terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Li "Nenhum Olhar" e ...

Este romance, que recebeu o prémio literário José Saramago em 2001, descreve um universo no qual a paisagem rural alentejana literalmente desenha o destino dos personagens. É uma paisagem romanesca, elementar, mínima, constituída pela planície horizontal, o céu, o sol e as estrelas.

Tendo como pano de fundo uma severa pobreza, o autor vai construindo histórias de homens e mulheres, endurecidos pela fome e pelo trabalho, de amor, ciúme e violência.

O livro está dividido em duas grandes partes, e, mais do que por páginas, por 30 anos que acompanham a trajectória de um pequeno grupo de pessoas, sendo que algumas delas, como a cozinheira ou o velho Gabriel, estabelecem a ligação entre essas partes.
Ao longo das páginas encontramos um mundo à parte, um mundo íntimo da essência rural do povo português, ainda preso às suas crenças.
Deparamo-nos também com um universo imaginário, no qual habitam elementos fantásticos de que são exemplos o diabo, o gigante ou a cozinheira escultora de comida.

Apesar de episódios terrivelmente marcantes, profundamente dolorosos, dor essa que cobre o livro de ponta a ponta, gostei bastante da sua leitura pelas mais variadas razões: uma história e um mundo brilhantemente construídos; constantes mudanças do ponto de vista narrativo; ritmo de leitura que, apesar de não ter uma adaptação fácil, prende-nos do princípio ao fim; qualidade da escrita e, finalmente, pela profundidade subtil que José Luís Peixoto soube dar às suas personagens.

"Nenhum olhar" de José Luís Peixoto ( 3º livro lido em 2009 ... 888 páginas lidas )

6 comentários:

Menphis disse...

A escrita de José Luís Peixoto é dura mas maravilhosa. É uma verdadeira "tristeza luminosa" .

Butterfly disse...

Menphis, gosto bastante da escrita de José Luís Peixoto !
Ainda me lembro do primeiro livro que li dele, "Morreste-me" !
Espectacular, mas ainda mais, "Cemitério de Pianos" ! ;)

Bjinhos

Paula disse...

Costumo dizer que José Luis Peixoto escreve, como quem escreve um poema. Se bem que ele também é poeta.
Há um poema, em particular, que gosto:

"na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco." in A Criança em Ruínas

Butterfly disse...

Paula, simplesmente lindo ... adorei !
Ainda não li "A Criança em Ruínas" ... obrigada por teres partilhado este poema tão bonito ! ;)

Bjinhos

Pedro disse...

Hei-de ler ainda "Cemitério de Pianos"!

Butterfly disse...

Pedro, acho que vais gostar bastante ! ;)