terça-feira, 16 de junho de 2009

" Para outras cidades recorre a descrições transmitidas de boca em boca, ou experimenta adivinhar baseando-se em escassos indícios: assim Granada, irisada pérola dos Califas, Lubeque belo porto boreal, Timbuctu negra de ébano e branca de marfim, Paris onde milhões de homens vão para casa todos os dias empunhando um cacete de pão. Em miniaturas coloridas o atlas apresenta lugares habitados de forma insólita: um oásis escondido numa prega do deserto de que apenas sobressaem as copas das palmeiras é de certeza Nefta; um castelo no meio das areias movediças e das vacas que roem prados salgados pelas marés não pode deixar de recordar o Monte Saint-Michel; e só pode ser Urbino um palácio que em vez de surgir dentro das muralhas de uma cidade contém uma cidade dentro das suas muralhas.
O atlas também apresenta cidades de que nem Marco nem os geógrafos sabem se existem e onde ficam, mas que não podiam faltar entre as formas de cidades possíveis: uma Cuzco de planta radiada e multipartida que reflecte a ordem perfeita das permutas, uma Cidade do México verdejante sob o lago dominado pelo palácio de Moctezuma, uma Novgorod com as cúpulas em bolbo, ou uma Lhassa que ergue os brancos telhados acima do tecto nebuloso do mundo. "

Italo Calvino in "As Cidades Invisíveis"

2 comentários:

Nelida Capela disse...

Paula: Adoro Calvino. Posso publicar vosso comentário em Lector in Fabula?

Butterfly disse...

Olá Nelida !

"As Cidades Invisíveis" foi o primeiro livro que li de Italo Calvino e adorei !

Claro que podes publicar o meu comentário no teu Blog ! ;)

Bjinhos