. Deixou-se conduzir por ela, por aquela ténue esperança de esquecimento e recuperação de sentimentos há tanto tempo adormecidos. De uma forma arriscada, cativante e extravagante deixou-se levar pelas suas sábias palavras que a lembravam sempre da importância de mantermos a autonomia da nossa própria identidade, personalidade e nunca submetermo-nos à escravidão de entregarmos a alma a alguém que não nós próprios.
A osga conduziu-a até a um cágado velho e este, recordando-lhe o poder do amor verdadeiro, encetou com ela uma viagem pelo mundo dos sonhos. Nesse sonho, Maria Eduarda imaginou-se Fermina Daza ... sim, as personagens do seu romance predilecto e, tal como elas, Maria Eduarda e Afonso viveram durante 51 anos, nove meses e quatro dias, um amor incondicional, total, eterno, persistente, sem idade nem espaço físico e desafiador dos limites humanos. Amavam-se de tal forma que Afonso comia pétalas de rosa e bebia frascos de perfume de forma a sentir-se próximo da essência feminina da sua amada. Maria Eduarda escrevia de tal modo apaixonante que transformava os seus guiões em cartas de amor. E, por ironia do destino, vivia num estado de permanente dualidade, iludindo o grande amor da sua alma, Afonso, com fugazes episódios de paixão carnal, Henrique.
Sim, ela sabia que a única coisa que restaria de Henrique seria uma herança do vazio. Com ele percorreria o percurso sinuoso do amor impossível, a incerteza da paixão humana, a demanda de algo inatingível . Mas não é isso que, no fundo, todos nós desejamos ?

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