quinta-feira, 20 de agosto de 2009

" - Tenho uma religião, a minha religião, e até tenho mais que todos eles com as suas momices e imposturas ! Pelo contrário, creio em Deus ! Creio no ser supremo, num Criador, seja ele quem for, pouco importa, que nos pôs neste mundo para cumprir os nossos deveres de cidadãos e chefes de família; mas não tenho necessidade de ir a uma igreja beijar salvas de prata e engordar à minha custa uma cambada de farsantes que vivem melhor do que nós ! Posso honrar a Deus da mesma maneira num bosque, num campo, ou até contemplando a abóbada etérea, como os antigos. O meu Deus é o mesmo de Sócrates, de Franklin, de Voltaire e de Béranger ! Eu sou pela profissão de fé do vigário saboiano e pelos princípios imortais de 89 ! Por isso não admito que Deus seja assim um sujeito que ande a passear no seu jardim de bengala na mão, instale os seus amigos no ventre das baleias, morra soltando um grito e ressuscite ao cabo de três dias: coisas absurdas por si mesmas e completamente opostas, além disso, a todas as leis da física; diga-se de passagem que tudo isso prova que os padres estagnaram sempre numa torpe ignorância, onde se esforçam por atolar também as populações. "

Gustave Flaubert in "Madame Bovary"