sábado, 26 de dezembro de 2009

Desafio '50 livros em 2009' concretizado !

Lembram-se do interessante desafio literário referente à leitura de 50 livros em 2009 ?
Pois é, desafio concretizado a 17 de Dezembro com a leitura de "Os da minha Rua" de Ondjaki ( 50º livro lido em 2009 ... 12315 páginas lidas ) ! ;)
Para 2010, avizinham-se outros tipos de objectivos, sobre os quais escreverei mais tarde !
" O poder que a dor da perda tem de perturbar a mente foi de facto observada até à exaustão. O acto de chorar a perda de alguém, disse-nos Freud no seu Luto e Melancolia de 1917, «envolve desvios graves da atitude normal perante a vida». No entanto, observa ele, a dor da perda continua a ser considerada à parte dos outros distúrbios: «Nunca nos ocorre considerá-la uma situação patológica e enviá-la para tratamento médico.» Em vez disso, confiamos que «será ultrapassada após um certo lapso de tempo». Consideramos «qualquer interferência inútil e até prejudicial». Melanie Klein, no seu Mourning and Its Relation to Maniac-Depressive States, de 1940, faz uma afirmação semelhante: «Quem chora uma perda está, de facto, doente, mas, porque este estado mental é vulgar e nos parece muito natural, não classificamos de doença o acto de chorar essa perda ...
Para expressar a minha conclusão de forma mais exacta diria que, no acto de chorar a perda, o sujeito passa por um estado maníaco-depressivo modificado e transitório e supera-o. "

Joan Didion in "O Ano do Pensamento Mágico" ( 49º livro lido em 2009 ... 12191 páginas lidas )

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Li "A elegância do Ouriço" e ...

Em "A elegância do Ouriço", Muriel Barbery consegue formidavelmente reunir representantes das diversas classes sociais de França, os quais convivem na pacata rotina de um prédio rico e tradicional.
É neste exemplar da sociedade francesa, recheado de moradores ricos, snobes, egoístas e preconceituosos, que destacam-se duas pessoas: a porteira Reneé Michel e a pequena Paloma Josse.
A primeira, longe de corresponder aos estereotipos sociais a que se associa a sua função ( nutre em segredo um amor extremado às letras e às artes ) tenta manter a todo o custo uma imagem credível. Já a pequena Paloma é a típica criança incompreendida, filha de uma figura proeminente da política e de uma mãe dondoca, que procura descobrir algum sentido na vida, caso contrário cometerá suicídio no seu aniversário de treze anos.
Ambas, cada qual no seu universo particular, são observadoras refinadas da natureza humana nas suas mais diversas facetas.
E é quando um novo habitante, Kakuro Ozo, chega ao prédio, que estes dois mundos paralelos, inicialmente separados, encontram-se. Em pouco tempo, este personagem descobre segredos e cria amizades/cumplicidades estranhas, através de uma grande qualidade sua - ver para além da superfície.

A dinâmica da história é extremamente interessante, porque, ao ser contada na primeira pessoa e a duas vozes, o ritmo torna-se rápido e sugere que penetramos nas mentes de Reneé e Paloma.

Gostei imenso da leitura deste romance, o qual através de uma elegância muito própria alterna quotidiano e evasão, banal risível e sonho filosófico.

( 46º livro lido em 2009 ... 11361 páginas lidas )
"A senhora Michel tem a elegância do ouriço: exteriormente, está coberta de espinhos, uma autêntica fortaleza, mas pressinto que, no interior, também é tão requintada como os ouriços, que são uns animaizinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes."

Muriel Barbery in "A elegância do Ouriço"
" Para que serve a Arte ? Para nos dar a breve mas fulgurante ilusão da camélia, ao abrir no tempo uma brecha emocional que parece irredutível à lógica animal. Como nasce a Arte ? Nasce da capacidade que o espírito tem de esculpir o domínio sensorial. O que faz a Arte por nós ? Dá forma às nossas emoções e torna-as visíveis e, ao fazê-lo, apõe-lhes o selo de eternidade que ostentam todas as obras que, através de uma forma particular, sabem encarnar a universalidade dos afectos humanos.
( ... )
... Não tarda a aspirarmos a um prazer sem procura, a sonharmos com um estado de beatitude que não comece nem acabe e onde a beleza deixe de ser fim ou projecto e passe a ser a própria evidência da nossa natureza. Ora, esse estado é a Arte.
( ... )
... a Arte é a emoção sem o desejo. "

Muriel Barbery in "A elegância do Ouriço"

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

" Tinha eu então trinta anos, e era tenente da marinha, quando me encarregaram de uma missão astronómica na Índia central.
( ... )
Seriam necessários vinte volumes para contar essa viagem. Atravessei regiões inverosivelmente magníficas; fui recebido por príncipes de uma beleza sobrehumana e vivendo numa incrível magnificência. Pareceu-me, durante dois meses, que caminhava num poema, que percorria um reino de fadas sobre o dorso de elefantes imaginários. Descobria no meio de florestas fantásticas, ruínas espantosas; encontrava em cidades de uma fantasia de sonhos, prodigiosos monumentos, finos e burilados como jóias, ligeiros como rendas e enormes como montanhas, esses monumentos fabulosos, divinos, de um encanto tal que nos apaixonamos pelas suas formas tal como nos enamoramos de uma mulher, e que se experimenta ao vê-los um prazer físico e sensual. Enfim, como disse Victor Hugo, eu andava acordado dentro de um sonho. "

Guy de Maupassant in "Chali"

sábado, 5 de dezembro de 2009

Where Books Come To Life



Genial este filme produzido pela Colenso BBDO Animated para a NZ Book Council ! ;)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Li "A Casa Amarela" e ...

Sinopse:
" Dois gigantes, uma pequena casa...
De Outubro a Dezembro de 1888, uma dupla de artistas, na época mal conhecidos, partilhou uma casa em Arles. Paul Gauguin e Vincent van Gogh comeram, beberam, conversaram e discutiram, dormiram e pintaram numa das mais intensas e espantosas oportunidades criativas da História. Porém, à medida que as semanas passavam, Van Gogh começava a sentir a tensão, discutia com o companheiro e automutilava-se, levando Gauguin a deixar a casa sem sequer se despedir. A Casa Amarela é um retrato do tempo que passaram juntos, bem como uma abordagem inteligente da sua frágil amizade, arte, loucura, génio e das razões para o chocante acto de automutilação de Van Gogh que até hoje o mundo procura explicar. "

De uma forma bastante original somos conduzidos por Martin Gayford até uma pequena cidade solarenga de província no Sul de França, Arles.
Nesta, deparamo-nos com o sonho de um homem, mais propriamente Vincent Van Gogh, em criar uma comunidade de artistas, um círculo de pintores dispostos a partilhar ideias, cores, temas, experiências, livros e vivências.
Um dos seus 'companheiros' será precisamente Paul Gauguin, com quem compartilhará modelos e paisagens. A casa amarela tornar-se-á um pólo de comunicação artística entre dois músicos da cor até que a personalidade instável de Vincent acabará por afastar Gauguin.

E é assim que ao longo de 9 semanas e 326 páginas embrenhamo-nos numa das mais espantosas maratonas criativas da arte ocidental.Adorei esta obra biográfica, recomendando-a a todos aqueles que, tal como eu, são apaixonados por literatura e pintura ! ;)

( 44º livro lido em 2009 ... 10517 páginas lidas )
" Vincent era efectivamente romântico. Procurava um compromisso apaixonado com aquilo que pintava, fosse uma pessoa, um local ou uma coisa. Esparramava e esmagava tubos de pigmento na tela como se quisesse sentir o tacto e o cheiro do material. Gauguin, pelo contrário, preferia um «estado primitivo.» Queria a simplicidade e poesia de uma era anterior; amava Botticelli, a Grécia Antiga, a Pérsia, a Idade Média, as artes exóticas dos países quentes, e admirava os metódicos pintores clássicos - Degas, que idolatrava Ingres, que por sua vez venerava Rafael. Esta maneira fria e linear, que exprimia sensações quentes e exóticas, interessava pouco a Vincent. Tal como a disciplina, formal mas um pouco diferente, de Cézanne. Gauguin exagerava ou deturpava algumas das aversões do seu companheiro de casa: Vincent venerava Degas, mas chegava a ser severo em relação a Cézanne. "

Martin Gayford in "A Casa Amarela"

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Catarina

" Se o mar espelhasse
O azul do teu olhar
Por um instante que fosse
O mundo iria parar
Somente para o admirar
E o sol do teu cabelo
Eclipsa a estrela universal
Quase que cega, ao vê-lo
Desperta a dúvida natural
Qual é o sol afinal ?
Van Gogh, Monet, Renoir
E tantos outros pintores
Que morreram sem alcançar
A perfeição das tuas cores,
Superior a um arco-íris de flores
Por mais artistas que escolhesse
Por mais que aprimorasse a rima
Para descrever a tua beleza
A dúvida é uma lâmina fina
Como se descreve uma obra-prima ? "

Francisco K in "Poiesis - Volume VIII"

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

" Então, bebamos uma chávena de chá.
Como Kakuzo Okakura, o autor de O Livro do Chá, que ficava desolado com a revolta das tribos mongóis no século XIII não por ter trazido morte e destruição mas por ter destruído o fruto mais precioso da cultura Song, a arte do chá, sei que não se trata de uma beberagem menor. Quando passa a ser um ritual, é o cerne da aptidão para vermos a grandeza nas pequenas coisas. Onde está a beleza ? Nas grandes coisas que, tal como as outras, estão condenadas a morrer, ou nas pequenas que, sem nada pretenderem, sabem incrustar no momento uma gema de infinito ?
O ritual do chá, essa recondução precisa dos mesmos gestos e da mesma degustação, esse acesso a sensações simples, autênticas e requintadas, essa liberdade que é dada a cada pessoa para se converter, por pouco dinheiro, num aristocrata do gosto porque o chá tanto é bebida dos ricos como dos pobres, portanto, o ritual do chá tem a virtude extraordinária de introduzir no absurdo das nossas vidas uma brecha de serena harmonia. Sim, o universo conspira para a futilidade, as almas perdidas choram pela beleza, estamos rodeados de insignificância. Então, bebamos uma chávena de chá. Faz-se silêncio, ouve-se o vento soprando lá fora, as folhas de Outono farfalham e levantam voo, o gato dorme a uma luz quente. E, em cada gole, sublima-se o tempo. "

Muriel Barbery in "A elegância do Ouriço"

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Para aqueles livros especiais ...


Bastante criativa esta ideia da Iron Design Company. ;)
Desenvolvida a pensar naqueles livros que nos são tão especiais ... só é pena a largura não permitir todo o género de publicações.
Leiam aqui mais informações !

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Li "As Intermitências da Morte" e ...

Fiel ao seu estilo sarcástico e irónico, José Saramago apresenta-nos neste romance um quadro muito interessante: narra os conflitos provocados pela decisão da Morte de abandonar a sua actividade, ou seja, num país não identificado, a partir do momento em que se brinda um novo ano as pessoas pura e simplesmente não morrem.

Se a reacção inicial da população é de euforia e alegria, rapidamente transforma-se num motivo de preocupação, pelo impacto político, económico, social e até religioso da nova situação.
A ausência de mortes de um dia para o outro, sonho milenar da Humanidade, converte-se repentinamente numa dor de cabeça para governantes e cidadãos.
E é descrevendo as reacções das diversas instituições e entidades ( Igreja, Comunicação Social, Filósofos, Economistas, Hospitais, Companhias Seguradoras, Agências Funerárias, entre outras ) que o autor vai tecendo duras críticas à Sociedade Moderna.

Efectivamente, e além de fazer-nos olhar para a morte sob um prisma completamente diferente, leva-nos a reflectir sobre algumas questões importantes tais como o egoísmo, a extorsão, a falta de união e amor familiar, a corrupção, a eutanásia e até nós próprios.

Para não variar, diverti-me imenso com a leitura de mais um dos enredos impossíveis de José Saramago, tendo mesmo chegado a sentir alguma simpatia pela personalidade humana, demasiada humana da personagem Morte.
Enfim, um livro que recomendo vivamente ! ;)

( 41º livro lido em 2009 ... 9825 páginas lidas )

sábado, 7 de novembro de 2009

" Wagner via-se como um João Baptista da música; e profetizava que outros viriam depois dele e criariam as obras de arte do futuro. Vincent previa que, no futuro, um pintor faria com a cor aquilo que Wagner tinha feito com o som: misturá-la em novas e belas combinações que apaziguariam o espírito e falariam à alma: «Chegará o dia.»
A comparação entre música e pintura era mais do que uma simples analogia; muitos artistas e escritores acreditavam que ela era uma verdade profunda. Iam mesmo mais longe e acreditavam que todos os sentidos vibravam em harmonia. O poeta Baudelaire tinha escrito que «perfumes, cores e sons respondem entre si.» Huysmans, um autor que Vincent venerava, tornava mesmo extensivas aos sabores as suas sensações musicais. No seu romance À Rebours ( A Contrapelo ) tinha escrito sobre uma colecção de licores que ela era também um «órgão de boca». Cada licor «correspondia ao som de um determinado instrumento.» O curação seco, por exemplo, era como «o clarinete com o seu registo aveludado e penetrante.» "

Martin Gayford in "A Casa Amarela"

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Pedaços da Minha Vida

" Cansada de ter saudades
Fiz tudo para esquecer
Hoje, tenho saudades
De saudades já não ter

Lutei toda a minha vida
Encarei as realidades
Hoje vivo aqui sozinha
Cansada de ter saudades

Tanto amor, tanta canseira
Sofri sem nada dizer
Sacrifício ... a vida inteira
Fiz tudo para esquecer

Poucos momentos felizes
Lembro e faz-me sofrer
Hoje eu tenho saudades
De saudades já não ter "

Ana Couceiro Feio in "Poiesis - Volume I"

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

" Vincent tinha o sonho de pintar uma livraria à noite, com uma fachada amarela e cor-de-rosa. Achava que este era verdadeiramente um «tema moderno» porque os livros eram «uma tão rica fonte de luz para a imaginação.» Este quadro podia ser exposto como painel central de um tríptico, um retábulo moderno, entre uma seara de trigo e um olival. A livraria representaria a época da sementeira do espírito, «como uma luz no meio da escuridão.» "

Martin Gayford in "A Casa Amarela"

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Hipocrisia

" Tu, que me seduzias
Com sorrisos;
Tu, que me animavas
Com conselhos;
Tu, que me despertavas
Com teus risos;
Tu, que me encandeavas
Como espelhos.
Tu, em quem eu
Acreditava;
Tu, em quem sentia
Lealdade;
Tu, de quem eu
Muito gostava;
Tu, em quem eu via
Só verdade.
Tudo isto, em ti, vi
Só que não via?!
Que tudo era em ti
Hipocrisia! "

José Conceição in "Poiesis - Volume VIII"

Contemplation Bookends

Contemple aqui mais detalhes !

domingo, 25 de outubro de 2009

Ser Livre


" Quero ser livre como o mar
que está aprisionado pela terra ...
Quero ter nos meus olhos a brilhar
A luz que enfeita o firmamento
Os meus olhos nasceram
para amar
as estrelas, a lua, o pôr do Sol
o mar que me serena ...
a eternidade dos tempos idos
o lento passar dos séculos
e frescura dos ventos
a sombra casta dos pinheiros
um sorriso ...
um búzio ...
simples ...
não é ?
Os meus ouvidos nasceram
para amar as belas melodias
de piano e violino
em manhãs de esperança
o canto do rouxinol
que serena a minha alma
num oceano mais vasto
que o Pacífico ...
As gaivotas e as ondas
o cantar dos arvoredos
Livre quero ser para
encontrar teu coração
e amar a Natureza generosa
deixar na alma só a rosa
de um amor eterno
que há-de sempre durar ... "

Carlos Silva in "Poiesis - Volume I"

"D' Arte, Paixão & Poesia"

" A Poesia condensa toda a vida espiritual da humanidade e, por isso, é também uma fonte de conhecimento; ela não é só evasão, fuga, liberdade criadora, lugar intemporal de todas as possibilidades, a Poesia pode e deve subverter, sublimar, exaltar, profetizar, despertar ... O poeta é um "trabalhador" da possibilidade, da diáspora, do ócio-divino, da paixão, da angústia que o atira ao Infinito, da revolta, da esperança ... O "verso certo" resulta também de muitas folhas rasgadas com palavras-dor, do Silêncio-Absoluto, do indizível, da nostalgia do Futuro e do rumo que o poeta dá à constelação de sentidos da palavra-poética que advém de um processo interno semelhante ao Mistério da Trindade. Cada poema constitui um mundo a descobrir e cada descoberta não é mais do que um meio para uma nova descoberta. Torna-se necessário cada vez mais, um satisfatório estado de insatisfação. "

Ângelo Rodrigues in "Um Bailado no Centro da Alma"

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Li "Meu Amor, Era de Noite" de Vasco Graça Moura e ...

Adorei ler este livro que, pelo seu tamanho e nível de escrita excelente, se lê muito rapidamente.
É um romance a várias vozes, sobre pessoas e o Portugal moderno, construído com subtil ironia.
Uma história fascinante e que contada sobretudo a dois tempos, retrata como acontece o amor entre duas pessoas, Constança e Mateus, que procuram, para além do amor, a cumplicidade, a amizade, o companheirismo e a partilha sem restrições.
A narrativa tem o contraponto da irmã de Constança, Eugénia, a autora, que ajuda a esclarecer alguns pontos do enredo.
Esta mulher independente, divergindo praticamente em tudo da irmã, quer seja na própria postura perante a vida, quer nos princípios que as movem, possui uma enorme aversão aos ses e aos talvez, recusando-se a utilizar nos seus livros uma paleta de cores especiais para pintar de arco-íris a vida.
De facto, deparamo-nos ao longo das páginas com uma Constança no Alentejo decidida a seguir com a sua vida em frente, porque Mateus afasta-a constantemente e com um Mateus que algures numa estrada, vai falando a Constança para o ar vazio enquanto aguarda o seu telefonema que nunca chegará.
Assistimos assim a dois seres que se amam a atirarem-se permanentemente para a escuridão da dor, sob lamentos e mais lamentos e revivendo o passado como se isso fosse justificação.
Por favor, e contra mim não posso falar, mas há que tomar decisões e 'arcar' com as consequências, uma vez que a vida não aguarda parada.

( 39º livro lido em 2009 ... 9386 páginas lidas )
" ... mesmo sem querer, ela deu-lhe a volta ao miolo. Transtornou-o. Tornou-o obsessivo, compulsivo, enervado, dramático, centrado na relação entre ambos, agarrado às mínimas circunstâncias não se sabe como, para preservar a dois não se sabe o quê, numa palpitação trespassadora vinda não se sabe de onde. A vida dele passou a ser um puro martírio. De um lado, a mulher e a filha, do outro, a Constança. De um lado, todo o peso institucional, toda a pressão da vida de família com os vários problemas graves que nela havia, do outro, o impulso libertador de uma intensidade que ele nunca tinha vivido até ali, nem tinha querido viver, cuja dimensão lhe escapava ou talvez até o aterrorizasse. Estes cerebrais, quando são apanhados de surpresa, ficam sem saber o que fazer. Passou a ser com eles e estavam à espera de tudo menos disso. "

Vasco Graça Moura in "Meu Amor, Era de Noite"

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

"A Cor dos Sons"

" Eu vejo a cor dos sons ...
a cor negra
duma trovoada

as cores do arco-íris
duma sinfonia

a cor vermelha
duma rajada

a cor branca
duma liturgia ...

cor de rosa
na risada dum bebé chorão
azul
nos lábios duma oração
castanho
no tombar dum caixão ...

Eu vejo a cor dos sons
cada qual com os seus tons

Carvalho Marques in "Poiesis - Volume I"

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"Quando se atravessa o Alentejo de automóvel, a paisagem tem uma qualidade quase musical, nas suas linhas que vão ondulando como curvas melódicas distendidas, sucedendo-se, sobrepondo-se e desdobrando-se ao sabor da velocidade.
Se calha o ar estar transparente e luminoso, como em certos dias de Primavera, e ainda com a intermitência de umas chuvadas, as cores vêm acentuar essa impressão, com os verdes a variarem do cinzento grave das oliveiras ao esmeralda reluzente dos campos, o violeta incrivelmente intenso de certas manchas rasas em forte contraponto com o amarelo-vivo de outras, as escuras extensões húmidas da terra já lavrada, os declives pouco acentuados que se espraiam em tons de camurça fina, as primeiras papoilas a bordarem as bermas da estrada.
Estas harmonias são de uma grande versatibilidade: ora se avista um chaparro altivamente isolado a recortar-se contra um horizonte sem fim, ora um conjunto desgarrado de árvores que parecem ter para ali crescido ao deus-dará, ora, num e noutro cabeço, se reconhece a marca da mão humana na disciplina geométrica dos olivais, em fieiras paralelas que realçam a curvatura dos outeiros, com grande semibreves esféricas sucedendo-se numa pauta abaulada."

Vasco Graça Moura in "Meu Amor, Era de Noite"

sábado, 10 de outubro de 2009

Herta Müller ... a escritora que 'pinta os desprotegidos'

"A vencedora do prémio Nobel da Literatura - anunciada dia 08 de Outubro pela Academia Sueca - é alemã, cresceu na Roménia, escreve sobre as dificuldades de viver sob o comunismo e esteve impedida de publicar pelo ditador Ceaucescu.

Herta Müller, autora praticamente desconhecida em Portugal, vê reconhecida aos 56 anos uma carreira nas letras quase totalmente dedicada à denúncia das atrocidades do comunismo.

A 12ª mulher a receber o Nobel da Literatura publicou ensaios, contos e vários romances."

Ler mais aqui !

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Chuva na Calçada

" Bate a chuva, leve e triste na calçada
Fria e liquidamente gélida,
Contínua e persistente
Assim é a minha vida
Impregnada dessa triste melancolia. "

Maria Aurora Ruano in "Poiesis - Volume I"

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

No Chiado

"Dois poetas lado a lado
Se encontram nesta Lisboa
Um deles é o Chiado
Outro o Fernando Pessoa

O Chiado está sentado
Num banquinho de madeira
O Pessoa mais requintado
Já se senta numa cadeira

O Chiado usa boinico
E tem a cabeça ao léu
O Pessoa é mais rico
Por isso usa chapéu

O Chiado com certeza
Está só, de noite e de dia
Mas o Pessoa junto à mesa
Espera por uma companhia

Tão atractivo que até
Não há ninguém que não queira
Tomar com ele um café
Servido pela Brasileira"

Manuel Antunes Marques in "Poiesis - Volume I"

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Oscilando

" Não sei
Se sou da terra
Se do mar ...
De tal modo oscilando
Permaneço,
Que se num dia
Me sinto búzio ou concha
Sabendo a sal
Cheirando a maresia,
Noutro qualquer
Me reconheço
Como muguet ou malmequer,
Envolta na mais pura fantasia ! "

Maria José Norte in "Olhar Ver Sentir"

sábado, 19 de setembro de 2009

De livro debaixo do braço

" Ler por aí é um site de sugestões de leitura que convida os amantes de literatura a explorarem percursos e lugares onde têm lugar a acção dos seus livros preferidos. Mensalmente propõem uma leitura e um convite aos interessados para se juntarem em percursos literários organizados pelos mentores do site e explorarem a história dos lugares onde as acções e as personagens literárias evoluem. Setembro é a vez de O último cabalista de Lisboa, de Richard Zimler e de um percurso com início no Largo do Chafariz de Dentro, em Alfama, terminando no Rossio, refazendo os passos de Berequias Zarco, o personagem do livro, e descobrindo a presença de símbolos hebraicos nas ruas da cidade. "

26 de Setembro, às 15h # 96 4095445

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Recusa do Mar

" Tenho no mar a força que me vem
Das entranhas, me anima a existência,
Me tonifica os dons da inteligência,
Me faz do sonho extático refém.

Oiço na voz do mar a voz do Além
Num apelo constante à minha essência;
De mim por ela tomo consciência
E da luta que travo com ninguém.

Sinto no mar, na sua imensidade,
A dimensão da minha eternidade
Que viso com empenho edificar ...

Mas a procura que não chega ao fim,
Que persisto fazer atrás de mim,
Essa resposta não ma deu o mar. "

Pinho Neno in "À Procura de Mim"

domingo, 30 de agosto de 2009



" - Sabe o que têm de melhor os corações despedaçados ? - perguntou a bibliotecária.
Fiz-lhe um sinal negativo.
- Só se podem despedaçar uma vez. Tudo o resto são arranhões. "

Carlos Ruiz Zafón in "O Jogo do Anjo"

sexta-feira, 28 de agosto de 2009



" Tudo o que precisamos de saber está escrito no grande livro da natureza. Basta ter a coragem e a clareza de espírito de o ler - admitiu Corelli. "

Carlos Ruiz Zafón in "O Jogo do Anjo"

domingo, 23 de agosto de 2009

" - ... há muitas pessoas que têm talento e vontade, e muitas delas nunca chegam a lado nenhum. Esse é apenas o princípio para se fazer alguma coisa na vida. O talento natural é como a força de um atleta. Pode-se nascer com mais ou menos faculdades, mas ninguém consegue ser um atleta simplesmente por ter nascido alto ou forte ou rápido. O que faz um atleta, ou um artista, é o trabalho, o ofício e a técnica. A inteligência com que se nasce é simplesmente a munição. Para se chegar a fazer alguma coisa com ela é necessário transformarmos a nossa mente numa arma de precisão.

- A que propósito vem a comparação bélica ?

- Toda a obra de arte é agressiva, Isabella. E toda a vida de artista é uma pequena ou uma grande guerra, a começar pelo próprio e pelas suas limitações. Para chegar a alguma coisa que te proponhas é preciso primeiro a ambição e depois o talento, o conhecimento e, por fim, a oportunidade. "

Carlos Ruiz Zafón in "O Jogo do Anjo"

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Li "Os Passageiros da Noite" de Haruki Murakami e ...

Uma vez mais, adorei este livro de Haruki Murakami, cuja escrita viciante prende-nos incondicionalmente ao percurso de um conjunto de personagens que se vão conhecendo ao longo da madrugada e que, apesar de inicialmente pouco ou nada terem a ver umas com as outras, acabam por partilhar um acontecimento comum.
Mari. A protagonista. Eri. A irmã. Uma cidade-polvo. Tóquio. A noite. Os gatos. A música. O jazz. A mulher que dorme há dois meses. A noção de que o chão sol que todos pisamos pode desaparecer a qualquer momento. A melancolia de algo que se perdeu porque nunca se chegou a encontrar. O silêncio da noite ...
E é precisamente a simbiose entre os nossos dias e as nossas noites que nos faz sentir um pouco mais humanos, mais reais, porque no fundo todos somos passageiros ... de uma ou outra realidade ! ;)

( 34º livro lido em 2009 ... 8247 páginas lidas )
" - Sabes, não podemos traçar uma linha para dividir as nossas vidas e dizer que aqui é a luz e aqui é a sombra. Existe uma zona de sombras no meio, marcada pela semiobscuridade. Faz parte da inteligência saudável reconhecer esses matizes, compreendê-los. E adquirir esse inteligente conhecimento das coisas, implica tempo e esforço. "

Haruki Murakami in "Os Passageiros da Noite"

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Li "Madame Bovary" de Gustave Flaubert e ...

Considerado o auge da narrativa longa do Séc. XIX, Madame Bovary é um dos mais belos e elaborados romances escritos durante a História da Humanidade.

Escrita por Gustave Flaubert, a narração parte de uma experiência do escritor, médico de profissão, que estando em Ruão, perto de Paris, toma conhecimento do suicídio de uma jovem senhora, que depois de ter levado o marido à ruína suicida-se. O autor, reconhecido como um mestre do Realismo, esteve durante 8 anos pesquisando a vida daquela personalidade e como requer o romance realista, em posse de dados muito próximos da realidade, escreve então o livro.

Madame Bovary provocou um processo judicial por "obra execrável sob o ponto de vista moral", por tratar-se de traição feminina no casamento. O processo culminou com a absolvição do escritor em Fevereiro de 1857.

Ao longo das páginas são brilhantemente descritas a mente, sentimentos e aflições de Emma Bovary, personagem que percorre um caminho de euforia, ilusão e tragédia. Mulher sonhadora, pequeno burguesa criada no campo onde aprendeu a viver de acordo com seus sonhos e emoções. Bem educada e bela, casa-se com o bondoso mas entediante médico Charles Bovary e mesmo após a maternidade, não consegue ver sentido na sua vida. Sufocada por um ambiente social altamente mesquinho, é traída pelas suas esperanças e expectativas e não consegue resignar-se às convenções sociais.
Assim, e na tentativa de conseguir paixão para a sua pequena existência, comete sucessivos erros afundando-se cada vez mais em mentiras e angústias.

Deparei-me com o painel de uma sociedade doente e sem rumo, onde a crise moral estabelecida gera a insatisfação do indivíduo que busca um sentido para a futilidade da vida.
Faz-me pensar sobre até que ponto as regras pelas quais nos pautamos socialmente podem constranger-nos ...

( 33º livro lido em 2009 ... 7973 páginas lidas )
" - O dever ! Caramba ! O dever é sentir aquilo que é grande, amar o que é belo e não aceitar todas as convenções da sociedade, com as ignomínias que ela nos impõe.

- No entanto ... , no entanto ... - objectava a Srª Bovary.

- Oh, não ! Porque se há-de declamar contra as paixões ? Não são elas a única coisa bela que existe na terra, a fonte do heroísmo, do entusiasmo, da poesia, da música, das artes, enfim, de tudo ?

- Mas é necessário - disse Emma - seguir um pouco a opinião da sociedade e obedecer à sua moral.

- Ah !, mas é que existem duas - replicou ele. - A mesquinha, a convencional, a dos homens, a que varia constantemente e berra tão alto que se agita no chão, terra a terra, como esta assembleia de imbecis que está a ver. Mas a outra, a eterna, essa circunda tudo e está acima de tudo, como a paisagem que nos rodeia e o céu que nos ilumina. "

Gustave Flaubert in "Madame Bovary"
" - Tenho uma religião, a minha religião, e até tenho mais que todos eles com as suas momices e imposturas ! Pelo contrário, creio em Deus ! Creio no ser supremo, num Criador, seja ele quem for, pouco importa, que nos pôs neste mundo para cumprir os nossos deveres de cidadãos e chefes de família; mas não tenho necessidade de ir a uma igreja beijar salvas de prata e engordar à minha custa uma cambada de farsantes que vivem melhor do que nós ! Posso honrar a Deus da mesma maneira num bosque, num campo, ou até contemplando a abóbada etérea, como os antigos. O meu Deus é o mesmo de Sócrates, de Franklin, de Voltaire e de Béranger ! Eu sou pela profissão de fé do vigário saboiano e pelos princípios imortais de 89 ! Por isso não admito que Deus seja assim um sujeito que ande a passear no seu jardim de bengala na mão, instale os seus amigos no ventre das baleias, morra soltando um grito e ressuscite ao cabo de três dias: coisas absurdas por si mesmas e completamente opostas, além disso, a todas as leis da física; diga-se de passagem que tudo isso prova que os padres estagnaram sempre numa torpe ignorância, onde se esforçam por atolar também as populações. "

Gustave Flaubert in "Madame Bovary"

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

" Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim do dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente lhe sobreviverá. Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço. "

Carlos Ruiz Zafón in "O Jogo do Anjo"

sábado, 8 de agosto de 2009

Li "O Triunfo dos Porcos" de George Orwell e ...

« Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros. »

Recorrendo à sua característica marca pessoal de mordacidade e perspicácia, George Orwell apresenta-nos uma genial fábula política na qual são apresentados todos os perigos dos regimes totalitários, através de uma alegoria bastante original: um grupo de animais, liderado pelos porcos, revolta-se numa quinta governada pelos humanos e, tomando as rédeas do poder, funda o Animalismo. Esta corrente ideológica que, seguindo o exemplo de tantas outras, começa como uma grande ideia cheia de nobres valores e intenções, acaba por servir como meio de favorecer os mais fortes, violando todos os princípios a que se tinha proposto.

Através deste romance alegórico, o escritor pretende não só demonstrar como o idealismo foi traído pelo desejo de poder e pela corrupção e mentira, mas também condenar o totalitarismo, a Revolução Russa de 1917 e a Rússia de Estaline.

Adorei este livro e considero-o de leitura obrigatória para a percepção das características humanas que contaminam todo e qualquer processo de acção colectiva baseada na inveja e no apreço pelo controlo, alicerçado nos 'seres inferiores'.

Efectivamente, uma das perguntas que se impõe no final da obra e que faz-nos reflectir é ... Haverá algum projecto de sociedade que não tenda para a concentração de poderes ?

( 32º livro lido em 2009 ... 7651 páginas lidas )

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Li "O Fio das Missangas" de Mia Couto ...

Nas histórias curtas reunidas neste volume, o prosador e poeta Mia Couto caminham lado a lado.
Cada um dos 29 contos aqui agrupados, pela intensidade, condensação narrativa e lirismo que os pontuam, funcionam, individualmente, como uma jóia rara.
A brevidade das intrigas, às vezes quase sem história, ficando-se pela contemplação de situações, personagens ou simples estados de espírito, repletas de implícitos e de não-ditos, um pouco à maneira da poesia, alia-se a uma linguagem surpreendentemente simples mas eximiamente trabalhada, plena de alusões metafóricas muito fortes.
Os enredos de desamor, de desencontros, de incompreensões, de vidas incompletas, de sonhos não realizados, da passagem do tempo são, afinal, as histórias de sempre da Humanidade, contas de um colar intemporal cujo artífice é, afinal, o narrador.


( 29º livro lido em 2009 ... 6927 páginas lidas )
" De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem ?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei ?

( Versos do menino que fazia versos ) "

Mia Couto in "O Fio das Missangas"

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Li "Barroco Tropical" de José Eduardo Agualusa e ...

Sinopse
" Uma mulher cai do céu durante uma tempestade tropical. As únicas testemunhas do acontecimento são Bartolomeu Falcato, escritor e cineasta, e a sua amante, Kianda, cantora com uma carreira internacional de grande sucesso. Bartolomeu esforça-se por desvendar o mistério enquanto ao seu redor tudo parece ruir. Depressa compreende que ele será a próxima vítima. Um traficante de armas em busca do poder total, um curandeiro ambicioso, um antigo terrorista das Brigadas Vermelhas, um ex-sapador cego, que esconde a ausência de rosto atrás de uma máscara do Rato Mickey, um jovem pintor autista, um anjo negro (ou a sua sombra) e dezenas de outros personagens cruzam-se com Bartolomeu, entre um crepúsculo e o seguinte, nas ruas de uma cidade em convulsão: Luanda, 2020. "


Ao longo de quase 350 páginas, e sempre com um tom de denúncia a espreitar por entre elas, Agualusa conta-nos várias histórias: sobre etnias e problemas étnicos ... ancestralidade ... África profunda ... o maravilhoso ... personagens absurdas ... esoterismo ... surrealismo !
Tal como nos livros anteriores, assistimos a uma mistura assombrosa entre ironia, realidade e lendas, em que tão depressa temos momentos de brilhante humor, como episódios verdadeiramente viscerais.

Assumidamente com pretensões a ser uma distopia, um olhar sobre o futuro, uma chamada de atenção para determinadas dinâmicas, a acção do romance decorre em 2020, o que permite ao autor traçar um retrato negro decalcado da actual sociedade angolana.
O facto de Luanda estar à frente do nosso tempo e continuar muito semelhante ao que dela julgamos saber hoje, denuncia a pouca fé do escritor no futuro, mostrando-nos uma cidade anárquica, selvaticamente civilizada, contraditória, corrupta, enorme foz onde desaguam sonho e desespero.

Todavia, se o quadro é sombrio, a escrita humorada e luminosa faz com que o livro se leia num ápice.
Gostei da exuberância desta obra que talvez por conter tão justamente a medida da vida parece ser maior do que ela.

( 27º livro lido em 2009 ... 6621 páginas lidas )
" ... as mulheres estão presas às estrelas por fios invisíveis ... A lua atrai as marés e faz com que as plantas se abram em flor. Essa mesma energia atravessa as mulheres. Harmonizadas com os astros, ainda que não o saibam, todas as mulheres têm vocação para o infinito. Os homens, pelo contrário, estão soltos no universo como gravetos num rio. Só as mulheres podem salvar os homens de se perderem no caos ... "

José Eduardo Agualusa in "Barroco Tropical"

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Li "Sinto Muito" de Nuno Lobo Antunes e ...

Sinopse

«Há no médico o desejo de ser santo, de ser maior. Mas na sua memória transporta,como um fardo, olhares, sons, cheiros e tudo o que o lembra de ser menor e imperfeito. Este é um livro de confissões. Uma peregrinação interior em que a bailarina torce o pé, o saltador derruba a barra, o arquitecto se senta debaixo da abóbada, e no fim, ela desaba. O médico e o seu doente são um só, face dupla da mesma moeda. O médico provoca o Criador, não lhe vai na finta, evita o engodo. Mas no cais despede-se, e pede perdão por não ter sido parceiro para tal desafio.»

Recorrendo a uma escrita simples, intimista e pouco cerebral, Nuno Lobo Antunes leva-nos a viajar pelo interior do coração de um médico que sofre a dor com os seus pacientes.
Fruto da sua especialidade clínica ( neuro - oncologia pediátrica ), os temas tratados neste livro são tudo menos agradáveis - crianças e doenças terminais são, por natureza, quase incompatíveis, mas o autor consegue sempre extrair destas terríveis histórias de vida e morte um ensinamento ou uma reflexão que permite ao leitor encarar a tragédia com outros olhos.
Os textos desta obra, que remetem tantas vezes para a morte e que revelam uma combinação perfeita de objectividade clínica com sensibilidade artística, fazem-nos pensar no valor incalculável da vida, na sorte que temos de estar aqui e agora ...

( 26º livro lido em 2009 ... 6279 páginas lidas )
" Foi bonita a cerimónia. Estavas dentro de uma caixa azul. Mais pequena do que o costume. Azul, presumo, porque era a cor dos teus olhos e a cor do mar. O teu pai - imagina - durante a noite pintara no teu caixão os golfinhos de que tanto gostavas. Saltavam felizes os bichos. A teu lado rompiam ondas, e sorriam, só para ti, aquele sorriso enigmático de Gioconda. Percebi então que eras sereia, que o mar e o Céu são o mesmo, e que estavas feliz. Chorei tanto, Jennifer, tanto. ( ... ) "

Nuno Lobo Antunes in "Sinto Muito"