sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

" ... o que eu acho é isto: o escritor é primeiro um investigador da existência.
Um dia, uma pessoa, um lugar, uma história, atravessam-se na sua vida. Assumem a forma de um indício banal: a curva de um pulso, uma mulher a chorar no trânsito, um livro numa montra, uma peça de roupa ou apenas a sua cor, pesadelos, fantasias, a pele, a sua pele, engelhada e gasta.
Como um detective, recolhe provas, segue os potenciais implicados, constrói-lhes vidas, desenha motivos, coloca-lhes nas mãos armas dos mais variados tipos: um volante, a indiferença, um piano, o desejo, a curiosidade, um nome, uma ausência, a pena. Teria sido isto ou aquilo ? Premeditado ou arrebatado ?
Depois, deve apresentar o seu caso perante um tribunal soberano. ( Isto eu diria com um gesto amplo de braço, transformando a minha audiência desde logo em júri. )
Escreve.
Os seus leitores julgam o que lhes apresenta. E decidem. "

Luís Soares in "Em Silêncio, Amor"

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