domingo, 30 de agosto de 2009



" - Sabe o que têm de melhor os corações despedaçados ? - perguntou a bibliotecária.
Fiz-lhe um sinal negativo.
- Só se podem despedaçar uma vez. Tudo o resto são arranhões. "

Carlos Ruiz Zafón in "O Jogo do Anjo"

sexta-feira, 28 de agosto de 2009



" Tudo o que precisamos de saber está escrito no grande livro da natureza. Basta ter a coragem e a clareza de espírito de o ler - admitiu Corelli. "

Carlos Ruiz Zafón in "O Jogo do Anjo"

domingo, 23 de agosto de 2009

" - ... há muitas pessoas que têm talento e vontade, e muitas delas nunca chegam a lado nenhum. Esse é apenas o princípio para se fazer alguma coisa na vida. O talento natural é como a força de um atleta. Pode-se nascer com mais ou menos faculdades, mas ninguém consegue ser um atleta simplesmente por ter nascido alto ou forte ou rápido. O que faz um atleta, ou um artista, é o trabalho, o ofício e a técnica. A inteligência com que se nasce é simplesmente a munição. Para se chegar a fazer alguma coisa com ela é necessário transformarmos a nossa mente numa arma de precisão.

- A que propósito vem a comparação bélica ?

- Toda a obra de arte é agressiva, Isabella. E toda a vida de artista é uma pequena ou uma grande guerra, a começar pelo próprio e pelas suas limitações. Para chegar a alguma coisa que te proponhas é preciso primeiro a ambição e depois o talento, o conhecimento e, por fim, a oportunidade. "

Carlos Ruiz Zafón in "O Jogo do Anjo"

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Li "Os Passageiros da Noite" de Haruki Murakami e ...

Uma vez mais, adorei este livro de Haruki Murakami, cuja escrita viciante prende-nos incondicionalmente ao percurso de um conjunto de personagens que se vão conhecendo ao longo da madrugada e que, apesar de inicialmente pouco ou nada terem a ver umas com as outras, acabam por partilhar um acontecimento comum.
Mari. A protagonista. Eri. A irmã. Uma cidade-polvo. Tóquio. A noite. Os gatos. A música. O jazz. A mulher que dorme há dois meses. A noção de que o chão sol que todos pisamos pode desaparecer a qualquer momento. A melancolia de algo que se perdeu porque nunca se chegou a encontrar. O silêncio da noite ...
E é precisamente a simbiose entre os nossos dias e as nossas noites que nos faz sentir um pouco mais humanos, mais reais, porque no fundo todos somos passageiros ... de uma ou outra realidade ! ;)

( 34º livro lido em 2009 ... 8247 páginas lidas )
" - Sabes, não podemos traçar uma linha para dividir as nossas vidas e dizer que aqui é a luz e aqui é a sombra. Existe uma zona de sombras no meio, marcada pela semiobscuridade. Faz parte da inteligência saudável reconhecer esses matizes, compreendê-los. E adquirir esse inteligente conhecimento das coisas, implica tempo e esforço. "

Haruki Murakami in "Os Passageiros da Noite"

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Li "Madame Bovary" de Gustave Flaubert e ...

Considerado o auge da narrativa longa do Séc. XIX, Madame Bovary é um dos mais belos e elaborados romances escritos durante a História da Humanidade.

Escrita por Gustave Flaubert, a narração parte de uma experiência do escritor, médico de profissão, que estando em Ruão, perto de Paris, toma conhecimento do suicídio de uma jovem senhora, que depois de ter levado o marido à ruína suicida-se. O autor, reconhecido como um mestre do Realismo, esteve durante 8 anos pesquisando a vida daquela personalidade e como requer o romance realista, em posse de dados muito próximos da realidade, escreve então o livro.

Madame Bovary provocou um processo judicial por "obra execrável sob o ponto de vista moral", por tratar-se de traição feminina no casamento. O processo culminou com a absolvição do escritor em Fevereiro de 1857.

Ao longo das páginas são brilhantemente descritas a mente, sentimentos e aflições de Emma Bovary, personagem que percorre um caminho de euforia, ilusão e tragédia. Mulher sonhadora, pequeno burguesa criada no campo onde aprendeu a viver de acordo com seus sonhos e emoções. Bem educada e bela, casa-se com o bondoso mas entediante médico Charles Bovary e mesmo após a maternidade, não consegue ver sentido na sua vida. Sufocada por um ambiente social altamente mesquinho, é traída pelas suas esperanças e expectativas e não consegue resignar-se às convenções sociais.
Assim, e na tentativa de conseguir paixão para a sua pequena existência, comete sucessivos erros afundando-se cada vez mais em mentiras e angústias.

Deparei-me com o painel de uma sociedade doente e sem rumo, onde a crise moral estabelecida gera a insatisfação do indivíduo que busca um sentido para a futilidade da vida.
Faz-me pensar sobre até que ponto as regras pelas quais nos pautamos socialmente podem constranger-nos ...

( 33º livro lido em 2009 ... 7973 páginas lidas )
" - O dever ! Caramba ! O dever é sentir aquilo que é grande, amar o que é belo e não aceitar todas as convenções da sociedade, com as ignomínias que ela nos impõe.

- No entanto ... , no entanto ... - objectava a Srª Bovary.

- Oh, não ! Porque se há-de declamar contra as paixões ? Não são elas a única coisa bela que existe na terra, a fonte do heroísmo, do entusiasmo, da poesia, da música, das artes, enfim, de tudo ?

- Mas é necessário - disse Emma - seguir um pouco a opinião da sociedade e obedecer à sua moral.

- Ah !, mas é que existem duas - replicou ele. - A mesquinha, a convencional, a dos homens, a que varia constantemente e berra tão alto que se agita no chão, terra a terra, como esta assembleia de imbecis que está a ver. Mas a outra, a eterna, essa circunda tudo e está acima de tudo, como a paisagem que nos rodeia e o céu que nos ilumina. "

Gustave Flaubert in "Madame Bovary"
" - Tenho uma religião, a minha religião, e até tenho mais que todos eles com as suas momices e imposturas ! Pelo contrário, creio em Deus ! Creio no ser supremo, num Criador, seja ele quem for, pouco importa, que nos pôs neste mundo para cumprir os nossos deveres de cidadãos e chefes de família; mas não tenho necessidade de ir a uma igreja beijar salvas de prata e engordar à minha custa uma cambada de farsantes que vivem melhor do que nós ! Posso honrar a Deus da mesma maneira num bosque, num campo, ou até contemplando a abóbada etérea, como os antigos. O meu Deus é o mesmo de Sócrates, de Franklin, de Voltaire e de Béranger ! Eu sou pela profissão de fé do vigário saboiano e pelos princípios imortais de 89 ! Por isso não admito que Deus seja assim um sujeito que ande a passear no seu jardim de bengala na mão, instale os seus amigos no ventre das baleias, morra soltando um grito e ressuscite ao cabo de três dias: coisas absurdas por si mesmas e completamente opostas, além disso, a todas as leis da física; diga-se de passagem que tudo isso prova que os padres estagnaram sempre numa torpe ignorância, onde se esforçam por atolar também as populações. "

Gustave Flaubert in "Madame Bovary"

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

" Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim do dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente lhe sobreviverá. Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço. "

Carlos Ruiz Zafón in "O Jogo do Anjo"

sábado, 8 de agosto de 2009

Li "O Triunfo dos Porcos" de George Orwell e ...

« Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros. »

Recorrendo à sua característica marca pessoal de mordacidade e perspicácia, George Orwell apresenta-nos uma genial fábula política na qual são apresentados todos os perigos dos regimes totalitários, através de uma alegoria bastante original: um grupo de animais, liderado pelos porcos, revolta-se numa quinta governada pelos humanos e, tomando as rédeas do poder, funda o Animalismo. Esta corrente ideológica que, seguindo o exemplo de tantas outras, começa como uma grande ideia cheia de nobres valores e intenções, acaba por servir como meio de favorecer os mais fortes, violando todos os princípios a que se tinha proposto.

Através deste romance alegórico, o escritor pretende não só demonstrar como o idealismo foi traído pelo desejo de poder e pela corrupção e mentira, mas também condenar o totalitarismo, a Revolução Russa de 1917 e a Rússia de Estaline.

Adorei este livro e considero-o de leitura obrigatória para a percepção das características humanas que contaminam todo e qualquer processo de acção colectiva baseada na inveja e no apreço pelo controlo, alicerçado nos 'seres inferiores'.

Efectivamente, uma das perguntas que se impõe no final da obra e que faz-nos reflectir é ... Haverá algum projecto de sociedade que não tenda para a concentração de poderes ?

( 32º livro lido em 2009 ... 7651 páginas lidas )

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Li "O Fio das Missangas" de Mia Couto ...

Nas histórias curtas reunidas neste volume, o prosador e poeta Mia Couto caminham lado a lado.
Cada um dos 29 contos aqui agrupados, pela intensidade, condensação narrativa e lirismo que os pontuam, funcionam, individualmente, como uma jóia rara.
A brevidade das intrigas, às vezes quase sem história, ficando-se pela contemplação de situações, personagens ou simples estados de espírito, repletas de implícitos e de não-ditos, um pouco à maneira da poesia, alia-se a uma linguagem surpreendentemente simples mas eximiamente trabalhada, plena de alusões metafóricas muito fortes.
Os enredos de desamor, de desencontros, de incompreensões, de vidas incompletas, de sonhos não realizados, da passagem do tempo são, afinal, as histórias de sempre da Humanidade, contas de um colar intemporal cujo artífice é, afinal, o narrador.


( 29º livro lido em 2009 ... 6927 páginas lidas )
" De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem ?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei ?

( Versos do menino que fazia versos ) "

Mia Couto in "O Fio das Missangas"