sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Tales to take your breath away ...


As minhas manias de leitura !

- Estou sempre a ler livros em simultâneo ;

- Os meus marcadores são personalizados ;

- Tenho uma enorme paciência para retirar excertos de obras e publicá-las no Blog ;

- Sempre que entro numa livraria, perco a noção do tempo e, segundo os meus amigos, pareço uma criança no Toys 'R' Us ( "quero este, quero este" é o que mais se ouve ) ; ;)

- Adoro cheirar as páginas dos livros ;

- Só consigo adormecer a ler ;

- Tenho o hábito de ler nos transportes públicos ;

- A praia, com o mar como música de fundo, é um dos meus locais de eleição para a leitura ;

- E já que falo em música, esta é, sempre que possível, indispensável nesses momentos !

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Li "O Processo das Bruxas de Salem" e ...

Brilhante recriação de um conjunto de acontecimentos que tiveram lugar no Séc. XVII na colónia da Baía de Massachusetts, em Salem, na qual imperavam fortes tensões sociais e religiosas.
Em Janeiro de 1692, nesta comunidade puritana, Elizabeth Parris, de nove anos e Abigail Williams, de onze, começam a exibir comportamentos menos próprios.
Logo de seguida, uma série de 'meninas' pertencentes ao mesmo círculo de amizade adoptam comportamentos semelhantes, deixando aquela estranha e fechada comunidade em estado de pânico.
Como era tradição, orações e jejuns são organizados pelo Reverendo Samuel Parris, pai de Elizabeth e tio de Abigail. De forma a descobrir a origem de tais atitudes, as crianças são pressionadas para revelarem os nomes dos seus atormentadores e assim começam por nomear três mulheres, todas elas pobres e mal vistas na sociedade.
Ganhando o gosto pela denúncia, iniciam um processo de acusações sistemáticas, tendo sido instaurado um tribunal na cidade para julgar os casos de bruxaria.
Uma onda de histerismo colectivo e de intolerância instala-se e até pessoas influentes começam a ser acusadas !
Numa escalada de loucura descontrolada, inocentes são torturados e executados na forca.
O terror paira sobre a comunidade e a normalidade só regressa a Salem, após a redacção de uma carta muito importante ...
Nunca tinha lido nada sobre este assunto, e confesso que até é um tema que atrai-me bastante, de forma que, através deste livro muito interessante fiquei a conhecer um pouco sobre esta onda de intolerância e fanatismo religioso que conduziu a uma autêntica 'caça às bruxas' !

Descobre mais em http://www.salemweb.com/
Diálogo entre Tituba e Susanna English:
" - As pessoas aqui de Salem são agrestes - prosseguiu. - Como o Inverno, quando os nevões são grandes; guardam o Inverno dentro dos seus corações, durante todo a ano. ( ... )
- Como é no local de onde vieste, Tituba ?
- Lá, as pessoas também odeiam. Mas a água é tão azul e a areia tão branca. O coral tão rosado, no mar. E os pássaros, oh, têm cores tão brilhantes que não consegues distingui-los das flores. E não consegues odiar durante muito tempo, com tanta beleza em teu redor. "

Ann Rinaldi in "O Processo das Bruxas de Salem"



" Sabia o que preocupava os nossos magistrados e por que razão os Hobbs temiam tanto Abigail.
Mulheres que liam livros, que escreviam os seus pensamentos em pergaminhos, não honravam os seus pais ou ministros. Eram consideradas perigosas. Isso vinha do tempo de Anne Hutchinson.
O Pai contara-nos a história de Anne. Fora uma autoproclamada ministra que apresentara as suas próprias crenças religiosas independentes e apresentara argumentos contra os ministros ordenados.
A Colónia da Baía de Massachusetts nunca se recompusera completamente das heresias de Anne Hutchinson. Em 1637, os seus dirigentes tinham-na julgado, por pensar por si mesma, banindo-a, juntamente com os seus seguidores, para Rhode Island.

Ann Rinaldi in "O Processo das Bruxas de Salem"

terça-feira, 25 de novembro de 2008

'Happy Hour' na Net dá 3000 livros

" A livraria virtual webboom.pt, que existe no mercado português há nove anos e ressurge com o nome wook.pt, promove hoje, amanhã e depois uma campanha na Internet onde dará a possibilidade de os clientes adquirirem livros a preço zero.
«Para se concorrer é preciso que as pessoas estejam inscritas no nosso site. Depois, terão de estar atentas porque a happy hour pode acontecer durante o dia ou durante a noite. Se nesse momento a pessoa encontrar o livro que pretende, então fica com ele gratuitamente, nós enviamo-lo para casa», explica ao DN Paulo Gonçalves, responsável pela comunicação da livraria virtual, que se encontra agregada à Porto Editora.
Há ainda uma outra possibilidade de os leitores poderem beneficiar de livros gratuitos.
Segundo explicou Paulo Gonçalves, se cada pessoa mandar um e-mail para outras dez com a informação, recebe um e-mail da livraria wook.pt, com a indicação de que a happy hour (designada por Momentos Wook) será entre o horário x e y, aumentando assim as probabilidades de se ser contemplado. "
( ... )

Artigo retirado do jornal "Diário de Notícias"

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

« Sometimes a good book will put you completely in another world. »

Vou começar hoje a ler ...

« Segunda-feira. Esta nova criatura de cabelo longo é um valente empecilho. Anda sempre à minha volta e segue-me para todo lado. Não gosto disto; não estou habituado a ter companhia. Preferia que ficasse com os outros animais. Terça-feira. A nova criatura dá nome a tudo o que aparece antes de eu poder esboçar um protesto. E o pretexto é sempre o mesmo: parece ser aquilo. Por exemplo um dodo, diz que, logo que se avista um, percebe-se que "parece um dodo". Vai ter de passar a chamar-se assim, sem dúvida. Desgasta-me tentar discutir sobre isso e nem vale a pena de qualquer maneira. Dodo ! Parece-se tanto com um dodo como eu ! segunda-feira. A nova criatura diz que se chama Eva. »

" Publicados entre 1904 e 1906 estes Diários « traduzidos do manuscrito original » são um dos mais geniais pastiches da história bíblica cujo humor delirante de Twain subverte e recria em ambiente de guerra dos sexos. "

domingo, 23 de novembro de 2008

Vou começar hoje a ler ...

" Em A hora má: o veneno da madrugada, Gabriel García Márquez constrói uma inesquecível fábula da violência colectiva.
A um povoado perdido na América do Sul chegou a hora má dos camponeses, a hora da desgraça. Certo amanhecer, enquanto o Padre Ángel se prepara para celebrar a missa, ouve-se um tiro na aldeia. Um comerciante de gado, informado da infidelidade da mulher por um papel colado na porta da sua casa, acaba de matar o seu presumível amante. É um dos pasquins anónimos cravados durante a madrugada nas portas das casas, que não são panfletos políticos mas apenas denúncias sobre a vida privada dos cidadãos, e que nada revelam que não seja do conhecimento de todos há algum tempo. São os velhos boatos que agora se tornam públicos: assassinatos, segredos de família envolvendo filhos bastardos e romances escusos. Todos se sentem atingidos e ameaçados, dos cidadãos mais eminentes aos mais humildes. Todos parecem ter algo a esconder e a revelar. Qualquer habitante pode ser o autor dos bilhetes ou a próxima vítima.
Este romance foi adaptado ao cinema pelo realizador brasileiro Ruy Guerra. "
"A alma puritana não é de molde a mostrar compaixão por aqueles que são mendigos. No código puritano não há lugar para aqueles que apresentam singularidades ou fraquezas da natureza. As virtudes puritanas são muito simples. São trabalho árduo, limpeza, disciplina do espírito e do comportamento, perseverança, coragem, piedade, conhecimento dos pecados de cada um, um desejo de perdão, ódio ao Demónio e a todas as suas obras, obediência ao clero e impaciência em relação aos idólatras.
Os idólatras, é claro, são os Baptistas, Quakers e todos os outros tipos de heréticos miseráveis."

Ann Rinaldi in "O Processo das Bruxas de Salem"

sábado, 22 de novembro de 2008

" Ele sabia como eu gostava de Boston. Era, verdadeiramente, a nossa Cidade na Colina, como lhe haviam chamado os fundadores da nossa colónia. As suas docas podiam acolher navios de cantos longínquos do mundo. As suas ruas sinuosas e alamedas estavam cheias de pessoas interessantes. As livrarias eram abundantes. Em Boston, podíamos usar as nossas melhores sedas, sem que as pessoas franzissem o sobrolho. Tinham a Universidade de Harvard, o Parque, joalheiros, docas pejadas de cargas vindas de países distantes. "

Ann Rinaldi in "O Processo das Bruxas de Salem"

Há uma palavra na terra ...

" Há uma palavra na terra
Que tem encantos do céu ;
Não é amor, nem esperança ,
Nem sequer o nome teu.

Essa palavra tão doce ,
De tanta suavidade ,
Que me faz chorar de dor
Quando a murmuro: é saudade ! "


Obras Completas de Florbela Espanca - Volume I ( 1903 - 1917 )

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

" - Aquilo que resolve o problema das horas inúteis de tédio daquelas raparigas é mais do que histórias - afirmou, com ar sapiente.
- Que é, então ? Que fazem lá dentro ?
- Lêem a sina - retrucou. - Tituba é versada em artes negras. Não a trouxe o bom reverendo das Índias Ocidentais ?
- É o que dizem.
- Lêem a sina - repetiu. - Pequenas feitiçarias. Quiromancia. Ouvi dizer que ela esconjura com a peneira e as tesouras, bonecas feitas de pano, e velas.
- Essas práticas são proibidas - disse, arquejando.
- Ouvi dizer que ela lê as folhas de chá.
- Na própria casa do reverendo ?
- Sim. "

Ann Rinaldi in "O Processo das Bruxas de Salem"

Megalivraria Byblos fecha !

" FALÊNCIA. Foi considerada um 'study case' internacional. Do sistema inteligente de pesquisa dos seus 150 mil títulos à oferta integrada de um conjunto de serviços culturais, a Byblos parecia ter tudo para justificar o investimento de quatro milhões de euros. Ontem, pouco menos de um ano após a inauguração, a maior livraria do País fechou portas após várias tentativas de encontrar um investidor que a salvasse. "

Artigo retirado do jornal "Diário de Notícias" (21.11.2008)

Bertrand estende rede a cidades do interior

" Fecham casas livreiras, enormes como a Byblos, outras abrem as portas ao público de forma mais discreta, mas eficaz. É o caso da rede de livrarias Bertrand, que já ultrapassou a fronteira, e continua a crescer mesmo em tempo de crise. Hoje, reabre a sua loja, renovada e mais ampla, no centro comercial dos Olivais, em Lisboa. Até ao final do ano, inaugura mais uma casa, desta vez na cidade das Caldas da Rainha.
Ernesto Damião, um dos responsáveis do departamento comercial, refere que a política do grupo, nos próximos tempos, sem esquecer os grandes centros onde tem reforçado a posição, é continuar a expansão nas « cidades do interior, de média dimensão ». ( ... )
Não são espaços muito grandes. « A nossa livraria ideal tem 200 metros quadrados », diz Ernesto Damião. E, normalmente, instala-se em centros comerciais. De momento, espalhadas por todo o País, existem 54 livrarias da Bertrand. ( ... )
Lojas com uma área de 200 metros quadrados, segundo o responsável do departamento comercial, « permite-nos ter, além de espaço para as novidades, um fundo razoável de livros ».
( ... )

Artigo retirado do jornal "Diário de Notícias" (21.11.2008)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Li "Diário de um Louco" de Gógol e ...

Narra na primeira pessoa e com um bom humor insuperável, o dia a dia de Aksénti Ivánovitch, funcionário público que vive a fantasia esquizofrénica do poder e da riqueza.
Este, personificação da insignificância, possui uma existência pobre e solitária que revela-se no pequeno quarto no qual habita e até na falta de importância no emprego, pateticamente simbolizada pela função que desempenha: afiador das penas de escrever do Director.

O mundo de fantasia que criou para escapar à pequenez da sua vida, aliado à paixão platónica que nutre por Sophie, filha do seu chefe, fazem com que vá gradualmente enlouquecendo. Chega a interceptar conversas e correspondências entre duas cadelas ( Medji e Fidéle ) de forma a saber mais sobre a sua amada ... hilariante o excerto em que ao ler uma das cartas, resmunga da linguagem abominável de uma delas:
" « Tem um apelido muito esquisito. Passa a vida sentado a afiar penas. O cabelo dele parece feno. O papá dá-lhe ordens como a um criado. »
Parece que esta cadela nojenta está a insinuar coisas sobre a minha pessoa. Quem disse que o meu cabelo tem semelhanças com o feno ?
« Sophie não consegue conter o riso de cada vez que olha para ele. »
Mentira, sua cadela maldita ! Que linguagem abjecta ! Pensas que não sei que são intrigas invejosas ? ... "

À medida que vai passando da sanidade para a loucura, também as datas do seu diário vão-se tornando cada vez mais estranhas. Chega a inventar meses, como Martubro ( junção de Março e Outubro ) ou 43 de Abril do ano 2000, dia em que descobre ser Fernando VIII, rei de Espanha. É aqui que começa o seu fim !
" Ano 2000, Abril, dia 43
Hoje é um dia de grande solenidade. A Espanha tem um rei. Achou-se um rei. Esse rei sou eu. Foi precisamente hoje que fiquei a sabê-lo. Confesso, foi como se o clarão de um relâmpago me iluminasse. Não compreendo como alguma vez pude pensar e imaginar que era um conselheiro titular. Como se me pôde meter na cabeça esta ideia absurda ? Menos mal que ninguém se tenha lembrado de me fechar num manicómio. "

Finalmente conduzido ao manicómio, chega mesmo a delirar que os maus tratos que aí sofre provenham de hábitos nacionais inusitados.
" ... Nisto entrou o chanceler-mor. Ao vê-lo, toda a gente se dispersou. Eu, como rei, fiquei sozinho. E o chanceler, para meu espanto, bateu-me com o pau e enxotou-me para o meu quarto. É esta a grande força dos costumes tradicionais em Espanha ! "

"Diário de um Louco" mais não é que uma metáfora sobre a alienação, cujo texto ao mergulhar profundamente nas causas sociais da loucura, deixa-nos entre o riso e a comoção !

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Li "Castelos de Raiva" e ...

"Castelos de Raiva" ... primeiro romance de Alessandro Baricco, aquele que, em 1991, marcou a sua estreia como escritor !

Um livro belíssimo que renova a nossa alma e deslumbra-nos pela sua perfeição ! Uma verdadeira sinfonia de enredos carregados de múltiplos sentidos, constituindo por isso uma ode à diversidade, à heterogeneidade. Obra muito fantasiosa, quase que a transbordar de criatividade e musicalidade.

Romance subtil e cheio de surpresas onde tudo gira em torno do sonho, como se este bastasse, numa cidade onde não encontra qualquer tipo de obstáculos ou limitações. Quinnipak, cidade sem tempo e sem lugar, onde o desejo se sobrepõe à razão. Ali, o sonho alimenta sonhos, utopias que raiam a loucura e personagens surreais passeiam pelas páginas do livro sem que alguma vez sejam desacreditadas ! Apenas para levantar um pouco a ponta do véu, deixo-vos aqui alguns exemplos muito criativos de sonhadores:

- Pekisch, personagem que sabia ver os sons e as cores de que são feitos os ruídos, cientista de estranhos inventos, tais como: um surreal auto-auscultador ( tubo por onde as palavras sobem e descem, permitindo às pessoas escutarem a sua própria voz ) e um não menos original humanófono ( espécie de órgão no qual em lugar das canas estavam pessoas, em que cada uma emitia uma nota e uma só: a sua nota pessoal );

- Hector Horeau, arquitecto genial que cultivava uma ideia bastante precisa: « o mundo resultaria sem dúvida muito melhor se se começassem a construir casas e palácios não de pedra, nem de tijolo, nem de mármore, mas sim de vidro. Perseguia afincadamente a hipótese de cidades transparentes ».
Daí até à idealização do "Crystal Palace", palácio de vidro e oitava maravilha do mundo, concebida para hospedar a memorável Grande Exposição Universal dos Produtos da Técnica e da Indústria, foi apenas um passo !

"Castelos de Raiva ?!? Não ... diria antes, Castelos de Sonhos ! ;)
E, tal como diz Fernando Pessoa, «O Homem é do tamanho do seu sonho».
" Porém, embora indubitavelmente seja maravilhosa a luz do fim da tarde, há algo que consegue ser ainda mais bonito do que a luz do fim da tarde, algo que acontece precisamente quando, por incompreensíveis jogos de correntes, brincadeiras de ventos, caprichos do céu, grosserias recíprocas de nuvens defeituosas, e circunstâncias fortuitas, às dezenas, uma verdadeira colecção de casos, e de absurdos - quando, naquela luz irrepetível que é a luz do fim da tarde, inopinadamente, chove. Há o sol, o sol do fim da tarde, e chove. É o máximo. E não há homem, embora limado pela dor ou arrasado pela ansiedade, que diante de um tal absurdo, não sinta agitar-se algures um irreprimível desejo de rir. "

Alessandro Baricco em "Castelos de Raiva"
" Jun Rail. O rosto de Jun Rail. Quando as mulheres de Quinnipak se olhavam ao espelho, pensavam no rosto de Jun Rail. Quando os homens de Quinnipak olhavam para as suas mulheres, pensavam no rosto de Jun Rail. O cabelo, as maçãs do rosto, a pele branquíssima, a dobra dos olhos de Jun Rail. Mas acima de qualquer outra coisa - quer risse ou gritasse ou se calasse ou simplesmente ficasse assim, como que à espera - a boca de Jun Rail. A boca de Jun Rail não deixava em paz. Perfurava a fantasia, simplesmente. Borrava os pensamentos. «Um dia Deus desenhou a boca de Jun Rail. Foi então que lhe surgiu aquela estranha ideia do pecado.» "

Alessandro Baricco em "Castelos de Raiva"

domingo, 16 de novembro de 2008

Vou começar agora a ler ...

" Salem 1692: uma onda de histeria colectiva, fanatismo e intolerância degenera numa feroz caça às bruxas: dezanove pessoas foram enforcadas e um homem lapidado depois de um tribunal os ter considerado culpados de fazer pactos com o diabo.
Ann Rinaldi é uma autora consagrada de romances históricos, tendo recebido o prémio de melhor livro da American Library Association pela sua obra Time Enough for Drums. Pesquisadora entusiasta de documentos históricos inéditos, encontrou nas actas dos processos de Salem o relato de Susanna English, em que se inspira este romance. "

"O Processo das Bruxas de Salem" de Ann Rinaldi

sábado, 15 de novembro de 2008

Li "o apocalipse dos trabalhadores" e ...

"o apocalipse dos trabalhadores " ... nesta única obra que, até agora li de Valter Hugo Mãe, uma das primeiras coisas que "saltou-me logo à vista" foi o facto do autor português recusar-se a utilizar maiúsculas. Por aquilo que andei a pesquisar e, como o próprio o diz, relaciona-se com uma justa pretensão de destronar determinadas ideias feitas de que algumas palavras são mais importantes do que as outras.
Teoria engraçada ... ;)
Com uma facilidade enorme para relacionar espaços sem cortes bruscos, o escritor recorre a um constante saltitar entre vários cenários e com isso constrói uma narrativa cheia de ritmo, que alia o humor às tragédias humanas, umas mais amargas que outras.
Deparei-me com uma verdadeira paródia negra, em que apesar de até nem faltarem hilariantes provocações ao divino ( o céu pode não ser mais do que um local onde à entrada se vendem souvenirs da terra ) não deixa de abordar temas tão práticos e reais do quotidiano, tais como: o aumento exponencial do nº de emigrantes no nosso país, sendo importante olhar para a diferença e aceitá-la; a vida dura daqueles que sem empregos estáveis, e dos que com trabalho muito precário e mal pago, levam uma vida de desenrasque constante e o recorrente tema da fragilidade feminina numa sociedade claramente patriarcal.
Através de um sarcasmo e ironia inteligentemente refinados, Valter Hugo Mãe foi bem sucedido ao pintar de uma forma quase que singela a vida tal como ela é ... difícil.
Gostei bastante e recomendo vivamente este retrato social e humano do Portugal contemporâneo ! Um retrato que situa-se no difícil limiar da lágrima e do sorriso.
" a maria da graça recuou um passo, encheu o peito de tanta coisa que poderia ter respondido de mil maneiras, boas ou más, tão diferentes e todas tão importantes. parou os olhos no ar expectante do desconhecido e respondeu, não me interessa o amor, isso é coisa de gente desocupada que não tem o que fazer. "

Valter Hugo Mãe em "o apocalipse dos trabalhadores"

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O que escrevi ...


O azul do céu ... azul bonito, daquele tom mar escuro com pitada de sal ! A adorná-lo umas pasmadas nuvens de couve-flor, as quais, com as suas barrigas rechonchudas murmuravam brandamente entre si, escondendo-se por detrás da montanha de pão ! Esta, salpicada por pós de fermento, deixava fluir por entre o seu sorriso castanho uma bela cascata de água, cujos sons intensos, variados e repetitivos adquiriam uma harmonia quase musical. Os agricultores, à medida que íam percorrendo os caminhos de cominhos, pisavam as ervas de especiarias e ficavam boquiabertos com o que os seus olhos comiam. Aquilo que ao longe se avistava ser um campo virgem e selvagem, uma mancha escura, uma imagem sombria, mais não era que uma colorida e verdejante floresta de brócolos ! Estes, deixavam pender de seus tenros ramos, redondas ervilhas que aproveitavam o rumorejar do vento para fazerem chegar às batatas rochedo os mais doces dos segredos !

... e comentário ao que escrevi !

" Indo directamente para a radiografia do seu trabalho, pode dizer-se que está bem estruturado e que estabelece um dialogismo interessante com o hipotexto de Mário Ventura. No início dá conta, de modo abrupto da aparição do quadro natural (“O azul do céu ... azul bonito, daquele tom mar escuro com pitada de sal ! A adorná-lo umas pasmadas nuvens de couve-flor…”); depois, define uma segunda fase descritiva, onde o ponto de vista físico subitamente se abre (entre “Os agricultores, à medida que íam percorrendo os caminhos de cominhos…” e “…ao longe se avistava ser um campo virgem e selvagem, uma mancha escura, uma imagem sombria, mais não era que uma colorida e verdejante floresta de brócolos!”). Na terceira fase, surgem finalmente os actantes que se confrontam com a passagem cosmomórfica do tempo (num relato que quase escapa praticamente à tentação narrativa; veja-se: “aproveitavam o rumorejar do vento para fazerem chegar às batatas rochedo os mais doces dos segredos!”). "
Com toda a estima e amizade, Luís Carmelo.

Desafio da estante-de-livros


Ora aqui está um interessante desafio literário proposto pela Canochinha do blog estante-de-livros ...

" Com o aproximar do final de 2008, dei por mim a pensar no total de livros que terei lido durante o ano. Até à data, e de acordo com os registos do blog, li 58 livros (na verdade, serão mais 5 ou 6, sobre os quais acabei por não falar aqui). Apesar de andar com menos tempo para ler do que é costume, penso que ficarei perto dos 75 livros lidos este ano.Tenho visto vários desafios curiosos em blogs literários internacionais, nomeadamente os que fixam uma meta em relação ao número de livros a ler em 2009 (50, 100, etc). Não me parece que consiga "despachar" 100 livros num ano, mas julgo que facilmente chego aos 50. Portanto, a meta que vou fixar são 75 livros (em média, terei de terminar um livro em pouco menos de 5 dias). Vamos ver até onde consigo ir! Desde já, estão convidados a fixarem as vossas metas e a partilhá-las connosco/fazer-lhes referência no vosso blog. "


Desafio aceite, esperando alcançar em 2009 a meta dos 50 livros ! ;)
A devido tempo, colocarei na barra lateral direita do meu blog a lista de livros lidos no ano em questão, sem esquecer o respectivo nº de paginas !

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O Romance através dos Grandes Romances


PARTE IV
...
Nisto, viu uma osga a passear por entre os rochedos. Olharam-se nos olhos e Maria Eduarda vislumbrou nela todo o seu passado, toda a sua felicidade. Deixou-se conduzir por ela, por aquela ténue esperança de esquecimento e recuperação de sentimentos há tanto tempo adormecidos. De uma forma arriscada, cativante e extravagante deixou-se levar pelas suas sábias palavras que a lembravam sempre da importância de mantermos a autonomia da nossa própria identidade, personalidade e nunca submetermo-nos à escravidão de entregarmos a alma a alguém que não nós próprios.
A osga conduziu-a até a um cágado velho e este, recordando-lhe o poder do amor verdadeiro, encetou com ela uma viagem pelo mundo dos sonhos. Nesse sonho, Maria Eduarda imaginou-se Fermina Daza ... sim, as personagens do seu romance predilecto e, tal como elas, Maria Eduarda e Afonso viveram durante 51 anos, nove meses e quatro dias, um amor incondicional, total, eterno, persistente, sem idade nem espaço físico e desafiador dos limites humanos. Amavam-se de tal forma que Afonso comia pétalas de rosa e bebia frascos de perfume de forma a sentir-se próximo da essência feminina da sua amada. Maria Eduarda escrevia de tal modo apaixonante que transformava os seus guiões em cartas de amor. E, por ironia do destino, vivia num estado de permanente dualidade, iludindo o grande amor da sua alma, Afonso, com fugazes episódios de paixão carnal, Henrique.
Sim, ela sabia que a única coisa que restaria de Henrique seria uma herança do vazio. Com ele percorreria o percurso sinuoso do amor impossível, a incerteza da paixão humana, a demanda de algo inatingível . Mas não é isso que, no fundo, todos nós desejamos ?

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O Romance através dos Grandes Romances

PARTE III

Não podemos escolher as pessoas que amamos !
Estamos sempre a querer viver um grande amor e quando finalmente nos é dada essa oportunidade, ficamos com medo de chorar, de sofrer, de verter lágrimas amargas.
Henrique fazia-a verter essas lágrimas, mas Afonso fazia brotar de seus lábios sorrisos doces.
Sabia que tinha procedido mal ao envolver-se daquela forma com Henrique, mas tinha sido inevitável. Ele tinha-se imposto na sua vida, no seu pensamento, contribuindo para o desmoronamento de todo o seu mundo afectivo e sentimental. Tinha bastado apenas um olhar ...
Numa tentativa de repor a organização do seu mundo interno, Maria Eduarda acabou por aceitar o pedido de casamento de Afonso.
Simultaneamente, tentava expiar este sofrimento através do solitário ofício de imaginação da escrita. Para isso, encetou o empreendimento de escrever um livro, um romance.
Apenas sabia que queria que esse romance povoasse a sua imaginação com imagens coloridas e surreais e que através das suas palavras, a fizesse sentir parte integrante de um inebriante poema visual onde a beleza do mundo natural ocupasse um lugar destacado. Maria Eduarda queria escrever um romance, cuja bela história que a levaria a imaginar e a viajar pelo mundo inteiro, a fizesse também esquecer, ainda que de forma fugaz, toda a selvajaria daquele sentimento turbulento que nutria por Henrique.
...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Li "Crime e Castigo" de Dostoiévski e ...

Fiódor Dostoiévski ... um dos meus escritores de referência !
Romancista tipicamente russo, que representa na sua pessoa e na sua obra as grandezas e misérias da Rússia.
O seu estilo, inconfundível, distingue-se por uma tensão nervosa exacerbada por uma espécie de vibração interior. Os protagonistas são geralmente criminosos, doentes ou loucos, sempre fora da normalidade. São personagens que vivem numa crise contínua, produzindo-se no seu interior uma dramática luta entre as forças do bem e do mal.
E é precisamente por reunir todas estas características que, em conjunto com outros romances do mesmo autor, "Crime e Castigo" é considerado um dos pilares para os estudiosos da psicanálise e uma das obras por excelência, fundadoras da modernidade.

Muito sucintamente, o livro conta-nos a história do jovem Raskólnikov que vive atormentado por um grande dilema. A certa altura da sua vida, cometeu um crime e, com o passar do tempo, agudizam-se os problemas de consciência. Este estado de espírito contribui para que o jovem entre constantemente em conflito com os que vivem em seu redor. No fundo, o que deseja é libertar-se, mas sabe que para o conseguir terá de confessar o crime que cometeu.

Através da recriação de um estranho e doloroso mundo em torno da figura deste estudante, perturbado pelas privações e duras condições de vida, Dostoiévski faz-nos empreender uma perturbante viagem pelos caminhos profundos e tortuosos que conduzem à mente criminosa, à dissecação de personalidades possuídas em simultâneo pelo bem e pelo mal.

A forma como o escritor descreve a miséria, os vícios, os crimes e seus castigos, é perfeita e envolvente. O jogo psicológico é escrito com mestria e torna-se fundamental para reflexões da índole humana.

Na minha opinião, também simplesmente geniais, inquietantes e capazes de fazerem com que fiques sem fôlego só de os ler, são os diálogos fortes, inteligentes e cheios de tensão entre o chefe de polícia Petróvitch e Raskólnikov, numa tentativa de obrigar este último à tão desejada confissão.

Em jeito de conclusão, apenas afirmar que deparei-me com um verdadeiro ensaio psicológico de personagens ... mas isto é, desde sempre, uma qualidade ímpar dos escritores russos.

" - Nesse artigo eu analisava, se não me engano, o estado psicológico do criminoso durante todo o processo do crime.

- Exactamente; e insiste em que o acto da execução do crime é sempre acompanhado por uma doença. Muitíssimo original, mas ... na verdade não foi essa parte do artigo que me interessou, mas uma ideia que exprime já no final, ideia que, lamentavelmente, o senhor expõe de modo indirecto, muito vago ... Numa palavra, tente lembrar-se, o senhor insinua que existem, certos indivíduos no mundo que podem ... ou antes, que não só podem, mas que têm o pleno direito de cometer todo o género de violências e crimes, e que para eles, supostamente, a lei não existe.
... no artigo dele as pessoas, de certo modo, são classificadas em «vulgares» e «invulgares». Os vulgares têm de ser obedientes e não têm o direito de transgredir a lei, porque, está a ver, são vulgares. Os invulgares, por seu lado, têm o direito de cometer crimes e transgredir a lei de todas as maneiras e feitios, precisamente porque são invulgares. É isso que vem no seu artigo, se não me engano ?

- Eu, pura e simplesmente, insinuei que uma pessoa invulgar tem o direito ... ou seja, não o direito oficial, mas o direito individual de dar à sua consciência a permissão de transpor ... certos obstáculos, e isso apenas no caso de a realização da sua ideia o exigir ( às vezes uma ideia salvadora para toda a humanidade ) . "

Fiódor Dostoiévski em "Crime e Castigo"

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O Romance através dos Grandes Romances !


PARTE II

Estacionou o carro mesmo em frente à praia . Ainda era cedo !
Cumprimentou a Dona Isaura, proprietária da pequena tabacaria, onde sempre que lá ía, comprava os jornais.
- Bom Dia, Dona Isaura !
- Bom Dia, Menina Laura ! Bons olhos a vejam ! Está tudo bem com a menina ?
- Está sim. Então e com o seu marido ?
- Está tudo bem, menina, graças a Deus !
- E o seu pai, o Dr Juvenal ?
- Sempre na mesma ... trabalho, congressos, trabalho.
- Então e a menina, está mais magrita ! Aposto que não se tem alimentado direito.
- Tenho ... apenas muito trabalho. Bem, vou indo para aproveitar um pouco da manhã. Aqui tem o dinheiro do jornal. Obrigada, Dona Isaura !
- Obrigada, menina e dê cumprimentos ao seu paizinho !
Laura desceu então para a praia, e descalçou as botas. À medida que avançava pela areia fina, olhava para o mar calmo, raro naquela praia, e finalmente relaxou do stress daqueles dias.
Tinha sido uma semana de trabalho realmente extenuante. Os prazos para a entrega dos guiões apertavam cada vez mais e a pressão que sentia era enorme. A responsabilidade que repousava sobre os seus ombros como Directora Criativa começava a sufocá-la e nem as relaxantes sessões de Yoga ao fim do dia pareciam apaziguar esse sentimento.
Para mais, a sua situação com Afonso também não ajudava nada.
Ela e Afonso conheciam-se desde sempre ! Cresceram, estudaram e até chegaram a trabalhar juntos. Sabia que ele a amava incondicionalmente, mas não conseguia corresponder totalmente a esse amor.
Estavam juntos há mais de dez anos ! Duarte era a sua alma gémea ... um Homem meigo, apaixonante, culto, viciado em obras belas, detentor de um gosto requintado, cidadão do mundo, amante da arte, literatura e música erudita. Ao lado dele, tudo parecia simples, sereno, calmo.
Mas faltava algo, e Maria Eduarda encontrou esse algo nos braços de Henrique !
Languidamente, fechou os olhos e a sua mente viajou para longe, para o mundo da fantasia, do amor, do romance !

domingo, 9 de novembro de 2008

Vou começar agora a ler ...

" Neste romance estão bem patentes as qualidades típicas da obra de Balzac: a fina observação psicológica dos personagens, a poderosa capacidade criadora, a arte de transformar, com a magia do seu estilo, os factos da vida corrente.
A Mulher de Trinta Anos é o drama duma mulher, Júlia, que o casamento com o coronel D'Aiglemont desiludiu. Acorrentada pela força dos convencionalismos sociais, assume a sua posição de mulher só, e resiste ao amor de Lorde Grenville, que acaba por morrer para não comprometer a honra da mulher amada. Duplamente ferida - pela solidão e pelo desgosto - , Júlia acaba por se ligar com o jovem diplomata Charles de Vandenesse, para conhecer, no seu amor, todas as dores que podem acompanhar os arrebatamentos de uma «mulher de trinta anos». "

" A Mulher de Trinta Anos " de Honoré de Balzac

O Romance através dos Grandes Romances !


Parte I

Estava um dia soalheiro de Primavera. Os primeiros raios de Sol que, espreitando por detrás da serra, despontavam timidamente e acariciavam docemente as areias brancas daquela bela praia, acordavam as águas frias do seu longo torpor.
Maria Eduarda saiu cedo de casa e uma vez mais percorreu aquele longo caminho que a levaria até à Praia das Maçãs, seu refúgio, seu cantinho de alegrias e tristezas que sempre a acolhera tão bem.
Enquanto conduzia, e após ter passado pela Malveira da Serra, deixou-se levar pela inebriante paisagem que nunca cansaria de amar !
Fez um breve desvio, e desceu vagarosamente até à Biscaia !
Uma vez lá em baixo, subiu até ao íngreme rochedo contemplando o céu a fundir-se com o mar e o mar a unir-se com a serra, numa simbiose perfeita e sublime. O mar estava invulgarmente calmo, apenas perturbado por pequenos barcos que se avistavam no horizonte.
Maria Eduarda inspirou profundamente e todas as suas preocupações, anseios e receios desvaneceram-se, completamente rendidos perante tal beleza. Beleza que a fazia esquecer tudo e todos.
Olhou para o relógio e dirigiu-se para o carro. Queria chegar cedo à Praia das Maçãs para ainda dar uma volta pela praia, e então depois, dedicar o dia à escrita do seu livro !

sábado, 8 de novembro de 2008

" Enganarmo-nos é o único privilégio humano frente a todos os outros organismos ! Quem erra, chega à verdade ! Sou ser humano precisamente porque erro. Ainda ninguém chegou a uma verdade qualquer sem antes se ter enganado catorze vezes, ou talvez cento e catorze, e isso é um mérito, neste sentido. "

Fiódor Dostoiévski em "Crime e Castigo"
Os seus traços fortes, sensuais deixavam transparecer o quanto Madame Lambertin era flamenga. Apesar de liberal, dona e senhora de si própria e de seus costumes, a sua maneira de ser não conseguia esconder certos laivos de mulher ternurenta e bondosa. Do alto dos seus trinta anos, possuía um belo sorriso que avivava os contornos da sua face e abrilhantava ainda mais o verde dos seus olhos. Não consegui deixar de observá-la todos os dias. Via-a quando atravessava maquinalmente a rua, em direcção à brasserie da esquina, de forma a apaziguar a fúria de Baco. Sim, vim a saber que era uma bêbada inveterada ! Pena, sem esse vício, decerto prolongaria a juventude da sua tez ainda tão fresca e agradável !
" De início - aliás, ainda antes, havia já muito tempo - , um problema o interessava: por que é que quase todos os crimes se deslindam e as pistas deixadas por quase todos os criminosos se descobrem com tanta facilidade. Chegou, passo a passo, a conclusões muito variadas e, na sua opinião, a causa principal residia não tanto na impossibilidade material de esconder o crime, mas no próprio criminoso. O criminoso, qualquer criminoso, quase, fica sujeito no momento do crime a uma espécie de declínio da vontade e do juízo, substituídos por uma fenomenal leviandade infantil, precisamente no momento em que é mais necessário ajuizar bem e ter muito cuidado. No seu entender, o resultado era que tal eclipse mental e tal declínio da vontade se abatem sobre o indivíduo como uma doença, se desenvolvem gradualmente e atingem o seu auge pouco antes do instante do crime e algum tempo depois, dependendo isso da natureza do indivíduo; depois desaparecem, como qualquer doença pode desaparecer. Pois bem, eis a questão: é a doença que engendra o crime, ou é o próprio crime que, pela sua natureza especial, é sempre acompanhado por uma espécie de doença ? "

Fiódor Dostoiévski em "Crime e Castigo"

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Vou começar agora a ler ...

" A maria da graça - mulher a dias em Bragança esquecida do mundo - tem a ambição, não tão secreta como isso, de morrer de amor; e, por essa razão sonha recorrentemente com a entrada no paraíso, aonde vai à procura do senhor ferreira, seu antigo patrão, que, apesar de sovina e abusador lhe falou de Goya, Rilke, Bergman ou Mozart como homens que impressionaram o próprio Deus. Mas às portas do céu acotovelam-se mercadores de souvenirs em brigas constantes e são pedro não faz mais do que a enxotar dali a cada visita.
Tal como a maria da graça, todas as personagens deste livro buscam o seu paraíso; e, aflitas com a esperança, ou esperança nenhuma, de um dia serem felizes, acham que a felicidade vale qualquer risco, nem que seja para as lançar alegremente no abismo.
o apocalipse dos trabalhadores é um retrato do nosso tempo, feito da precariedade e dessa esperança difícil. Um retrato desenhado através de duas mulheres-a-dias, um reformado e um jovem ucraniano que reflectem sobre os caminhos sinuosos do engenho e da vontade humana num Portugal com cada vez mais imigrantes e sobre a forma como isso parece perturbar a sociedade. "

Li " A Decadência Do Sonho " e ...

Tudo começou quando li no Blog as mensagens inspiradoras do "Pai do Miguel" ... simples e cheias de força ... lindas !
Porquê " A Decadência Do Sonho " ? Não sei ... sempre fui apologista de que não somos nós a escolher os livros, mas sim eles que nos escolhem ! Comigo, sucedeu isso ... ao percorrer com o olhar os três títulos, a empatia que senti perante este foi tão forte e imediata que "peguei" logo nele .
Confesso que estou a sentir alguma dificuldade para transformar em letras, palavras, frases, texto, tudo aquilo que senti à medida que ía lendo as reflexões, memórias de Pedro e Mariana, mas indubitavelmente as de Pedro.
Pedro Miranda de Sousa ... quem és tu ?
Para mim, alguém que me faz sonhar ... alguém que me faz pensar nas coisas simples e bonitas da vida ... alguém em cujos gostos me revejo ... alguém que ao longo de 138 páginas sempre soube como colocar um sorriso nos meus lábios ... alguém que me fez voltar a ter vontade de escrever ... alguém que gostava que existisse fora da minha imaginação !
Será ele Narciso à espera de Goldmundo ?
Talvez ... Pedro, o pensador de espírito ascético, o intelectual reflexivo, aquele com o qual aprendemos a pensar e Miguel, possuidor de uma natureza instintiva que partiu em busca de "outros mundos" .
Uma coisa é certa, tal como no belíssimo romance " Narciso e Goldmundo" de Hermann Hesse também aqui existe entre Pedro e Miguel uma mágica ligação simbiótica .
Todo o restante livro é um constante desfilar do infinitamente belo: Luchino Visconti com a sua esplêndida " Morte em Veneza "; os Deuses da mitologia greco-romana, com especial ênfase em Baco e Dionísio; " Arte de Amar " de Ovídio; o pensamento oriental; as mandalas; as vivências passadas ( sim, porque acredito nelas ) ...
Agora, imaginem este desfile com o mar como pano de fundo no qual ondulas ao sabor das correntes de Requiem ...
Também simplesmente intenso e adorável o jogo das frases entre Pedro e Mariana, a ver quem conseguia ser mais poeta ...
" - estar aqui a memorizar-te, nestas páginas de incerteza, é sentir-te vivo nesta luz que me ilumina, feita da tua beleza.
- porque te hei-de sofrer, lágrima do meu destino ?
- que escorra azul dos teus olhos e sejas boca do meu sorriso.
- terna foi tua mão quando tocou ao de leve esta minha sensação. "
Adorei este livro tão simples, mas profundo !
Pela primeira vez, senti alguma dificuldade em retirar dele excertos e publicar no meu blog, como vem sendo hábito .
Isto porque todas as palavras e frases libertavam uma magia e tocavam-me de tal forma, que corria o risco de ter que transcrever o livro inteiro ! ;)
" Os meus negócios não íam grande coisa: eram de facto um sistema um bocado arcaico. O mundo entretanto tinha evoluído, a indústria da indiferença tinha-se desenvolvido bastante, o comércio da mentira e da traição tinha-se generalizado, a mais-valia era agora muito moderadamente canalizada para capitalizar o ódio e o desprezo, enfim o mundo tinha dado um grande passo em frente, e eu sentia-me a falir. Já ninguém me queria comprar sonhos, nem acreditava mais em ilusões. O sonho impossível, que eu tinha comprado a um monge tibetano empregando nesse negócio todas as minhas reservas, não era já de todo negociável. Tinha de ficar eu com ele. "

José Manuel Arrobas em " A Decadência Do Sonho "

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Madame Lambertin, mulher de traços fogosos e sensuais, que não conseguia de forma alguma dissimular a sua fisionomia marcadamente flamenga, diria mesmo, ostensivamente flamenga. Alta, tez morena, aparentava ter já perto de quarenta anos. Detentora de costumes livres, mas firmes, era-lhe impossível esconder toda a doçura e candura que inevitavelmente moldavam os seus gestos e atitudes. Dona de um sorriso genuinamente aberto, que cocegava as suas bochechas mas invejava o verde deslumbrante, incenso daqueles belos olhos. Escravo de um desejo selvagem e rudimentar, não pude deixar de observá-la todos os dias, quando passava na minha rua a caminho da brasserie. Madame Lambertin, qual boneca manipulada pelo desejo embriagador de Dioniso, regressava com um cabaz de dimensões gigantescas, contendo uma infinita variedade de garrafas de Gueze. Maldito vício ! Se assim não fosse, e apesar das marcas maduras e inevitáveis do tempo, poderia ser ainda mais bela, juvenil e desejável !
« A água solta o cabelo nas cascatas. »

terça-feira, 4 de novembro de 2008


A chuva irrompia furiosamente pela neblina, que, tímida e assustada, desaparecia sorrateiramente deixando desnudadas as belas ruas e estradas. Nestas, desabrochavam as mulheres que com passos miúdos mas céleres dirigiam-se para a Igreja, tendo como companheiros o belo guarda-chuva e aquela mania irritantemente feminina de estar sempre a levantar a saia para que a água não as incomodasse ainda mais. Os seus rostos encontravam-se ocultos ...

Comecei hoje a ler ...

" Um canto da Europa do século XIX.
Uma pequena cidade imaginária e verosímil. Os sonhos do senhor Rail e os lábios da senhora Rail. A fábula dos primeiros comboios. Um homem que ouve o infinito. Uma criança que traz em cima de si o seu destino. A magia de Crystal Palace, imensa construção de vidro. A vida singular de Hector Horeau, arquitecto genial e perdido.
Um microcosmos de personagens invulgares, todas elas com um denominador comum: a capacidade de sonhar, de ultrapassar uma realidade pequena, para viver noutra dimensão: a do sonho, da música, da poesia.
Tudo isto num livro construído com uma estrutura e uma escrita espectaculares.
Um livro que devolve o prazer de escutar Grandes Contos e a confiança de ainda os poder contar.
O romance que, em 1991, marcou a estreia de Alessandro Baricco. "

domingo, 2 de novembro de 2008

Li "O Nariz" de Nikolai Gógol e ...

Carlo Collodi ( 1826 - 1890 ) com o seu célebre Pinóquio e Nikolai Gógol com o não menos fantástico Nariz, parecem evidenciar na literatura do Séc. XIX um determinado grau de fascínio por este órgão !
Escrito entre 1835 e 1836, "O Nariz" de Gógol assume o cariz de um conto cómico-satírico no qual imperam o inesperado, a fantasia, a alegria, a originalidade ...
Trata-se de uma narrativa sobre um oficial de São Petersburgo, cujo nariz abandona o seu rosto e decide ter vida independente, ora passeando ao longo da Avenida Névski, ora encarnando a personagem de um importante Conselheiro de Estado.
Apesar de poder ser considerado como uma divertida história com o simples intuito de entreter, este conto assume todos os contornos de uma crítica burlesca à sociedade russa. Sociedade essa, extremamente burocrática e dividida em classes, onde o dinheiro e o poder desempenham um papel preponderante.
Kovaliov, o homem que é despojado do respectivo nariz, é alguém que procura a ascensão social, vivendo num mundo de aparências, onde o dinheiro e a roupa que se veste são primordiais.
Esta perca, numa sociedade onde a aparência é então fundamental, funciona como processo de emasculação de um homem que se vê impossibilitado de prosseguir a sua vida normal. Deixa de ser Kovaliov, transformando-se num ser incompleto, incapaz de sobreviver e prevalecer numa vida em comunidade.
A forma como o outro o vê e o olha é algo que o atormenta durante todos os acontecimentos.
Bastante actual, deparei-me com um conto revelador de um mundo que impossibilita a ascensão de um ser imperfeito e que confere uma importância desmedida ao visual, à aparência e ao físico.
" Contudo, nada neste mundo é duradouro, e, por tal, também a alegria do segundo minuto já não é tão viva como a do primeiro; ao terceiro minuto fica ainda mais fraca e, por fim, acaba por fundir-se com o estado de ânimo ordinário, como o círculo que a pedrinha faz na água se esbate e finalmente se funde na superfície lisa do charco. "

Nikolai Gógol em "O Nariz"

sábado, 1 de novembro de 2008

" Em estado de doença, os sonhos distinguem-se muitas vezes pelo extraordinário relevo, por uma nitidez e uma semelhança incrível com a realidade. Às vezes os sonhos montam-nos cenários monstruosos, mas o ambiente e todo o processo do espectáculo são tão vivos e com pormenores tão subtis, tão inesperados, mas encaixando-se tão bem, tão artisticamente, na plenitude da imagem, que o próprio espectador do sonho não conseguiria inventá-los em vigília, nem que fosse um mestre como Púchkin ou Turguénev. Tais sonhos, sonhos doentios, ficam por muito tempo na memória e causam uma impressão muito forte ao organismo já abalado e excitado do indivíduo."


Fiódor Dostoiévski em "Crime e Castigo"

Um convívio de artistas


« O escritartes é um site de divulgação literária, criado em Setembro de 2007, no qual qualquer pessoa pode contribuir deixando os seus textos. O site, que é bastante dinâmico, declara-se como um espaço de convívio entre artistas, desde a poesia até à pintura. Está construído em formato de fórum e disponibiliza contos, crónicas, ensaios, ficções, poesias, fotografias e pintura. Também pode deixar comentários aos textos das outras pessoas. »