segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"Quando se atravessa o Alentejo de automóvel, a paisagem tem uma qualidade quase musical, nas suas linhas que vão ondulando como curvas melódicas distendidas, sucedendo-se, sobrepondo-se e desdobrando-se ao sabor da velocidade.
Se calha o ar estar transparente e luminoso, como em certos dias de Primavera, e ainda com a intermitência de umas chuvadas, as cores vêm acentuar essa impressão, com os verdes a variarem do cinzento grave das oliveiras ao esmeralda reluzente dos campos, o violeta incrivelmente intenso de certas manchas rasas em forte contraponto com o amarelo-vivo de outras, as escuras extensões húmidas da terra já lavrada, os declives pouco acentuados que se espraiam em tons de camurça fina, as primeiras papoilas a bordarem as bermas da estrada.
Estas harmonias são de uma grande versatibilidade: ora se avista um chaparro altivamente isolado a recortar-se contra um horizonte sem fim, ora um conjunto desgarrado de árvores que parecem ter para ali crescido ao deus-dará, ora, num e noutro cabeço, se reconhece a marca da mão humana na disciplina geométrica dos olivais, em fieiras paralelas que realçam a curvatura dos outeiros, com grande semibreves esféricas sucedendo-se numa pauta abaulada."

Vasco Graça Moura in "Meu Amor, Era de Noite"

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