domingo, 24 de outubro de 2010

"Durei horas incógnitas, momentos sucessivos sem relação, no passeio em que fui, de noite, à beira sozinha do mar. Todos os pensamentos, que têm feito viver homens, todas as emoções, que os homens têm deixado de viver, passaram por minha mente, como um resumo escuro da história, nessa minha meditação andada à beira-mar.
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos.
( ... )
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma , como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda ! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram ! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e a confidência do abismo. Quantos somos ! Quantos nos enganamos ! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção !"

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"