sexta-feira, 30 de outubro de 2009

" Vincent tinha o sonho de pintar uma livraria à noite, com uma fachada amarela e cor-de-rosa. Achava que este era verdadeiramente um «tema moderno» porque os livros eram «uma tão rica fonte de luz para a imaginação.» Este quadro podia ser exposto como painel central de um tríptico, um retábulo moderno, entre uma seara de trigo e um olival. A livraria representaria a época da sementeira do espírito, «como uma luz no meio da escuridão.» "

Martin Gayford in "A Casa Amarela"

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Hipocrisia

" Tu, que me seduzias
Com sorrisos;
Tu, que me animavas
Com conselhos;
Tu, que me despertavas
Com teus risos;
Tu, que me encandeavas
Como espelhos.
Tu, em quem eu
Acreditava;
Tu, em quem sentia
Lealdade;
Tu, de quem eu
Muito gostava;
Tu, em quem eu via
Só verdade.
Tudo isto, em ti, vi
Só que não via?!
Que tudo era em ti
Hipocrisia! "

José Conceição in "Poiesis - Volume VIII"

Contemplation Bookends

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domingo, 25 de outubro de 2009

Ser Livre


" Quero ser livre como o mar
que está aprisionado pela terra ...
Quero ter nos meus olhos a brilhar
A luz que enfeita o firmamento
Os meus olhos nasceram
para amar
as estrelas, a lua, o pôr do Sol
o mar que me serena ...
a eternidade dos tempos idos
o lento passar dos séculos
e frescura dos ventos
a sombra casta dos pinheiros
um sorriso ...
um búzio ...
simples ...
não é ?
Os meus ouvidos nasceram
para amar as belas melodias
de piano e violino
em manhãs de esperança
o canto do rouxinol
que serena a minha alma
num oceano mais vasto
que o Pacífico ...
As gaivotas e as ondas
o cantar dos arvoredos
Livre quero ser para
encontrar teu coração
e amar a Natureza generosa
deixar na alma só a rosa
de um amor eterno
que há-de sempre durar ... "

Carlos Silva in "Poiesis - Volume I"

"D' Arte, Paixão & Poesia"

" A Poesia condensa toda a vida espiritual da humanidade e, por isso, é também uma fonte de conhecimento; ela não é só evasão, fuga, liberdade criadora, lugar intemporal de todas as possibilidades, a Poesia pode e deve subverter, sublimar, exaltar, profetizar, despertar ... O poeta é um "trabalhador" da possibilidade, da diáspora, do ócio-divino, da paixão, da angústia que o atira ao Infinito, da revolta, da esperança ... O "verso certo" resulta também de muitas folhas rasgadas com palavras-dor, do Silêncio-Absoluto, do indizível, da nostalgia do Futuro e do rumo que o poeta dá à constelação de sentidos da palavra-poética que advém de um processo interno semelhante ao Mistério da Trindade. Cada poema constitui um mundo a descobrir e cada descoberta não é mais do que um meio para uma nova descoberta. Torna-se necessário cada vez mais, um satisfatório estado de insatisfação. "

Ângelo Rodrigues in "Um Bailado no Centro da Alma"

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Li "Meu Amor, Era de Noite" de Vasco Graça Moura e ...

Adorei ler este livro que, pelo seu tamanho e nível de escrita excelente, se lê muito rapidamente.
É um romance a várias vozes, sobre pessoas e o Portugal moderno, construído com subtil ironia.
Uma história fascinante e que contada sobretudo a dois tempos, retrata como acontece o amor entre duas pessoas, Constança e Mateus, que procuram, para além do amor, a cumplicidade, a amizade, o companheirismo e a partilha sem restrições.
A narrativa tem o contraponto da irmã de Constança, Eugénia, a autora, que ajuda a esclarecer alguns pontos do enredo.
Esta mulher independente, divergindo praticamente em tudo da irmã, quer seja na própria postura perante a vida, quer nos princípios que as movem, possui uma enorme aversão aos ses e aos talvez, recusando-se a utilizar nos seus livros uma paleta de cores especiais para pintar de arco-íris a vida.
De facto, deparamo-nos ao longo das páginas com uma Constança no Alentejo decidida a seguir com a sua vida em frente, porque Mateus afasta-a constantemente e com um Mateus que algures numa estrada, vai falando a Constança para o ar vazio enquanto aguarda o seu telefonema que nunca chegará.
Assistimos assim a dois seres que se amam a atirarem-se permanentemente para a escuridão da dor, sob lamentos e mais lamentos e revivendo o passado como se isso fosse justificação.
Por favor, e contra mim não posso falar, mas há que tomar decisões e 'arcar' com as consequências, uma vez que a vida não aguarda parada.

( 39º livro lido em 2009 ... 9386 páginas lidas )
" ... mesmo sem querer, ela deu-lhe a volta ao miolo. Transtornou-o. Tornou-o obsessivo, compulsivo, enervado, dramático, centrado na relação entre ambos, agarrado às mínimas circunstâncias não se sabe como, para preservar a dois não se sabe o quê, numa palpitação trespassadora vinda não se sabe de onde. A vida dele passou a ser um puro martírio. De um lado, a mulher e a filha, do outro, a Constança. De um lado, todo o peso institucional, toda a pressão da vida de família com os vários problemas graves que nela havia, do outro, o impulso libertador de uma intensidade que ele nunca tinha vivido até ali, nem tinha querido viver, cuja dimensão lhe escapava ou talvez até o aterrorizasse. Estes cerebrais, quando são apanhados de surpresa, ficam sem saber o que fazer. Passou a ser com eles e estavam à espera de tudo menos disso. "

Vasco Graça Moura in "Meu Amor, Era de Noite"

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

"A Cor dos Sons"

" Eu vejo a cor dos sons ...
a cor negra
duma trovoada

as cores do arco-íris
duma sinfonia

a cor vermelha
duma rajada

a cor branca
duma liturgia ...

cor de rosa
na risada dum bebé chorão
azul
nos lábios duma oração
castanho
no tombar dum caixão ...

Eu vejo a cor dos sons
cada qual com os seus tons

Carvalho Marques in "Poiesis - Volume I"

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"Quando se atravessa o Alentejo de automóvel, a paisagem tem uma qualidade quase musical, nas suas linhas que vão ondulando como curvas melódicas distendidas, sucedendo-se, sobrepondo-se e desdobrando-se ao sabor da velocidade.
Se calha o ar estar transparente e luminoso, como em certos dias de Primavera, e ainda com a intermitência de umas chuvadas, as cores vêm acentuar essa impressão, com os verdes a variarem do cinzento grave das oliveiras ao esmeralda reluzente dos campos, o violeta incrivelmente intenso de certas manchas rasas em forte contraponto com o amarelo-vivo de outras, as escuras extensões húmidas da terra já lavrada, os declives pouco acentuados que se espraiam em tons de camurça fina, as primeiras papoilas a bordarem as bermas da estrada.
Estas harmonias são de uma grande versatibilidade: ora se avista um chaparro altivamente isolado a recortar-se contra um horizonte sem fim, ora um conjunto desgarrado de árvores que parecem ter para ali crescido ao deus-dará, ora, num e noutro cabeço, se reconhece a marca da mão humana na disciplina geométrica dos olivais, em fieiras paralelas que realçam a curvatura dos outeiros, com grande semibreves esféricas sucedendo-se numa pauta abaulada."

Vasco Graça Moura in "Meu Amor, Era de Noite"

sábado, 10 de outubro de 2009

Herta Müller ... a escritora que 'pinta os desprotegidos'

"A vencedora do prémio Nobel da Literatura - anunciada dia 08 de Outubro pela Academia Sueca - é alemã, cresceu na Roménia, escreve sobre as dificuldades de viver sob o comunismo e esteve impedida de publicar pelo ditador Ceaucescu.

Herta Müller, autora praticamente desconhecida em Portugal, vê reconhecida aos 56 anos uma carreira nas letras quase totalmente dedicada à denúncia das atrocidades do comunismo.

A 12ª mulher a receber o Nobel da Literatura publicou ensaios, contos e vários romances."

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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Chuva na Calçada

" Bate a chuva, leve e triste na calçada
Fria e liquidamente gélida,
Contínua e persistente
Assim é a minha vida
Impregnada dessa triste melancolia. "

Maria Aurora Ruano in "Poiesis - Volume I"