quarta-feira, 27 de outubro de 2010

"Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma erudição da sensibilidade.
A erudição da sensibilidade nada tem que ver com a experiência da vida. A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa. A verdadeira experiência consiste em restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está tudo; basta que o procuremos e o saibamos procurar."

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

terça-feira, 26 de outubro de 2010

"O despertar de uma cidade, seja entre névoa ou de outro modo, é sempre para mim uma coisa mais enternecedora do que o raiar da aurora sobre os campos. Renasce muito mais, há muito mais que esperar, quando, em vez de só dourar, primeiro de luz obscura, depois de luz húmida, mais tarde de ouro luminoso, as relvas, os relevos dos arbustos, as palmas das mãos das folhas, o sol multiplica os seus possíveis efeitos nas janelas, nos muros, nos telhados, - ( ... ) - quando manhã ( ... ) a tantas realidades diversas. Uma aurora no campo faz-me bem; uma aurora na cidade bem e mal, e por isso me faz mais que bem. Sim, porque a esperança / maior / que me traz tem, como todas as esperanças, aquele travo longínquo e saudoso de não ser realidade. A manhã do campo existe; a manhã da cidade promete. Uma faz viver; a outra faz pensar. E eu hei-de sempre de sentir, como os grandes malditos, que mais vale pensar que viver."

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

domingo, 24 de outubro de 2010

"Durei horas incógnitas, momentos sucessivos sem relação, no passeio em que fui, de noite, à beira sozinha do mar. Todos os pensamentos, que têm feito viver homens, todas as emoções, que os homens têm deixado de viver, passaram por minha mente, como um resumo escuro da história, nessa minha meditação andada à beira-mar.
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos.
( ... )
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma , como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda ! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram ! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e a confidência do abismo. Quantos somos ! Quantos nos enganamos ! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção !"

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

domingo, 17 de outubro de 2010

Li "Comer Orar Amar" de Elizabeth Gilbert e ...

Sinopse:
"Aos trinta anos, Elizabeth Gilbert tinha um marido, uma casa de campo, uma carreira de sucesso - tudo aquilo que uma mulher pode desejar. Ou talvez não ...
Decide deixar tudo para trás e, depois de uma arrasadora crise existencial e de um divórcio difícil, parte à aventura.
Dividida entre o desejo de prazeres mundanos e a aspiração a uma transcendência divina, experimenta as delícias da dolce vita em Itália e o rigor ascético na Índia.
Na Indonésia, procura a equilíbrio e encontra o amor.
O relato desses doze meses de viagem constitui um mosaico de emoções e experiências culturais, recheado de personagens envolventes, descrições vívidas e histórias apaixonantes."


A minha opinião:
O livro consiste nas memórias da autora que viajou por 3 países - Itália, Índia e Indonésia - por um ano para tentar se reencontrar, reestabelecer-se e renovar-se como pessoa.
Decidiu rumar a Itália para sentir prazer através da comida e para aprender italiano, idioma pelo qual sempre se sentiu atraída.
Na Índia concentrou-se na sua espiritualidade, praticando meditação e procurando um auto-conhecimento mais profundo.
Em Bali, na Indonésia, conseguiu equilibrar o prazer sensual e a transcendência divina, tendo encontrado o verdadeiro amor.

Nesta demanda espiritual de Elizabeth Gilbert ( e neste ponto identifico-me imenso com ela ), a própria define-se como uma pessoa na fronteira de dois mundos, e passa de uma forma muito clara a mensagem duma possibilidade real, a de conciliar o melhor dos dois enquanto mergulhados na viagem ao interior de nós mesmos.

Na obra, conseguimos vislumbrar claramente que o fio condutor da narrativa baseia-se na Regra da Física da Procura.
Esta consiste no facto de que, se formos corajosos o suficiente para deixarmos para trás tudo o que nos é familiar e reconfortante ( que pode ser algo como a nossa casa a um velho e amargo ressentimento ) e partirmos numa viagem em busca da verdade, se estivermos sinceramente dispostos a ver tudo o que nos vai acontecer durante essa viagem como um ensinamento, e se aceitarmos cada um que encontrarmos durante a mesma como um mestre, e se estivermos acima de tudo preparados para encarar e perdoar algumas realidades desagradáveis a nosso respeito, então a verdade não nos será ocultada.

Enfim, na minha opinião, aquelas pessoas que procuram entender a vida, entenderem-se a si próprias, reflectirem sobre a existência e vivem numa profunda busca espiritual, identificar-se-ão profundamente com este livro, como foi o meu caso ! ;)

( 43º livro lido em 2010 ... 9081 páginas lidas )

sábado, 16 de outubro de 2010

"Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento, aquelas frases simples de Caeiro, na referência natural do que resulta do pequeno tamanho da sua aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a cidade ...

«Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.»

Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo.

«Sou do tamanho do que vejo!» Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. «Sou do tamanho do que vejo!» Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até as altas estrelas que se reflectem nele, e, assim, em certo modo, ali estão.

E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. «Sou do tamanho do que vejo!» E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte.

Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia.

Mas recolho-me e abrando. «Sou do tamanho do que vejo!» E a frase fica-me sendo a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer."

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

terça-feira, 5 de outubro de 2010

"O porto da minha mente é uma baía aberta, o único acesso à ilha do meu eu ( que é uma ilha jovem e vulcânica, mas fértil e promissora ). Esta ilha já passou por algumas guerras, é verdade, mas está agora empenhada na paz sob o governo de um novo líder ( eu ) que instituiu novas políticas para proteger o lugar. E agora - vamos propagar isto aos sete mares - há leis muito, mas mesmo muito mais rigorosas sobre quem pode entrar nesse porto. Ele não voltará a albergar pessoas com pensamentos maus e abusivos, navios de pensamentos com peste, navios de pensamentos escravos, navios de pensamentos em guerra. Todos eles verão recusada a sua entrada. Da mesma forma, quaisquer pensamentos que estejam cheios de exilados furiosos ou famintos, de descontentes e planfetários, amotinados e assassinos violentos, prostitutas desesperadas, proxenetas e clandestinos sediciosos verão igualmente recusada a sua entrada. O mesmo se aplica aos pensamentos canibais, por razões óbvias. Até mesmo os missionários serão cuidadosamente revistados em busca de sinceridade. Este é um porto pacífico, a entrada para uma linda e orgulhosa ilha que está agora a começar a cultivar a tranquilidade. Se conseguirem viver de acordo com estas novas leis, meus queridos pensamentos, então serão bem-vindos à minha mente. Caso contrário, enviar-vos-ei a todos de volta ao mar de onde vieram.
É esta a minha missão e nunca acabará."

Elizabeth Gilbert in "Comer Orar Amar"