domingo, 29 de junho de 2008

Comecei hoje a ler ...


" Um agente secreto israelita decide reformar-se, após ter enviuvado em circunstâncias pouco claras, e vai viver com a filha, a mãe e a sogra. Este espião profissional consegue assim disponibilidade para observar filosoficamente a vida, e para descobrir a verdade oculta por detrás de todas as suas relações: o mistério do comportamento da filha, o enigma do seu casamento e da estranha morte de sua mulher, o perturbador reaparecimento da mulher de Banguecoque, e a triste realidade de uma vizinha ninfomaníaca e de um irmão voyeur. Yoel Ravid carrega porém consigo algumas heranças do passado. Conhecido pela sua habilidade para detectar mentiras, tem ainda de aprender a não se enganar a si próprio. E, se de facto conheceu muitas mulheres, a verdade é que as compreendeu muito pouco ... "

terça-feira, 24 de junho de 2008

Agatha Christie ( 1890 - 1976 )

" A excentricidade não era seu apanágio; essa, Agatha Christie, cedeu-a a rodos aos assassinos dos sessenta e seis romances policiais que escreveu, os quais, mesmo quando se desembaraçam das vítimas de forma limpa e meticulosa, se situam sempre na zona de fronteira em que a marginalidade e a extravagância raiam a loucura. Nunca procedeu a uma análise sociológica do móbil dos seus criminosos, preferindo justificar-lhes a natureza assassina com a demência, que considerava uma falha genética. «Uma malformação das células cinzentas pode facilmente sobrepor-se ao rosto de uma virgem.»

Agatha Christie pertenceu à linhagem de filhas da alta burguesia inglesa entregues à guarda de uma nursemaid e que só raramente recebiam uma educação convencional. Foi, pois, no universo mágico da biblioteca da casa paterna que adquiriu o seu saber, e é nessa fase da sua vida que lhe nasce a predilecção por mistérios; quando, aos cinco anos, se apercebeu de que a preceptora se entretinha a tagarelar a seu respeito, jurou a si mesma que passaria a fazer segredo de tudo o que lhe dissesse respeito.

Persuadida do talento da filha, a mãe, que entretanto enviuvara, estimulava a jovem Agatha a redigir contos e romances, despertando nela o magnífico hábito da escrita, que - como observava com ironia - «ocupou, por assim dizer, o lugar dos bordados ou da pintura em porcelana». O que, no entanto, não a impediu de alcançar com vertiginosa rapidez o êxito que a guindou à condição de escritora mais lida no mundo e se deveu a um muito discreto profissionalismo.

A literatura policial, que, na opinião de W.H.Auden, devia consistir em «esconder o orgulho demoníaco do assassino quer das restantes personagens do romance, como do leitor» - teve a sua época áurea entre as duas guerras mundiais. Agatha Christie foi tão longe na arte de ocultar que, no mais perfeito e, simultaneamente, mais controverso dos seus romances, o eu-narrador acaba, ele próprio, por ser desmascarado como assassino. «Ela levou-nos a todos à certa», disse, maravilhada, a sua colega Dorothy Sayers. "
Stefan Bollmann in "Mulheres que escrevem vivem perigosamente"

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Comecei hoje a ler ...


" A lápide saltou em pedaços à primeira pancada do alvião e uma cabeleira viva, de uma intensa cor de cobre, espalhou-se para fora da cripta. O mestre-de-obras quis retirá-la completa com o auxílio dos seus operários, mas quanto mais puxavam, mais comprida e abundante ia surgindo, até saírem as últimas madeixas ainda presas a um crânio de criança. No nicho não ficaram senão uns ossitos pequenos e dispersos e na lápide de cantaria carcomida pelo salitre apenas era legível um nome sem apelidos: Sierva Maria de Todos los Angeles. Estendida no chão, a esplêndida cabeleira media vinte e dois metros e onze centímetros.

O mestre-de-obras explicou-me sem espanto que o cabelo humano crescia um centímetro por mês mesmo depois da morte e vinte e dois metros pareciam-lhe uma medida correcta para duzentos anos. A mim, pelo contrário, não me pareceu assim tão trivial porque a minha avó, quando eu era criança, contava-me a lenda de uma marquesinha de doze anos cuja cabeleira se arrastava como a cauda de um véu de noiva, que morrera com raiva devido à dentada de um cão e que era venerada entre a população do Caribe pelos seus muitos milagres.

A ideia de que aquela tumba pudesse ser a sua foi a minha notícia daquele dia e a origem deste livro. "

Gabriel García Márquez in "Do Amor e outros Demónios"


sábado, 21 de junho de 2008

Doris Lessing ( * 1919 )


" Nascida na antiga Pérsia ( actual Irão ), criada na outrora Rodésia ( hoje África do Sul ), Doris Lessing vive em Londres desde 1949. A sua obra mais famosa, O Caderno Dourado, veio a lume em 1962. Leitoras do mundo inteiro viram nela a reprodução fiel da sua própria experiência, identificando na figura da protagonista - Anna Wulf, uma mulher desiludida com os homens, atormentada por dúvidas quanto ao compromisso político assumido e bloqueada na sua capacidade de escrita - alguém como elas. O livro tornou-se, pois, um ícone do feminismo, facto que a autora menospreza não porque lhe repugnem os objectivos do movimento feminista, mas por recusar ser tomada como uma figura salvadora - sem esquecer o facto de, apesar de se tratar de um romance filosófico, O Caderno Dourado não ser uma tese. Serve-lhe de enquadramento uma história convencional, intitulada Mulheres Livres, que retrata a crise existencial de Anna, uma mulher na casa dos quarenta, mãe divorciada de uma filha e em tratamento psicoterapêutico. A acção é intercalada pelos apontamentos que, receando o caos que lhe vai na alma, Anna regista em quatro pequenos cadernos: um preto, com as lembranças da África do Sul; outro vermelho, dedicado às suas actividades políticas em Londres; um amarelo, contendo os «esforços da sua imaginação», com ideias e projectos de livros que tenciona escrever; um azul, correspondendo à busca da sua identidade como escritora. Enfim, o quinto caderninho, o dourado, trata de um amour fou, que será, quer no caso de Anna quer no do amante, a via para a autocura.

São visíveis, na obra de Doris Lessing, laivos do conceito de «individualização», elaborado pelo psicanalista suíço Carl Gustav Jung e segundo o qual as crises existenciais correspondem a histórias do desenvolvimento do ser humano no sentido de uma tomada de consciência mais vasta. Por outras palavras: o consciente é amputado de uma parte anacrónica e, desse processo doloroso, resulta, em circunstâncias favoráveis, um novo todo da personalidade. É este, também, o modelo dos livros imbuídos de ficção visionária de Doris Lessing, entre os quais, por exemplo, The Memoirs of a Survivor, surgido em 1974, quando a consciência da catástrofe no mundo ocidental se agudizou ao extremo.

Stefan Bollmann in "Mulheres que escrevem vivem perigosamente"

quinta-feira, 19 de junho de 2008



George Orwell não é apenas o autor de "1984" ou de "O Triunfo dos Porcos" ( que sairá este ano com nova tradução ). A Antígona acaba de publicar "Por que Escrevo e Outros Ensaios", para compreender melhor o autor e o seu mundo.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Um Livro Entre Um Copo


O conceito é acolhedor e invulgar. Já há várias cafetarias onde os livros ganharam espaço e conquistam clientes ou livrarias que abriram espaço à restauração. Na Casa do Livro, no Porto, há livros numa estante, nas mesas e balcões. E a leitura acontece neste bar, entre um gole de bebida, ao som das teclas de piano ou dos frequentes concertos.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Mia Couto Lança Romance


O escritor moçambicano Mia Couto tem novo romance, intitulado Venenos de Deus, Remédios do Diabo. O livro conta a história de um jovem médico português, Sidónio Rosa, que se perde de amores por uma mulata moçambicana, Deolinda, e desloca-se como voluntário para Moçambique à procura da sua amada. Mia Couto é considerado um dos nomes mais importantes da nova geração de escritores africanos.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

" No caso em exame parece ter tido uma influência decisiva a acção pedagógica da cega do fundo da camarata, aquela que está casada com o oftalmologista, tanto ela se tem cansado a dizer-nos, Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais, tantas vezes o repetiu, que o resto da camarata acabou por transformar em máxima, em sentença, em doutrina, em regra de vida, aquelas palavras, no fundo simples e elementares. "

" ... Como foi que me reconheceu, Sobretudo pela voz, a voz é a vista de quem não vê, ... "

José Saramago in "Ensaio sobre a Cegueira"

domingo, 15 de junho de 2008

O Poeta


A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza
E a sua alma é uma parcela do infinito distante
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.

Ele é o eterno errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibilidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes
Olhando o espaço imenso da sua alma.
O poeta sorri.
Sorri à vida e à beleza e à amizade
Sorri com toda a sua mocidade a todas as mulheres que passam.
O poeta é bom.

Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras
Sua alma as compreende na luz e na lama
Ele é cheio de amor para as coisas da vida
E é cheio de respeito para as coisas da morte.
O poeta não teme a morte.
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério,
A sua poesia é a razão da sua existência
Ela o faz puro e grande e nobre
E o consola da dor e o consola da angústia.

A vida do poeta tem um ritmo diferente
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.


Vinicius de Moraes in "O Caminho para a Distância"

segunda-feira, 9 de junho de 2008


O Segredo dos Livros apresenta-se como uma página simples de Internet onde se podem encontrar sugestões de leitura, com descrição das sinopses e imagem das capas. Há ainda críticas literárias com convite à participação dos utilizadores, a par das novidades e informações sobre lançamentos. Um fórum e um chat ajudam à conversação entre os amantes dos livros.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Sophie Scholl ( 1921 - 1943 )


" Não era escritora. Escrevia cartas de amor, mantinha um diário, redigia historietas - em suma, quase tudo o que as mulheres jovens da época faziam, dando expressão aos seus sentimentos e às suas representações da vida. Quando a última carta que escreveu ao namorado chegou às mãos deste - internado num hospital militar em Estalinegrado, depois de ter sido ferido em combate -, a sentença que a condenara à morte já fora executada. Quatro dias, quatro longos dias de interrogatórios intermináveis transcorreram entre a prisão e a execução. Afinal, Sophie Scholl sempre foi escritora; redigiu e distribuiu panfletos em que se lia: «Cada palavra que sai da boca de Hitler é uma mentira.» E: «Se formos muitos, poderemos, num derradeiro e prodigioso esforço, derrubar este sistema. "

Stefan Bollmann in "Mulheres que escrevem vivem perigosamente"

domingo, 1 de junho de 2008

" A Mulher Certa " de Sándor Márai

Romance que conta a história de um triângulo amoroso através da perspectiva de cada um dos amantes ( Marika, Péter e Judit ), em três monólogos distintos.
A acção começa em Budapeste, passa por Itália e estende-se aos E.U.A.
Marika relata a sua visão dos factos anos depois do seu divórcio de Péter, quando este vive com Judit. De modo patético e surpreendente, conduz-nos pelos meandros de uma relação aparentemente correcta e adequada à classe social a que ambos pertencem ( burguesia ). Todavia, Marika intui que algo se interpõe entre os dois e, acidentalmente, descobre que o marido não consegue esquecer a atracção que sente por Judit, uma das criadas da casa.
Por sua vez, Péter, ao descrever o seu relacionamento com a ex-mulher, não lhe censura nada, pois reconhece que o seu distanciamento e posterior divórcio obedece a uma paixão cega.
Péter abandona Marika e casa com Judit, relação desigual que parece conter a fatalidade da infelicidade.
Ao contar o seu envolvimento com Péter, Judit remonta à sua infância pobre e às drásticas diferenças entre a sua experiência do mundo e o que aprendeu ao começar a trabalhar na mansão do marido. Embora este o tenha descoberto talvez demasiado tarde, neste relacionamento existe ressentimento e vingança, pois Judit sabe que nunca poderá pertencer a um mundo ( o da burguesia ) que para ela continua a ser um mistério.
Estas narrações não só descrevem com subtileza os pensamentos amorosos dos protagonistas; Márai salpica os relatos com pormenores psicológicos e de costumes, que amplificam o mundo íntimo e social daqueles.
Deparamo-nos com um romance que o escritor aproveita para explorar de forma densa os mais íntimos recantos da condição humana através de um estilo realista e despojado. Aqui se cruzam a traição, o ciúme, a paixão, a vida, a morte, o desalento e essa eterna questão de entender o que é, afinal, o amor, e qual o papel que as paixões desempenham na vida de cada um.
Com uma prosa fluida, de grande qualidade, que mostra a psicologia de personagens atormentados, insatisfeitos, infelizes; ao mesmo tempo utiliza pequenos pormenores de grande eficácia estética para descrever a grandeza e miséria de um mundo em vias de extinção.

" Um belo dia, acordei, sentei-me na cama e sorri. Não sentia já dor. E, subitamente, percebi que não existe a pessoa certa. Nem na terra, nem no céu. Nem seja lá onde for, podes ter a certeza. Existem somente pessoas, e, em todas elas, um pedacinho da pessoa certa, mas em nenhuma se concentra tudo o que se aguarda e dela esperamos. Nenhuma pessoa reúne em si tudo isso, nem existe a certa, a única, a maravilhosa, essa figura singular que nos traz felicidade. Existem somente pessoas, e, em todas elas, há escórias e um raio de luz, tudo ... "

Sándor Márai in "A mulher certa "