segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Onda Nocturna

"Onda que se desfaz em espuma
Sobre o areal franjado,
Debaixo de um céu sem bruma
E de astros marchetado.

Ondino colar de pérolas
Num dispersar pela areia,
A brilhar sob as estrelas
Em noites de lua cheia.

Vem meigamente ofertar
Em nocturno esplendor ...
Delírios que tráz do mar;
Da terra conquistador !

Onda que vens e deixas
O teu mar enciumado,
A desfazer-se nas queixas
De um amor amaldiçoado ! ... "

Daniel Jorge da Silva em "A Voz do Mar"




quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Li "O Leitor" de Bernhard Schlink e ...

'Der Vorleser' ... em alemão. Título original.
'Le Liseur' ... em francês. Palavra aveludada e mais sensual do que 'Le Lecteur'.
'Il Lettore Pubblico' ... em italiano. Na minha opinião, tradução mais fiel ao contexto, por referir-se a um leitor que lê diante de outra pessoa, e sente prazer nesse acto !

Conta-nos a história de Michael Berg e do seu relacionamento com Hanna Schmitz. Hanna, de 36 anos inicia Michael, de 15, nos segredos da sexualidade. Esta relação obedece a um ritual ... antes de se amarem, banham-se e ele lê para ela livros como Emília Galotti de Schiller ou Guerra e Paz, com todas as exposições de Tolstoi sobre a História, os grandes homens, o Amor e o Casamento.
Michael fica fascinado com esta mulher madura até que de repente deixa de saber dela ! Jamais a esquecerá e jamais esquecerá que leu para ela, em voz alta, autores clássicos como Rilke ou Goethe. Anos depois, já na faculdade onde estuda Direito, resolve participar num grupo de trabalho que estuda um caso de acusação a guardas dos campos de concentração. Hanna é uma das acusadas.
Condenada a prisão perpétua, recebe de Michael, que nunca a visita, fitas com gravações de Odisseia; contos de Schnitzler e de Tchekov; poesia de Keller e Fontane, Heine e Morike e textos de Kafka, Frisch, Johnson, Bachmann, Lenz ou Zweig.

Deparei-me não com uma história de amor e muito menos romântica, mas com uma história de descobertas. De amor esquecido no interior do corpo, prematuramente desenraizado, vivido conforme é possível e conforme o quanto se está disposto a enfrentar os monstros.
É mais do que um simples romance com narrativa linear. É um livro cheio de ses, imbuído de pontas soltas, de mal entendidos, de perguntas mal feitas, de respostas nulas. É o abandonar-se a si e ao peso da solidão voluntariamente.

Fiquei presa do princípio ao fim, quando Schlink coloca em êxtase a leitura em voz alta dos clássicos, a paixão pelas histórias dos livros, o banho e o amor, relegando para segundo plano os temas da reunificação da Alemanha, lembranças brutais do holocausto ou fugas fantasistas.

Confesso que emocionei-me com o final ! Senti um aperto no estômago, esperava algo trágico, mas não propriamente aquele impacto ao virar a página !
" Mas quando cheguei no dia seguinte e quis beijá-la, desviou a cara.
- Primeiro, tens que ler em voz alta.
Estava a falar a sério. Tive que lhe ler alto Emília Galotti durante meia hora antes de me meter no duche e me levar para a cama. Agora, até gostava de tomar banho. O desejo com que chegava, esvaía-se durante a leitura. Ler desta maneira um texto, de maneira a conseguir diferenciar minimamente os diferentes personagens e dar-lhes vida, requer uma certa concentração. Debaixo do duche, voltava-me o desejo. Ler alto, tomar banho, amar e ficar ainda um bocadinho deitados ao lado um do outro, tornou-se então no ritual dos nossos encontros. "

Bernhard Schlink em "O Leitor"

" Muitas vezes eram as observações da Hanna que me levavam a aperceber-me das flores, das trovoadas de Verão e dos bandos de pássaros. As suas observações sobre literatura eram assombrosamente acertadas. «O Schnitzler ladra, o Stefan Zweig é um cão que ladra mas não morde», ou «o Keller precisa de uma mulher», ou «os poemas de Goethe são como pequenos quadros com uma linda moldura», ou «o Lenz escreve com certeza à máquina». Fiquei espantado ao aperceber-me de como muita da literatura mais antiga pode ser lida, realmente, como se fosse actual; e, quem não saiba nada de História, pode ver nas condições de vida de épocas passadas simplesmente as condições de vida actuais em países distantes. "

Bernhard Schlink em "O Leitor"

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Feliz Natal !!!


Bedtime Stories !

Once upon a time there was a blanket ...

Sinfonia do Vento

" Vento que uiva,
Que corre
Veloz !
Que açoita a tarde
Que morre
Sem nós ...
Branca agonia,
Triste saudade;
Louca sinfonia
Diabólico bailado
Marmóreo,
Frio ...
Ilusão ... Verdade;
Fúria que varre
Meu Inverno gelado !

Daniel Jorge da Silva in "A Voz do Mar"

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Motivação

" Valeu a pena ? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu. "

Fernando Pessoa ( Do «Mar Português» )

domingo, 21 de dezembro de 2008

Vou começar hoje a ler ...

" José olha o sol de frente e pensa. Pensa na mulher e no que o diabo lhe disse na venda sobre ela. E pensa no dia em que as cigarras se calarão na planície e os ramos mais finos dos sobreiros e das oliveiras se tornarão pedra. Trinta anos mais tarde, José filho de José, olha o sol de frente e pensa. Pensa na mulher do primo e no que o diabo anda a dizer ao primo na venda sobre eles. E pensa no instante em que nada restará, nem mesmo o silêncio que fazem todas as coisas a olhar-nos. "

"Nenhum Olhar" de José Luís Peixoto

sábado, 20 de dezembro de 2008

Pedras de Leitor

Biblioteca

Leitores com livros

Ler o livro antigo

Ler sobre pintura

Livros sobre o mar

« Madalena Bensusan nasceu na cidade de Lisboa, em 1964.
A sua dedicação ao livro e à leitura começou ainda era estudante. Uma vez acabado o liceu, entregou-se de corpo e alma ao mundo das livrarias, procurando cada vez mais formação nesta área, tirando para isso o curso de livreiros promovido pela APEL. Continuou o seu trajecto livreiro, passando, por grandes livrarias na cidade das 7 colinas, abraçando e desenvolvendo projectos que tinham por base a divulgação do livro e da leitura, numa tentativa contínua para que o LIVRO e a LEITURA fizessem parte de cada um de nós.
Um dia, olhando para o Tejo, imaginou pequenas criaturas sobre as rochas adaptando as suas formas a cada uma delas em busca da posição ideal para a leitura. E assim nasceram as "Pedras de Leitor".
Hoje os pequenos leitores saltam para telas coloridas e, sempre com a mesma energia, procuram alcançar o seu objecto preferido. O LIVRO!
É urgente e necessário que todos façamos uma "CORRIDA AO LIVRO". »

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Trago dentro de mim um mar imenso

" trago dentro de mim um mar imenso
feito de vagas tristes
e sonhos vagos

o horizonte é uma manhã
que eu quis minha para ser eu

e para porto de abrigo escolhi uma tarde
que soubesse chorar a morte do sol "

José Rui Teixeira

domingo, 14 de dezembro de 2008

O Pessoa Preferido

" Fernando Pessoa dispensa apresentações. Basicamente complexo, é o poeta que conseguiu chegar a todas as camadas da sociedade. E consegue-o agora mais facilmente na Internet, em http://pessoa.mdaedalus.com. Com uma base de dados bastante recheada com a obra do poeta fingidor, a pesquisa é prática, resumindo-se a página principal a um simples abecedário. Os poemas, por ordem alfabética de título ou primeiro verso, estão à distância de um clique na letra correspondente. Opiário, do heterónimo Álvaro de Campos, estará obviamente na letra O, Liberdade na letra L, e assim sucessivamente. Guarde o endereço nos seus favoritos e vá dando uma leitura numa das mais ricas obras da literatura portuguesa. "

Texto de Sara Otto Coelho

domingo, 7 de dezembro de 2008

Li "Excertos dos diários de Adão e Eva" e ...

Mark Twain, pai de Tom Sawyer e de Huckleberry Finn, publicou os seus "Excertos dos Diários de Adão e Eva" entre 1904 e 1906.
Num exercício de humor delirante, subverte e recria, em ambiente de guerra dos sexos, a história bíblica.
O modo como o autor trata o tema da criação da mulher e do homem num paraíso ironicamente idealizado, proporcionou-me momentos de leitura muito divertidos ! ;)
Deparei-me com textos plenos de um humor corrosivo, que sabem ser poéticos quando se referem a Eva, jovem apaixonada pela vida, possuída pela curiosidade e pelo fascínio da aventura, da descoberta.
Vemos surgir perante nós a ideia de uma mulher demasiado subversiva para o início do Séc XX: incontrolável, instintivamente livre e sensual, cheia de sede de conhecimento.
O escritor atreveu-se a tratá-la como alguém mais inteligente, mais divertido, mais perspicaz, mais criativo do que Adão, figura de que Twain ironiza a mentalidade limitada, o espírito tacanho e conservador, inquinado pelo machismo e pelos preconceitos. Cheio de ideias feitas, fugindo com afinco do ser imprevisível que tenta confrontá-lo com o novo, enquanto ele se restringe à queixa.
"Excertos dos diários de Adão e Eva" é de certo modo a explicação do começo do amor: espontâneo por parte de Eva, renitente por parte de Adão ... é a história de uma paixão que termina com um ternurento epitáfio para Eva: «Adão: Onde quer que ela estivesse era o Éden». E deste modo simples, acabou por redimir o Homem. ;)

sábado, 6 de dezembro de 2008

Diário de Adão
" Estive a examinar a cascata. É o melhor do parque, penso. O novo ser chama-lhe «Catarata do Niagara» - porquê ?, não compreendo. Diz que parece a Catarata do Niagara. Isso não é razão. É um mero devaneio e imbecilidade. Não posso nunca dar nome a nada. O novo ser dá nome a tudo o que aparece antes de eu poder esboçar um protesto. E o pretexto é sempre o mesmo: parece ser aquilo. Por exemplo, um dodo, diz que, logo que se avista um, percebe-se que «parece um dodo». Vai ter de passar a chamar-se assim, sem dúvida. Desgasta-me tentar discutir sobre isso e nem vale a pena, de qualquer maneira. Dodo ! Parece-se tanto com um dodo como eu ! "

Diário de Eva
" Agora estamos a dar-nos melhor ( ... ) Gosto muito disso e eu estudo para lhe poder ser útil todos os dias, sempre que posso, para subir na sua estima. Nos últimos dois ou três dias tirei-lhe dos ombros o fardo de dar nomes às coisas e isto deixou-o muito aliviado porque ele não tinha o mínimo jeitinho para isso e está-me muito grato por isso. Não seria capaz de inventar um nome minimamente racional nem que a sua vida dependesse disso, mas eu finjo que não me apercebo desse defeito. Sempre que surge um novo ser eu dou-lhe um nome antes sequer de ele se expor a cair num silêncio embaraçoso. "

Mark Twain in "Excertos dos diários de Adão e Eva"
Diário de Adão
" Construí um abrigo contra a chuva para mim, mas não pude sequer gozá-lo em paz. O novo ser intrometeu-se. ( ... ) Eu preferia que não falasse. Está sempre a falar ! Isto pode parecer um golpe baixo contra o pobre coitado, uma injúria; mas não é nada disso. Eu nunca ouvi a voz humana antes e qualquer som estranho e novo irrompendo aqui, na solene pacatez destas solidões de sonho, ofende os meus ouvidos e soa como uma nota artificial. E este novo som irrompe sempre tão perto de mim, vem sempre detrás do meu ombro, direito ao meu ouvido. Primeiro de um lado, depois do outro ... e eu estou habituado a sons que estão sempre mais ou menos distantes de mim. "

Diário de Eva
" Quando eu descobri que ele podia falar encontrei um novo interesse por ele porque eu adoro falar; falo a todo o instante, durante o sono, e consigo ser muito interessante, mas se eu tiver alguém mais com quem falar eu posso ser duplamente mais interessante, e acho que nunca mais parava, se eu quisesse. "

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Este blog foi premiado ... ;)


Pois é, este blog foi duplamente premiado com o Prémio Dardos ! Obrigada Pedro ( http://p-leituraseopinioes.blogspot.com/2008/11/prmio-dardos.html ) e Isabel Maia ( http://nacompanhiadoslivros.blogspot.com/2008/12/prmio-dardos.html ) !

Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada bloguista emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre as suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os bloguistas, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.

Quem recebe o Prémio Dardos e o aceita deve seguir algumas regras:
1. Exibir a distinta imagem;
2. Linkar o blogue pelo qual recebeu o prémio;
3. Escolher 15 outros blogues a quem entregar o Prémio Dardos.

Assim, os 15 blogs nomeados são:
http://bibliotecatransmissivel.blogspot.com/
http://estante-de-livros.blogspot.com/
http://p-leituraseopinioes.blogspot.com/
http://imagensdomeumundo.blogspot.com/
http://toliveirinha.blogspot.com/
http://olharnomade.blogspot.com/
http://www.olhardireito.blogspot.com/
http://www.aminhalivraria.blogspot.com/
http://lectorinfabula.blogspot.com/
http://nacompanhiadoslivros.blogspot.com/
http://biblioteca_vania.blogs.sapo.pt/
http://www.bibliofilmes.blogspot.com/
http://leituras-e-devaneios.blogspot.com/
http://escreverescrever.blogspot.com/
http://avidaebelaeamarela.blogspot.com/

Vou começar hoje a ler ...

" Um advogado alemão que amou uma ex-guarda de um campo de concentração pode vir a acusá-la sem se trair a si mesmo ? É a esta reflexão, entre muitas outras, que Bernhard Schlink nos convida em O Leitor. Michael Berg, um adolescente nos anos 60, é iniciado no amor por Hanna Schmitz, uma mulher madura, bela, sensual, secreta e autoritária. Ele tem 15 anos, ela 36. Os seus encontros decorrem como um ritual: primeiro banham-se, depois ele lê, ela escuta, e finalmente fazem amor. Este período de felicidade incerta tem um fim abrupto quando Hanna desaparece de repente da vida de Michael.
Michael só a reencontrará muitos anos mais tarde, envolvida num processo de acusação a ex-guardas dos campos de concentração nazis. Inicia-se então uma reflexão metódica e dolorosa sobre a legitimidade de uma geração, a braços com a vergonha, julgar a geração anterior, responsável por vários crimes. Perturbadora meditação sobre os destinos da Alemanha, O Leitor é, desde O Perfume, o romance alemão mais aplaudido nacional e internacionalmente. "

Também vou começar hoje a ler ...

"Os contos surpreendentes e comoventes que fazem parte de Confundir a Cidade com o Mar revelam uma maturidade e imaginação invulgares, ilustrando a capacidade de Richard Zimler para nos conduzir pelos territórios obscuros da alma e para criar personagens singulares e inesquecíveis. Estas lutam para quebrar os impasses da vida, redimir mágoas do passado ou libertarem-se das ilusões sexuais, políticas e espirituais que os afastaram de si próprios. Vivem brilhantes momentos de revelação, mas também sofrem decepções incapacitantes, e é através das suas subtis traições e dos seus pequenos gestos heróicos que Zimler explora a influência que exercem sobre nós cidades sofisticadas como S. Francisco ou comunidades mais fechadas do sul dos E.U.A ou da diáspora lusófona ( incluindo a comunidade portuguesa de Nova Iorque )."

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Mar Sonoro


" Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momento há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim. "

Sophia de Mello Breyner Andresen