sábado, 25 de julho de 2009

Li " Danças & Contradanças " e ...

Em " Danças & Contradanças " Joanne Harris conduz-nos numa valsa graciosa ao longo de 22 narrativas caracterizadas pela brevidade e condensação das intrigas e, principalmente, pelo carácter surpreendente dos temas escolhidos, muitas vezes ligados ao insólito e contendo inúmeros elementos inesperados, como por exemplo o Santo Graal da literatura, a última história do mundo em "Falso ouro" ou um aviário de pássaros mágicos em "Chá com pássaros".
É, pois, possível surpreender nestes textos uma preferência da autora por assuntos claramente marginais, conotados quer com o fantástico, quer com o maravilhoso, às vezes mesmo próximos do universo da ficção científica, a par de contos que tratam de questões ligadas aos afectos e à necessidade de felicidade da personalidade humana.

A temática mais ou menos fantástica surpreendeu-me em "O Curso de 1981", no qual durante um encontro gastronómico entre bruxas suburbanas deliciei-me com a existência de alimentos que alteram o estado das almas: a massa de trigo possui um yin excessivo que pode obscurecer a aura; a salada especial de vegetais e o seu efeito neutro sobre o karma ( as raízes, de um modo geral, são demasiado yang e os rabanetes têm alma ) ou até mesmo pizzas vegetarianas, que, embora potencialmente perigosas ( os hidratos de carbono desequilibram os chakras ), pelo menos têm a vantagem de serem saudáveis em termos de karma.

Também surgem ironias e críticas mordazes à sociedade contemporânea, aos costumes e comportamentos actuais de uma classe média alta em busca de fama e visibilidade mediática. Neste caso concreto, as mulheres são o alvo preferencial das censuras da escritora, tratadas como personagens tipificadas pela preocupação absurda e excessiva com o aspecto, a beleza, o sucesso, as roupas das marcas da moda e respectivos acessórios. Enfim, o retrato de uma sociedade fútil que vive de aparências e de ostentação, como a retratada em "Qualquer miúda pode ser uma Miúda-Bombom" ou "Um lugar ao sol", no qual deparamo-nos com praias no Brasil onde os banhistas são seleccionados de acordo com a idade e o aspecto e de onde os velhos, os feios e os gordos são banidos.

Do ponto de vista narrativo, observa-se uma preferência da autora por narrativas abertas, em que o final é um lugar de dúvida, de levantamento de hipóteses e possibilidades.

Sempre sagaz, Joanne Harris primou por um registo solto e descontraído, mas nem por isso ausente de emoção ou densidade.
Criou um livro de dicotomias em que o verso caminha de mãos dadas com o reverso; o imaginário com o real; o bem com o mal; o belo com o disforme; o vício com a virtude; o fascinante com o inquietante ...

( 24º livro lido em 2009 ... 5878 páginas lidas )

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