terça-feira, 29 de julho de 2008

Comecei hoje a ler ...


" Isto não é um romance. Nem um conto. Isto é uma história. Começa com um homem que dá a volta ao mundo, e acaba num lago onde se deixa ficar, num dia de vento. O homem chama-se Hervé Joncour. O lago não se sabe.

Poder-se-ia dizer que é uma história de amor. Mas se fosse apenas isso, não teria valido a pena contá-la. Tem a ver com desejos, e dores, que se sabe muito bem o que são, mas um nome verdadeiro para os dizer, não há. De qualquer forma não é amor - isto é algo de antigo quando não há um nome para dizer as coisas, então usam-se histórias. Funciona assim. Há séculos. Todas as histórias têm a sua música própria. Esta tem uma música branca. É importante dizê-lo porque a música branca é uma música estranha, às vezes desconcertante: toca-se baixinho e dança-se devagar. Qunado bem tocada, é como ouvir tocar o silêncio, e os que a dançam como deuses parecem imóveis ao olhar. É algo sobremodo difícil, a música branca.

Mais a acrescentar, não há. Convirá porventura esclarecer que se trata de uma história oitocentista: apenas para que ninguém esteja à espera de aviões, máquinas de lavar e psicanalistas. Não os há. Talvez noutra ocasião. "


Alessandro Baricco in "Seda"

domingo, 27 de julho de 2008


" Disseram-me que há uma palavra em Urdu que, se se escrever da direita para a esquerda, significa adoração e se escrever da esquerda para a direita, significa ódio. "

Amos Oz in "Conhecer uma mulher"

terça-feira, 22 de julho de 2008

Comecei hoje a ler ...

" Esta é a história de uma noite ...
Uma noite de Verão sonhada na Primavera.
Uma única noite onde os espíritos desafiam o sentido do verdadeiro amor, numa guerra fantástica de fadas, poções e romances desencontrados.
Numa noite de Verão, um mundo pacato e insuspeito está prestes a ser incendiado pelo desejo e pela paixão.
E a loucura toma conta de todos aqueles que amam.
Escrita provavelmente em 1595 e correspondendo a uma fase inicial da sua carreira, esta é uma das mais representadas comédias de Shakespeare. Mas já aqui se denotam os seus dotes de imaginativos e a sua sensibilidade para retratar a grandeza das emoções humanas. "

" Sonho de Uma Noite de Verão " de William Shakespeare

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Gao Xingjian

" Gao Xingjian nasceu na China em 1940 e vive em França desde 1988. Romancista, pintor, dramaturgo, encenador, crítico literário e poeta. As suas peças de teatro são interpretadas em todo o mundo e as suas tintas da China circulam nos quatro cantos do planeta. O seu magistral romance, A Montanha da Alma, teve, aquando da publicação em França em 1995, um excelente acolhimento, tanto por parte da crítica como dos seus leitores.
Gao Xingjian recebeu no ano 2000 o Prémio Nobel de Literatura. "

Retirado de "Uma Cana de Pesca para o meu Avô"

" A partir daí, e sem outros preliminares, ela começou a falar-lhe sobre as coisas que ele queria ouvir. Falou com clareza, como quem pinta um quadro com palavras, descrevendo locais e pessoas, usando a linguagem como um lápis fino. "

Amos Oz in "Conhecer uma mulher"

domingo, 20 de julho de 2008

Comecei hoje a ler ...

" Recordações de infância, as alegrias simples do amor e da amizade, a terra natal e os seus lugares familiares, mas também os dramas da rua ou as tragédias vividas pela China, são estes os temas destes seis contos escolhidos pelo autor. Com um imenso talento, Gao Xingjian brinca com estas imagens e com a escrita, leva-nos, como se nada fosse, a entrar nos seus sonhos mais íntimos - quer sejam os do rapazinho que se tornou um adulto, de um jovem recém-casado perdido de amor ou de um nadador em risco de vida ... Sorrisos e lágrimas atravessam esta leitura, que nos deixa o belo e suave sabor da emoção. "


sábado, 19 de julho de 2008

" Yoel ficava fascinado com a qualidade das mentiras: como é que cada pessoa forja as suas próprias mentiras? Por um rompante de fantasia, de imaginação? Despreocupadamente, espontaneamente? Com uma lógica sistemática calculada, ou, pelo contrário, de improviso e com uma falta de sistema estudada? O modo como uma mentira era tecida era visto por ele como um postigo sem protecção que, por vezes, permite que se dê uma espreitadela para dentro do mentiroso. "

Amos Oz in "Conhecer uma Mulher"

terça-feira, 15 de julho de 2008


" Correr fazia parte de mim como o meu nome. Foi então que aprendi a correr contra as palavras dentro de mim, da mesma maneira que aprendi a correr contra o vento. "

"Estava pronto e comecei a correr. Corri como se quisesse e conseguisse ultrapassar o vento, como se o meu corpo não existisse e fosse apenas a minha vontade a correr, a ser rápida, rápida entre as casas que se sucediam, as ruas e tudo o que não queria ver. "

José Luís Peixoto in "Cemitério de Pianos"

segunda-feira, 14 de julho de 2008

" O teu pai, quando falava ou pensava em pianos, tinha redemoinhos de música dentro dele. "
José Luís Peixoto in "Cemitério de Pianos"

sábado, 12 de julho de 2008

"Ensaio sobre a Cegueira" de José Saramago

Ao longo de 300 páginas de constante aflição, somos confrontados com a emergência de uma inexplicável e incurável cegueira que abate-se repentinamente sobre uma cidade não identificada, originando o seu desmoronamento e consequente perca de tudo aquilo que consideramos sinónimo de civilização.

Através de uma narrativa épica, brutalmente rica em emoções, assistimos à forma como o Ser Humano reage diante de situações insólitas, aquilo que pode suportar em nome da sua sobrevivência, bem como de tudo o que de bom e sobretudo de mau é capaz, denunciando todas as fragilidades de organização da actual sociedade moderna.

Rendemo-nos à evidência de que as pessoas tornam-se realmente quem elas são, a partir do momento em que não podem julgar a partir do que veêm.

O livro é de tal forma envolvente que passamos as linhas a evitar pestanejar, não vamos nós ficar cegos ou simplesmente perder a noção do que vemos ...

" ... , Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem. "

José Saramago in "Ensaio sobre a cegueira"

quinta-feira, 10 de julho de 2008


" De que é que essa pessoa tinha vergonha e, exactamente, de que é que ela se sentia orgulhosa ? Ao longo dos anos, Yoel apercebera-se de que a vergonha e o orgulho são normalmente mais fortes do que os outros impulsos célebres que surgem mais frequentemente na literatura. As pessoas anseiam fascinar ou encantar os outros para preencherem um vazio dentro de si próprias. Um vazio generalizado que, intimamente, Yoel classificava de amor. "

Amos Oz in "Conhecer uma mulher"

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O que também estou a ler ...

« à procura, procura do vento. Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero. Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de vencê-lo mais uma vez e sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal. »

José Luís Peixoto in "Cemitério de Pianos"

terça-feira, 1 de julho de 2008

Isabel Allende ( * 1942 )


" Alvo de um reconhecimento internacional muito grande, a chilena Isabel Allende deve a notoriedade, por um lado, ao apelido - o presidente Salvador Allende, assassinado quando do golpe militar no Chile em 1973, era primo do pai -, por outro, à fórmula imbuída de realismo mágico que adequou eficazmente aos seus fins. No cerne da sua obra estão o conflito de culturas e o poder libertador da escrita, com o qual se entrelaçam distanciamento e lembrança.

Em A Casa dos Espíritos ( 1982 ), a atormentada Alba é aconselhada a deixar-se de «lamúrias»: «Tens muito que fazer ... vai beber água e põe-te a escrever.» Motivada, pelo sucesso do primeiro romance, Isabel Allende toma, ela própria, esse conselho a peito: já escreveu vários romances e três livros juvenis, e as publicações sucedem-se a uma velocidade impressionante. Eva Luna ( 1987 ), o seu terceiro romance, conta a história da ascensão de uma rapariga pobre que, mais tarde, se consagrará como autora de telenovelas; por trás, esconder-se-á uma certa ironia da escritora sobre o seu percurso, já que, embora proveniente de uma família de diplomatas, trabalhou para televisão. Irónica é, igualmente, a inversão de conteúdo do episódio do pecado original a que procede para contar a história do continente latino-americano: Eva é filha de uma europeia que se perdera na floresta virgem e de um índio que fora mordido por uma serpente. Casada em segundas núpcias com um norte-americano e residente na Califórnia, em O Plano Infinito ( 1991 ), Isabel Allende põe em confronto a cultura anglo-saxónica e a subcultura dos Índios. Em Paula ( 1994 ), a autora-mãe relata à filha, em coma numa cama de hospital, a história da sua vida, na esperança de lhe adiar a morte, quem sabe, até, fintá-la, como Xerazade n'As Mil e Uma Noites. Mas Paula nunca mais acordará, e à narradora nada mais resta senão vergar-se perante o facto de a cadeia de transmissão entre gerações se ter quebrado. "

Stefan Bollmann in "Mulheres que escrevem vivem perigosamente "