sexta-feira, 20 de novembro de 2009

" Então, bebamos uma chávena de chá.
Como Kakuzo Okakura, o autor de O Livro do Chá, que ficava desolado com a revolta das tribos mongóis no século XIII não por ter trazido morte e destruição mas por ter destruído o fruto mais precioso da cultura Song, a arte do chá, sei que não se trata de uma beberagem menor. Quando passa a ser um ritual, é o cerne da aptidão para vermos a grandeza nas pequenas coisas. Onde está a beleza ? Nas grandes coisas que, tal como as outras, estão condenadas a morrer, ou nas pequenas que, sem nada pretenderem, sabem incrustar no momento uma gema de infinito ?
O ritual do chá, essa recondução precisa dos mesmos gestos e da mesma degustação, esse acesso a sensações simples, autênticas e requintadas, essa liberdade que é dada a cada pessoa para se converter, por pouco dinheiro, num aristocrata do gosto porque o chá tanto é bebida dos ricos como dos pobres, portanto, o ritual do chá tem a virtude extraordinária de introduzir no absurdo das nossas vidas uma brecha de serena harmonia. Sim, o universo conspira para a futilidade, as almas perdidas choram pela beleza, estamos rodeados de insignificância. Então, bebamos uma chávena de chá. Faz-se silêncio, ouve-se o vento soprando lá fora, as folhas de Outono farfalham e levantam voo, o gato dorme a uma luz quente. E, em cada gole, sublima-se o tempo. "

Muriel Barbery in "A elegância do Ouriço"

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