quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Li "A Casa Amarela" e ...

Sinopse:
" Dois gigantes, uma pequena casa...
De Outubro a Dezembro de 1888, uma dupla de artistas, na época mal conhecidos, partilhou uma casa em Arles. Paul Gauguin e Vincent van Gogh comeram, beberam, conversaram e discutiram, dormiram e pintaram numa das mais intensas e espantosas oportunidades criativas da História. Porém, à medida que as semanas passavam, Van Gogh começava a sentir a tensão, discutia com o companheiro e automutilava-se, levando Gauguin a deixar a casa sem sequer se despedir. A Casa Amarela é um retrato do tempo que passaram juntos, bem como uma abordagem inteligente da sua frágil amizade, arte, loucura, génio e das razões para o chocante acto de automutilação de Van Gogh que até hoje o mundo procura explicar. "

De uma forma bastante original somos conduzidos por Martin Gayford até uma pequena cidade solarenga de província no Sul de França, Arles.
Nesta, deparamo-nos com o sonho de um homem, mais propriamente Vincent Van Gogh, em criar uma comunidade de artistas, um círculo de pintores dispostos a partilhar ideias, cores, temas, experiências, livros e vivências.
Um dos seus 'companheiros' será precisamente Paul Gauguin, com quem compartilhará modelos e paisagens. A casa amarela tornar-se-á um pólo de comunicação artística entre dois músicos da cor até que a personalidade instável de Vincent acabará por afastar Gauguin.

E é assim que ao longo de 9 semanas e 326 páginas embrenhamo-nos numa das mais espantosas maratonas criativas da arte ocidental.Adorei esta obra biográfica, recomendando-a a todos aqueles que, tal como eu, são apaixonados por literatura e pintura ! ;)

( 44º livro lido em 2009 ... 10517 páginas lidas )
" Vincent era efectivamente romântico. Procurava um compromisso apaixonado com aquilo que pintava, fosse uma pessoa, um local ou uma coisa. Esparramava e esmagava tubos de pigmento na tela como se quisesse sentir o tacto e o cheiro do material. Gauguin, pelo contrário, preferia um «estado primitivo.» Queria a simplicidade e poesia de uma era anterior; amava Botticelli, a Grécia Antiga, a Pérsia, a Idade Média, as artes exóticas dos países quentes, e admirava os metódicos pintores clássicos - Degas, que idolatrava Ingres, que por sua vez venerava Rafael. Esta maneira fria e linear, que exprimia sensações quentes e exóticas, interessava pouco a Vincent. Tal como a disciplina, formal mas um pouco diferente, de Cézanne. Gauguin exagerava ou deturpava algumas das aversões do seu companheiro de casa: Vincent venerava Degas, mas chegava a ser severo em relação a Cézanne. "

Martin Gayford in "A Casa Amarela"

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Catarina

" Se o mar espelhasse
O azul do teu olhar
Por um instante que fosse
O mundo iria parar
Somente para o admirar
E o sol do teu cabelo
Eclipsa a estrela universal
Quase que cega, ao vê-lo
Desperta a dúvida natural
Qual é o sol afinal ?
Van Gogh, Monet, Renoir
E tantos outros pintores
Que morreram sem alcançar
A perfeição das tuas cores,
Superior a um arco-íris de flores
Por mais artistas que escolhesse
Por mais que aprimorasse a rima
Para descrever a tua beleza
A dúvida é uma lâmina fina
Como se descreve uma obra-prima ? "

Francisco K in "Poiesis - Volume VIII"

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

" Então, bebamos uma chávena de chá.
Como Kakuzo Okakura, o autor de O Livro do Chá, que ficava desolado com a revolta das tribos mongóis no século XIII não por ter trazido morte e destruição mas por ter destruído o fruto mais precioso da cultura Song, a arte do chá, sei que não se trata de uma beberagem menor. Quando passa a ser um ritual, é o cerne da aptidão para vermos a grandeza nas pequenas coisas. Onde está a beleza ? Nas grandes coisas que, tal como as outras, estão condenadas a morrer, ou nas pequenas que, sem nada pretenderem, sabem incrustar no momento uma gema de infinito ?
O ritual do chá, essa recondução precisa dos mesmos gestos e da mesma degustação, esse acesso a sensações simples, autênticas e requintadas, essa liberdade que é dada a cada pessoa para se converter, por pouco dinheiro, num aristocrata do gosto porque o chá tanto é bebida dos ricos como dos pobres, portanto, o ritual do chá tem a virtude extraordinária de introduzir no absurdo das nossas vidas uma brecha de serena harmonia. Sim, o universo conspira para a futilidade, as almas perdidas choram pela beleza, estamos rodeados de insignificância. Então, bebamos uma chávena de chá. Faz-se silêncio, ouve-se o vento soprando lá fora, as folhas de Outono farfalham e levantam voo, o gato dorme a uma luz quente. E, em cada gole, sublima-se o tempo. "

Muriel Barbery in "A elegância do Ouriço"

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Para aqueles livros especiais ...


Bastante criativa esta ideia da Iron Design Company. ;)
Desenvolvida a pensar naqueles livros que nos são tão especiais ... só é pena a largura não permitir todo o género de publicações.
Leiam aqui mais informações !

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Li "As Intermitências da Morte" e ...

Fiel ao seu estilo sarcástico e irónico, José Saramago apresenta-nos neste romance um quadro muito interessante: narra os conflitos provocados pela decisão da Morte de abandonar a sua actividade, ou seja, num país não identificado, a partir do momento em que se brinda um novo ano as pessoas pura e simplesmente não morrem.

Se a reacção inicial da população é de euforia e alegria, rapidamente transforma-se num motivo de preocupação, pelo impacto político, económico, social e até religioso da nova situação.
A ausência de mortes de um dia para o outro, sonho milenar da Humanidade, converte-se repentinamente numa dor de cabeça para governantes e cidadãos.
E é descrevendo as reacções das diversas instituições e entidades ( Igreja, Comunicação Social, Filósofos, Economistas, Hospitais, Companhias Seguradoras, Agências Funerárias, entre outras ) que o autor vai tecendo duras críticas à Sociedade Moderna.

Efectivamente, e além de fazer-nos olhar para a morte sob um prisma completamente diferente, leva-nos a reflectir sobre algumas questões importantes tais como o egoísmo, a extorsão, a falta de união e amor familiar, a corrupção, a eutanásia e até nós próprios.

Para não variar, diverti-me imenso com a leitura de mais um dos enredos impossíveis de José Saramago, tendo mesmo chegado a sentir alguma simpatia pela personalidade humana, demasiada humana da personagem Morte.
Enfim, um livro que recomendo vivamente ! ;)

( 41º livro lido em 2009 ... 9825 páginas lidas )

sábado, 7 de novembro de 2009

" Wagner via-se como um João Baptista da música; e profetizava que outros viriam depois dele e criariam as obras de arte do futuro. Vincent previa que, no futuro, um pintor faria com a cor aquilo que Wagner tinha feito com o som: misturá-la em novas e belas combinações que apaziguariam o espírito e falariam à alma: «Chegará o dia.»
A comparação entre música e pintura era mais do que uma simples analogia; muitos artistas e escritores acreditavam que ela era uma verdade profunda. Iam mesmo mais longe e acreditavam que todos os sentidos vibravam em harmonia. O poeta Baudelaire tinha escrito que «perfumes, cores e sons respondem entre si.» Huysmans, um autor que Vincent venerava, tornava mesmo extensivas aos sabores as suas sensações musicais. No seu romance À Rebours ( A Contrapelo ) tinha escrito sobre uma colecção de licores que ela era também um «órgão de boca». Cada licor «correspondia ao som de um determinado instrumento.» O curação seco, por exemplo, era como «o clarinete com o seu registo aveludado e penetrante.» "

Martin Gayford in "A Casa Amarela"

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Pedaços da Minha Vida

" Cansada de ter saudades
Fiz tudo para esquecer
Hoje, tenho saudades
De saudades já não ter

Lutei toda a minha vida
Encarei as realidades
Hoje vivo aqui sozinha
Cansada de ter saudades

Tanto amor, tanta canseira
Sofri sem nada dizer
Sacrifício ... a vida inteira
Fiz tudo para esquecer

Poucos momentos felizes
Lembro e faz-me sofrer
Hoje eu tenho saudades
De saudades já não ter "

Ana Couceiro Feio in "Poiesis - Volume I"