domingo, 26 de dezembro de 2010

"Existem dois modos distintos de ler os autores: um deles é muito bom e útil, o outro, inútil e até mesmo perigoso. É muito útil ler quando se medita sobre o que é lido; quando se procura, pelo esforço da mente, resolver as questões que os títulos dos capítulos propõem, mesmo antes de se começar a lê-los; quando se ordenam e compararam as ideias umas com as outras; em suma, quando se usa a razão. Ao contrário, é inútil ler quando não entendemos o que lemos, e perigoso ler e formar conceitos daquilo que lemos quando não examinamos suficientemente o que foi lido para julgar com cuidado, sobretudo se temos memória bastante para reter os conceitos firmados e imprudência bastante para concordar com eles. O primeiro modo de ler ilumina e fortifica a mente, aumentando o seu entendimento. O segundo diminui o entendimento e gradualmente torna-o fraco, obscuro e confuso. Acontece que a maior parte daqueles que se vangloriam de conhecer as opiniões dos outros estuda apenas do segundo modo. Quanto mais lêem, portanto, mais fracas e mais confusas se tornam as suas mentes."

Malebranche (1674)

sábado, 25 de dezembro de 2010

Uma sugestão de leitura ...

"A Serra de Sintra é um lugar mágico ...

E como todos os lugares mágicos, está repleto de histórias fantásticas !

Seres misteriosos habitam as suas profundezas, deixando correr na voz do vento o murmúrio da sua existência ...

Feitos valorosos tiveram lugar nestes montes: Os Montes da Lua !

Mouras encantadas ainda choram na escuridão dos seus bosques, esperando a vinda de belos cavaleiros para as salvarem das suas masmorras ... Dragões e Fadas protegem as suas terras, em lutas intermináveis contra Demónios das Trevas ...

Criaturas fantásticas como as Nereides, são aqui transformadas em Ninfas, para habitar o mundo mágico dos Montes da Lua e, nos contarem as suas histórias.

"Sintra Mágica" de Vera Cardoso Chumbinho

sábado, 11 de dezembro de 2010

"Os leitores podem ser divididos em três classes: o superficial, o ignorante e o erudito. Quanto a mim, adapto a minha pena com muita felicidade em prol do génio e das vantagens de cada um. O leitor superficial será curiosamente levado a gargalhar, o que limpa o peito e os pulmões, combate o mau humor e é o mais inocente dos diuréticos. O leitor ignorante ( cuja diferença do primeiro é extremamente subtil ) vai-se descobrir inclinado a olhar fixamente, o que é um remédio admirável para os olhos cansados, serve para elevar e avivar o espírito, e ajuda de maneira maravilhosa na transpiração. Mas o leitor verdadeiramente erudito, aquele para cujo benefício permaneço acordado enquanto os outros dormem, e adormeço quando eles acordam, encontrará aqui material suficiente para exercitar as suas faculdades especulativas para o resto da vida."

Jonathan Swift ( 1702 )

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

"Era uma vez um rei que, quando era príncipe, queria apenas ser poeta. Gostava das palavras, de brincar com elas, de procurar os seus sons e os seus sentidos e de fazer delas naus capazes de o transportar a lugares onde ainda ninguém conseguira chegar.

Em vez de coleccionar objectos, Dinis gostava de coleccionar palavras, de as arrumar como quem arruma as coisas belas que o coração escolheu. Uns dias usava umas, porque estava triste, noutros usava palavras diferentes, porque eram as que melhor se davam com a alegria que lhe ia na alma. Nesse tempo, muito antes de se tornar rei, se alguém lhe perguntasse o que queria ser quando chegasse à idade adulta, ele responderia: «Quero ser poeta»."

José Jorge Letria in "Era uma vez um Rei Poeta"

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Verão, Outono

"Antigamente havia em mim um nome gravado a fogo e eu
morria por ele. Eu fechava os olhos e o nome pedia-me a luz,
a manhã, a música. Antigamente eu imaginava a delicadeza,
as florestas, os bosques reduzidos ao silêncio pelos subterrâneos

da tarde, e ser tocado no rosto era ser ferido por uma imensa
beleza, pelos olhos da planície, como um animal adormecido,
como um lugar onde deitar a cabeça e adormecer sonhando
com o deserto. No deserto eu estava a salvo, caminhando nos

declives e havia palavras imensas, palavras como o trigo e o mar
e as raízes e os relâmpagos e um rosto e os campos do Outono
e isso era como ficar cego no meio da luz estremecendo entre
as poeiras, as cores da manhã, as veredas dos bosques. E eu olho

fixamente esse rosto de fogo, toco uma vez essas mãos, amo
demoradamente a distância, comovo-me perdido na sua
voz, enquanto passa no mundo uma estranha ventania."

Francisco José Viegas in "O Puro e o Impuro"

sábado, 20 de novembro de 2010

"Jung associa o inconsciente à alma, pelo que quando nos esforçamos por viver uma vida perfeitamente consciente num mundo intelectualmente previsível, resguardado de todos os mistérios e acomodado à conformidade, desperdiçamos as oportunidades que a vida diária nos oferece para ter uma vida plena e intensa. O intelecto quer conhecer; a alma gosta de ser surpreendida. O intelecto, cujo olhar está dirigido para o exterior, deseja ser iluminado e sentir o prazer de um entusiasmo intenso. A alma, constantemente virada para dentro, busca a contemplação e a experiência mais imaterial e mais misteriosa do mundo inferior.
( ... )
O intelecto deseja um significado sumário - muito adequado à natureza pragmática do espírito. A alma, no entanto, anseia por uma reflexão profunda, por muitos níveis de sentido, cambiantes infinitos, referências e alusões e prefigurações.
( ... )
É frequente o intelecto exigir provas de que se encontra em terreno firme. O pensamento da alma encontra as suas raízes de um modo diferente. Agrada-lhe a persuasão, a subtileza de análise, uma lógica interna e a elegância. Gosta do género de discussão que nunca é dada por concluída, que termina com o desejo de prolongar o diálogo ou a leitura. Sente-se satisfeito com a incerteza e a dúvida e, especialmente em assuntos de natureza ética, escrutina, questiona e continua a reflectir mesmo depois de as decisões terem sido tomadas."

Thomas Moore in "O Sentido da Alma"

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"O narcisismo é um estado em que uma pessoa não gosta de si própria. Este insucesso amoroso prevalece na forma do seu oposto, dado que o indivíduo se esforça por conquistar a auto-aceitação. O complexo revela-se através de um esforço e de uma sobrevalorização demasiado óbvios. É evidente para todos que o amor narcisista é superficial. Sabemos, instintivamente, que alguém que fala constantemente de si próprio não deverá possuir grande auto-estima.
( ... )
O segredo para a cura do narcisismo não reside, de modo nenhum, na sua cura mas sim em permanecer atento a ele e em escutá-lo. O narcisismo é um indício de que a alma não está a receber amor suficiente. Quanto maior é o grau de narcisismo menor é a intensidade de amor que está a ser dispensado."

Thomas Moore in "O Sentido da Alma"

domingo, 7 de novembro de 2010

"Porque não acrediteis que eu escrevo para publicar, nem para escrever nem para fazer arte, mesmo. Escrevo, porque esse é o fim, o requinte supremo, o requinte temperamentalmente ilógico, ( ... ) da minha cultura de estados de alma. Se pego numa sensação minha e a desfio até poder com ela tecer-lhe a realidade interior a que eu chamo ou A Floresta do Alheamento, ou a Viagem Nunca Feita, acreditai que o faço não para que a prosa soe lúcida e trémula, ou mesmo para que eu goze com a prosa - ainda que mais isso quero, mais esse requinte final ajunto, como um cair belo de pano sobre os meus cenários sonhados - mas para que dê completa exterioridade ao que é interior, para me assim realize o irrealizável, conjugue o contraditório e, tornando o sonho exterior, lhe dê o seu máximo poder de puro sonho, estagnador de vida que sou, burilador de inexactidões, pajem doente da minha alma Rainha, lendo-lhe ao crepúsculo não os poemas que estão no livro, aberto sobre os meus joelhos, da minha Vida, mas os poemas que vou construindo e fingindo que leio, e ele fingindo que ouve, enquanto a Tarde, lá fora não sei como ou onde, dulcifica sobre esta metáfora erguida dentro de mim em Realidade Absoluta a luz ténue e última dum misterioso dia espiritual."

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

"Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos, folheio-os então, como a um livro que se folheia e se torna a folhear sem ter mais que palavras inevitáveis. É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas visões demoradas de paisagens/outras/, e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio. Em todos os meus sonhos ou apareces, sonho, ou, realidade falsa, me acompanhas. Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade, o teu corpo essencial descontornado para planície calma e monte de perfil frio em jardim de palácio oculto. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos. Quem sabe se as paisagens dos meus sonhos não são o meu modo de não te sonhar ? Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou ? Sei eu o que é sonhar para que saiba o que vale o chamar-te o meu sonho ? Sei eu se não és uma parte, quem sabe se a parte essencial e real, de mim ? E sei eu se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não tu um sonho que eu sonhe ?
Que espécie de vida tens ? Que modo de ver é o modo como te vejo ? Teu perfil ? Nunca é o mesmo, mas não muda nunca. E eu digo isto porque o sei, ainda que não saiba que o sei. Teu corpo ? Nu é o mesmo que vestido, sentado está na mesma atitude do que quando deitado ou de pé. Que significa isto, que não significa nada ?

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

"Eu sou a filha da Terra e da Água,
e a lactente do Céu:
Atravesso os poros do oceano e das praias
e mudo, mas não posso morrer.
Pois quando, depois da chuva, sem uma nódoa,
o pavilhão do Céu está nu,
e os ventos e os raios de sol, com o seu brilho convexo,
constroem a abóbada azul do ar,
do meu próprio cenotáfio eu rio em silêncio
e, das cavernas da chuva,
como uma criança do ventre, como um fantasma da tumba,
eu ergo-me e desfaço-a novamente."

Percy Bysshe Shelley in "A Nuvem"

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

"Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma erudição da sensibilidade.
A erudição da sensibilidade nada tem que ver com a experiência da vida. A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa. A verdadeira experiência consiste em restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está tudo; basta que o procuremos e o saibamos procurar."

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

terça-feira, 26 de outubro de 2010

"O despertar de uma cidade, seja entre névoa ou de outro modo, é sempre para mim uma coisa mais enternecedora do que o raiar da aurora sobre os campos. Renasce muito mais, há muito mais que esperar, quando, em vez de só dourar, primeiro de luz obscura, depois de luz húmida, mais tarde de ouro luminoso, as relvas, os relevos dos arbustos, as palmas das mãos das folhas, o sol multiplica os seus possíveis efeitos nas janelas, nos muros, nos telhados, - ( ... ) - quando manhã ( ... ) a tantas realidades diversas. Uma aurora no campo faz-me bem; uma aurora na cidade bem e mal, e por isso me faz mais que bem. Sim, porque a esperança / maior / que me traz tem, como todas as esperanças, aquele travo longínquo e saudoso de não ser realidade. A manhã do campo existe; a manhã da cidade promete. Uma faz viver; a outra faz pensar. E eu hei-de sempre de sentir, como os grandes malditos, que mais vale pensar que viver."

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

domingo, 24 de outubro de 2010

"Durei horas incógnitas, momentos sucessivos sem relação, no passeio em que fui, de noite, à beira sozinha do mar. Todos os pensamentos, que têm feito viver homens, todas as emoções, que os homens têm deixado de viver, passaram por minha mente, como um resumo escuro da história, nessa minha meditação andada à beira-mar.
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos.
( ... )
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma , como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda ! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram ! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e a confidência do abismo. Quantos somos ! Quantos nos enganamos ! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção !"

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

domingo, 17 de outubro de 2010

Li "Comer Orar Amar" de Elizabeth Gilbert e ...

Sinopse:
"Aos trinta anos, Elizabeth Gilbert tinha um marido, uma casa de campo, uma carreira de sucesso - tudo aquilo que uma mulher pode desejar. Ou talvez não ...
Decide deixar tudo para trás e, depois de uma arrasadora crise existencial e de um divórcio difícil, parte à aventura.
Dividida entre o desejo de prazeres mundanos e a aspiração a uma transcendência divina, experimenta as delícias da dolce vita em Itália e o rigor ascético na Índia.
Na Indonésia, procura a equilíbrio e encontra o amor.
O relato desses doze meses de viagem constitui um mosaico de emoções e experiências culturais, recheado de personagens envolventes, descrições vívidas e histórias apaixonantes."


A minha opinião:
O livro consiste nas memórias da autora que viajou por 3 países - Itália, Índia e Indonésia - por um ano para tentar se reencontrar, reestabelecer-se e renovar-se como pessoa.
Decidiu rumar a Itália para sentir prazer através da comida e para aprender italiano, idioma pelo qual sempre se sentiu atraída.
Na Índia concentrou-se na sua espiritualidade, praticando meditação e procurando um auto-conhecimento mais profundo.
Em Bali, na Indonésia, conseguiu equilibrar o prazer sensual e a transcendência divina, tendo encontrado o verdadeiro amor.

Nesta demanda espiritual de Elizabeth Gilbert ( e neste ponto identifico-me imenso com ela ), a própria define-se como uma pessoa na fronteira de dois mundos, e passa de uma forma muito clara a mensagem duma possibilidade real, a de conciliar o melhor dos dois enquanto mergulhados na viagem ao interior de nós mesmos.

Na obra, conseguimos vislumbrar claramente que o fio condutor da narrativa baseia-se na Regra da Física da Procura.
Esta consiste no facto de que, se formos corajosos o suficiente para deixarmos para trás tudo o que nos é familiar e reconfortante ( que pode ser algo como a nossa casa a um velho e amargo ressentimento ) e partirmos numa viagem em busca da verdade, se estivermos sinceramente dispostos a ver tudo o que nos vai acontecer durante essa viagem como um ensinamento, e se aceitarmos cada um que encontrarmos durante a mesma como um mestre, e se estivermos acima de tudo preparados para encarar e perdoar algumas realidades desagradáveis a nosso respeito, então a verdade não nos será ocultada.

Enfim, na minha opinião, aquelas pessoas que procuram entender a vida, entenderem-se a si próprias, reflectirem sobre a existência e vivem numa profunda busca espiritual, identificar-se-ão profundamente com este livro, como foi o meu caso ! ;)

( 43º livro lido em 2010 ... 9081 páginas lidas )

sábado, 16 de outubro de 2010

"Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento, aquelas frases simples de Caeiro, na referência natural do que resulta do pequeno tamanho da sua aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a cidade ...

«Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.»

Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo.

«Sou do tamanho do que vejo!» Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. «Sou do tamanho do que vejo!» Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até as altas estrelas que se reflectem nele, e, assim, em certo modo, ali estão.

E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. «Sou do tamanho do que vejo!» E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte.

Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia.

Mas recolho-me e abrando. «Sou do tamanho do que vejo!» E a frase fica-me sendo a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer."

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

terça-feira, 5 de outubro de 2010

"O porto da minha mente é uma baía aberta, o único acesso à ilha do meu eu ( que é uma ilha jovem e vulcânica, mas fértil e promissora ). Esta ilha já passou por algumas guerras, é verdade, mas está agora empenhada na paz sob o governo de um novo líder ( eu ) que instituiu novas políticas para proteger o lugar. E agora - vamos propagar isto aos sete mares - há leis muito, mas mesmo muito mais rigorosas sobre quem pode entrar nesse porto. Ele não voltará a albergar pessoas com pensamentos maus e abusivos, navios de pensamentos com peste, navios de pensamentos escravos, navios de pensamentos em guerra. Todos eles verão recusada a sua entrada. Da mesma forma, quaisquer pensamentos que estejam cheios de exilados furiosos ou famintos, de descontentes e planfetários, amotinados e assassinos violentos, prostitutas desesperadas, proxenetas e clandestinos sediciosos verão igualmente recusada a sua entrada. O mesmo se aplica aos pensamentos canibais, por razões óbvias. Até mesmo os missionários serão cuidadosamente revistados em busca de sinceridade. Este é um porto pacífico, a entrada para uma linda e orgulhosa ilha que está agora a começar a cultivar a tranquilidade. Se conseguirem viver de acordo com estas novas leis, meus queridos pensamentos, então serão bem-vindos à minha mente. Caso contrário, enviar-vos-ei a todos de volta ao mar de onde vieram.
É esta a minha missão e nunca acabará."

Elizabeth Gilbert in "Comer Orar Amar"

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Vegetal e Só

"É Outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
febril de tantos lábios,
sem nenhum rumor de lágrimas
nas pálpebras acesas.

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como um rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra."

Eugénio de Andrade in "As Palavras Interditas"

domingo, 5 de setembro de 2010

Li "Os Vagabundos do Dharma" de Jack Kerouac e ...

"Os Vagabundos do Dharma" conta a história de uma busca pela verdade e pela iluminação. Uma busca do caminho do Zen.
O protagonista, Ray Smith, é um aspirante a escritor de São Francisco que anseia por algo mais na vida. Esse algo mais será apresentado a ele por Japhy Rider - um jovem zen-budista adepto do montanhismo que vive com um mínimo de dinheiro, alheio à sociedade de consumo norte-americana.

Adorei este livro por várias razões, sendo que a principal baseia-se na minha identificação com as diversas abordagens de Kerouac ao longo da narrativa.
Assim ...

- Achei engraçado o nome dos maiores de todos os vagabundos do dharma ser "Os Lunáticos Zen da China e do Japão" ! ;)

- Interessei-me pela história de Han Shan, um erudito chinês que se fartou da grande cidade e do mundo e se refugiou nas montanhas. Era um poeta, um montanhista, um budista dedicado ao princípio da meditação sobre a essência de todas as coisas.

- Fiquei com curiosidade em conhecer o famoso jardim Ryoanji, um jardim de pedra no mosteiro de Shokokuji em Quioto, que não tem mais nada senão velhos pedregulhos dispostos de uma certa maneira, que pretende ser misticamente estética e que faz milhares de turistas e monges viajarem todos os anos para ficarem especados a olhar para os pedregulhos na areia, obtendo com isso paz de espírito.

- Encantei-me com as mandalas mágicas ( invenções tibetanas ) e com os haikus que têm de ser tão simples como papas de aveia. ;)

- Considerei bastante interessante o conceito de meditação dos trilhos, segundo o qual limitamo-nos a andar a olhar para o trilho aos nossos pés, não desviamos o olhar e mergulhamos num transe enquanto o chão passa por debaixo de nós. Ora aqui está algo que irei tentar colocar em prática ... ;)

- E, finalmente, deliciei-me com as belíssimas descrições da Montanha Hozomeen.

Enfim, posso afirmar que esta é uma obra à altura de "On the Road", e na qual é bastante notório o interesse de Kerouac pelas filosofias orientais.

( 37º livro lido em 2010 ... 7484 páginas lidas )

sábado, 4 de setembro de 2010

"Mas eu tinha as minhas próprias ideias maradas e não estavam relacionadas com a parte «lunática» de toda esta questão. Queria arranjar um equipamento completo com todas as coisas necessárias para dormir, morar, comer, cozinhar, o que eu queria de facto era uma cozinha e um quarto às costas, e partir para um lado qualquer e achar a solidão perfeita e contemplar o vazio perfeito da minha mente e ser completamente neutro a toda e qualquer ideia. Também tencionava rezar, como única actividade, rezar por todos os seres vivos; achava que era a única actividade decente que nos restava neste mundo. Estar algures na foz de um rio, ou num deserto, ou nas montanhas, ou numa cabana no México ou numa barraca em Adirondack, e repousar e ser afável, e não fazer mais nada, praticar aquilo a que os chineses chamam «fazer nada»."

Jack Kerouac in "Os Vagabundos do Dharma"
" - Quero andar de bicicleta no calor da tarde quente, calçar sandálias de couro paquistanesas, gritar em voz alta aos meus amigos monges Zen, vestidos com leves túnicas de cânhamo e cabeças rapadas, quero viver em templos de pavilhões dourados, despedir-me, ir para Yokohama, o grande porto azafamado da Ásia, cheio de batéis e bagatelas, ter esperança, trabalhar por ali, voltar, partir, partir para o Japão, voltar para os EUA, ler Hakuin, ranger os dentes e disciplinar-me a toda a hora sem chegar a lado nenhum e assim aprender ... aprender que o meu corpo e tudo o mais fica cansado e doente e prostrado e assim descobrir tudo sobre Hakuyu."

Jack Kerouac in "Os Vagabundos do Dharma"

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Em movimento

" Uma mulher em movimento é uma mulher interessante. Ela tem sempre imensas coisas para fazer, e, quando não tem, inventa. Ela tem amigas com quem almoça todas as semanas, dois ou três amigos de grande confiança e acima de qualquer suspeita com quem vai jantar uma vez por mês, ela trabalha, ela vai à ginástica, ela vai ao cabeleireiro, ela tira cursos de teatro, de comida oriental e de linguagem gestual, tudo isto enquanto deixa os filhos na natação, ela gosta de ir ao teatro, ela vai a exposições, numa palavra, ela tem vida própria.
As mulheres em movimento são mais difíceis de controlar, porque mudam de interesses com facilidade: hoje querem aprender krav-magga, amanhã interessam-se por pintura a óleo. Mas têm uma enorme qualidade: estão sempre ocupadas. E quando têm tempo para um homem é porque ele é mesmo importante. Senão, tinham mais que fazer.
Por outro lado, uma mulher em movimento aguça a concentração masculina. O simples facto de um homem não saber o que é que ela poderá estar a fazer naquele exacto momento - pode estar numa aula de ioga, nos saldos com as amigas ou em casa a ler um livro - faz com que ele a valorize. Porquê ? Porque sente que não a tem na mão, mesmo que se trate de uma namorada devota ou de uma mulher fiel. A ideia de as mulheres terem a sua vida é algo que fascina os homens ao mesmo tempo que os assusta. Os mais corajosos aceitam o desafio, enchem o peito de ar e dão o seu melhor. Os mais comodistas optam por uma sossegadinha, daquelas que organizam a vida em função dos interesses do seu par e que estão sempre em casa à espera que ele volte, com um prato de comida quente e um sorriso submisso.
A mulher quieta até pode ser a dona de casa modelar e a mãe ideal para os filhos, mas tanta simplicidade cansa ... A não ser que este seja do género paz-de-alma ou já tenha literalmente encostado às boxes, uma mulher quieta pode tornar-se uma grande maçada."

Margarida Rebelo Pinto in "Onde reside o amor"

terça-feira, 31 de agosto de 2010

"Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes
a laranjeira em flor a cor do feno
a saudade lilás que há nos poentes
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente."

Rosa Lobato de Faria in "Memória do Corpo"

sábado, 28 de agosto de 2010

Lifestyle

"Há quem não tenha nascido para casar. Não é defeito, é feitio. O casamento não é para todos, embora reconheça que foi assim que a minha geração foi educada. Deitaram-nos um veneno na sopa quando éramos pequenos que nos condicionou ao modelo da família feliz, marido e mulher, pelo menos dois filhos, uma casa desafogada e férias na mesma praia todos os verões com o mesmo grupo de amigos, carrinhas e jipes, crianças educadas em colégios particulares com actividades extra-curriculares que incluem natação, rugby ou equitação, todo um lifestyle programado ao milímetro que nos fizesse sentir adultos, responsáveis e «arrumados» na vida.
Mas esse veneno acaba muitas vezes por se diluir. E em alguns casos ainda bem.
( ... )
Para quem gosta da vidinha e se sente feliz a chapinhar nela, tudo isto até pode fazer sentido. Mas nem todos fomos feitos para a vidinha; há quem sufoque com a rotina, quem não aguente a monogamia, quem tenha vontade de fugir da sua realidade pelo menos duas vezes por semana, quem assuma a vidinha para a família e depois tenha outra, fora do circuito oficial. E há quem simplesmente não pactue com o sistema tacitamente instaurado da moral e dos bons costumes e nunca case, ou, se já passou pela experiência e esta não resultou, nunca mais volte a casar.
( ... )
É tudo uma questão de lifestyle."

Margarida Rebelo Pinto in "Onde reside o amor"

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Apetece uma flor

"Apetece uma flor uma janela
um candelabro um verso de Bilac
um cheiro de lilases uma estrela
uma fuga de Bach.

Apetece um licor um vinho velho
um chá da China cheio de perfume
apetece uma história de mistério
contada ao pé do lume.

Apetece uma tela em tons de roxo
um quadro de Giotto ou de Gauguin
uma carícia quente no pescoço
um bago de romã.

Apetece uma rima uma oração
apetece que chova faça vento
e haja um veneno um filtro uma poção
que embruxe na memória o coração
fugaz deste momento."

Rosa Lobato de Faria in "Memória do Corpo"

domingo, 22 de agosto de 2010

Canção

"Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.

Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão."

Eugénio de Andrade in "As Palavras Interditas"

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Arte em 3D a partir de capas de livros












Thomas Allen recorta personagens retiradas de capas de "clássicos" e posiciona-as em cenas de acção, originando estas e outras obras de arte em 3D !

sábado, 14 de agosto de 2010

Uma delícia de capa ... ;)

Fonte

"Meu amor diz-me o teu nome
- Nome que desaprendi ...
Diz-me apenas o teu nome.
Nada mais quero de ti.
Diz-me apenas se em teus olhos
Minhas lágrimas não vi,
Se era noite nos teus olhos,
Só por que passei por ti !
Depois, calaram-se os versos
- Versos que desaprendi ...
E nasceram outros versos
Que me afastaram de ti.
Meu amor, diz-me o teu nome.
Alumia o meu ouvido.
Diz-me apenas o teu nome,
Antes que eu rasgue estes versos,
Como quem rasga um vestido !"

Pedro Homem de Mello in "Grande, grande era a cidade"

domingo, 8 de agosto de 2010

Juventude

"Lembras-te quando ao fim do dia
Felizes, ambos, íamos nadar
E em nossa boca a espuma persistia
Em dar ao Sol o nome do Luar ?

Tudo era fácil, melodioso e longo.
Aqui e além, um súbito ditongo
Ecoava em nós certa canção pagã ...

Contudo o azul do mar não tinha fundo
E o mundo continuava a ser o mundo
Banhado pela aragem da manhã ! ..."


Pedro Homem de Mello in "O Rapaz da Camisola Verde"

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Pecado

"Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !
Diz: qual foi o teu pecado ?
Diz: qual foi o teu castigo ?

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !

- Trago os meus lábios comigo !

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !
Diz: qual foi o teu pecado ?
Diz: qual foi o teu castigo ?

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !

- Trago os meus olhos comigo.

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !
Diz: qual foi o teu pecado ?
Diz: qual foi o teu castigo ?

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !

- Trago a minha alma comigo ..."

Pedro Homem de Mello in "Pecado"

terça-feira, 27 de julho de 2010

Sopro

"Passas como passa
O riso do vento
Mas na tua graça
Não há pensamento.

Porém, sem teu riso,
Que seria a graça
Do meu pensamento ?

Pedro Homem de Mello in "Jardins Suspensos 1937"

sábado, 17 de julho de 2010

Cisne

"Amei-te ? Sim. Doidamente !
Amei-te com esse amor
Que traz vida e foi doente ...

À beira de ti, as horas
Não eram horas: paravam.
E, longe de ti, o tempo
Era tempo, infelizmente ...

Ai ! esse amor que traz vida,
Cor, saúde ... e foi doente !

Porém, voltavas e, então,
Os cardos davam camélias,
Os alecrins, açucenas,
As aves, brancos lilases,
E as ruas, todas morenas,
Eram tapetes de flores
Onde havia musgo, apenas ...

E, enquanto subia a Lua,
Nas asas do vento brando,
O meu sangue ia passando
Da minha mão para a tua !

Por que te amei ?
- Ninguém sabe
A causa daquele amor
Que traz vida e foi doente.

Talvez viesse da terra,
Quando a terra lembra a carne.
Talvez viesse da carne
Quando a carne lembra a alma !
Talvez viesse da noite
Quando a noite lembra o dia.

- Talvez viesse de mim.
E da minha poesia ..."

Pedro Homem de Mello in "Adeus - 1951"