terça-feira, 28 de julho de 2009


" Os meus repastos começaram por ser primitivos, orgíacos, desinformados - uma dose de Faulkner era para mim o mesmo que uma dose de Flaubert -, mas depressa detectei diferenças subtis. Primeiro reparei que cada livro tem o seu sabor - doce, amargo, agridoce, rançoso, salgado, picante. Notei ainda que cada sabor - e, com o passar do tempo, o sabor de cada página - trazia consigo uma quantidade de imagens, representações mentais de coisas sobre as quais eu nada sabia devido à pouca experiência que tinha do chamado mundo real: arranha-céus, portos, cavalos, canibais, uma árvore em flor, uma cama por fazer, uma mulher afogada, um rapaz voador, uma cabeça cortada, camponeses a olhar para um idiota a uivar, o apito de um comboio, um rio, uma barca, o sol filtrado por uma floresta de bétulas, uma mão acariciando uma coxa nua, uma cabana na selva, um monge moribundo. "

Sam Savage in "Firmin"

1 comentário:

Paula disse...

Adorei este livro. Qualquer dia tenho de o reler.
Abraços!