sábado, 17 de julho de 2010

Cisne

"Amei-te ? Sim. Doidamente !
Amei-te com esse amor
Que traz vida e foi doente ...

À beira de ti, as horas
Não eram horas: paravam.
E, longe de ti, o tempo
Era tempo, infelizmente ...

Ai ! esse amor que traz vida,
Cor, saúde ... e foi doente !

Porém, voltavas e, então,
Os cardos davam camélias,
Os alecrins, açucenas,
As aves, brancos lilases,
E as ruas, todas morenas,
Eram tapetes de flores
Onde havia musgo, apenas ...

E, enquanto subia a Lua,
Nas asas do vento brando,
O meu sangue ia passando
Da minha mão para a tua !

Por que te amei ?
- Ninguém sabe
A causa daquele amor
Que traz vida e foi doente.

Talvez viesse da terra,
Quando a terra lembra a carne.
Talvez viesse da carne
Quando a carne lembra a alma !
Talvez viesse da noite
Quando a noite lembra o dia.

- Talvez viesse de mim.
E da minha poesia ..."

Pedro Homem de Mello in "Adeus - 1951"

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