sexta-feira, 26 de novembro de 2010

"Era uma vez um rei que, quando era príncipe, queria apenas ser poeta. Gostava das palavras, de brincar com elas, de procurar os seus sons e os seus sentidos e de fazer delas naus capazes de o transportar a lugares onde ainda ninguém conseguira chegar.

Em vez de coleccionar objectos, Dinis gostava de coleccionar palavras, de as arrumar como quem arruma as coisas belas que o coração escolheu. Uns dias usava umas, porque estava triste, noutros usava palavras diferentes, porque eram as que melhor se davam com a alegria que lhe ia na alma. Nesse tempo, muito antes de se tornar rei, se alguém lhe perguntasse o que queria ser quando chegasse à idade adulta, ele responderia: «Quero ser poeta»."

José Jorge Letria in "Era uma vez um Rei Poeta"

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Verão, Outono

"Antigamente havia em mim um nome gravado a fogo e eu
morria por ele. Eu fechava os olhos e o nome pedia-me a luz,
a manhã, a música. Antigamente eu imaginava a delicadeza,
as florestas, os bosques reduzidos ao silêncio pelos subterrâneos

da tarde, e ser tocado no rosto era ser ferido por uma imensa
beleza, pelos olhos da planície, como um animal adormecido,
como um lugar onde deitar a cabeça e adormecer sonhando
com o deserto. No deserto eu estava a salvo, caminhando nos

declives e havia palavras imensas, palavras como o trigo e o mar
e as raízes e os relâmpagos e um rosto e os campos do Outono
e isso era como ficar cego no meio da luz estremecendo entre
as poeiras, as cores da manhã, as veredas dos bosques. E eu olho

fixamente esse rosto de fogo, toco uma vez essas mãos, amo
demoradamente a distância, comovo-me perdido na sua
voz, enquanto passa no mundo uma estranha ventania."

Francisco José Viegas in "O Puro e o Impuro"

sábado, 20 de novembro de 2010

"Jung associa o inconsciente à alma, pelo que quando nos esforçamos por viver uma vida perfeitamente consciente num mundo intelectualmente previsível, resguardado de todos os mistérios e acomodado à conformidade, desperdiçamos as oportunidades que a vida diária nos oferece para ter uma vida plena e intensa. O intelecto quer conhecer; a alma gosta de ser surpreendida. O intelecto, cujo olhar está dirigido para o exterior, deseja ser iluminado e sentir o prazer de um entusiasmo intenso. A alma, constantemente virada para dentro, busca a contemplação e a experiência mais imaterial e mais misteriosa do mundo inferior.
( ... )
O intelecto deseja um significado sumário - muito adequado à natureza pragmática do espírito. A alma, no entanto, anseia por uma reflexão profunda, por muitos níveis de sentido, cambiantes infinitos, referências e alusões e prefigurações.
( ... )
É frequente o intelecto exigir provas de que se encontra em terreno firme. O pensamento da alma encontra as suas raízes de um modo diferente. Agrada-lhe a persuasão, a subtileza de análise, uma lógica interna e a elegância. Gosta do género de discussão que nunca é dada por concluída, que termina com o desejo de prolongar o diálogo ou a leitura. Sente-se satisfeito com a incerteza e a dúvida e, especialmente em assuntos de natureza ética, escrutina, questiona e continua a reflectir mesmo depois de as decisões terem sido tomadas."

Thomas Moore in "O Sentido da Alma"

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"O narcisismo é um estado em que uma pessoa não gosta de si própria. Este insucesso amoroso prevalece na forma do seu oposto, dado que o indivíduo se esforça por conquistar a auto-aceitação. O complexo revela-se através de um esforço e de uma sobrevalorização demasiado óbvios. É evidente para todos que o amor narcisista é superficial. Sabemos, instintivamente, que alguém que fala constantemente de si próprio não deverá possuir grande auto-estima.
( ... )
O segredo para a cura do narcisismo não reside, de modo nenhum, na sua cura mas sim em permanecer atento a ele e em escutá-lo. O narcisismo é um indício de que a alma não está a receber amor suficiente. Quanto maior é o grau de narcisismo menor é a intensidade de amor que está a ser dispensado."

Thomas Moore in "O Sentido da Alma"

domingo, 7 de novembro de 2010

"Porque não acrediteis que eu escrevo para publicar, nem para escrever nem para fazer arte, mesmo. Escrevo, porque esse é o fim, o requinte supremo, o requinte temperamentalmente ilógico, ( ... ) da minha cultura de estados de alma. Se pego numa sensação minha e a desfio até poder com ela tecer-lhe a realidade interior a que eu chamo ou A Floresta do Alheamento, ou a Viagem Nunca Feita, acreditai que o faço não para que a prosa soe lúcida e trémula, ou mesmo para que eu goze com a prosa - ainda que mais isso quero, mais esse requinte final ajunto, como um cair belo de pano sobre os meus cenários sonhados - mas para que dê completa exterioridade ao que é interior, para me assim realize o irrealizável, conjugue o contraditório e, tornando o sonho exterior, lhe dê o seu máximo poder de puro sonho, estagnador de vida que sou, burilador de inexactidões, pajem doente da minha alma Rainha, lendo-lhe ao crepúsculo não os poemas que estão no livro, aberto sobre os meus joelhos, da minha Vida, mas os poemas que vou construindo e fingindo que leio, e ele fingindo que ouve, enquanto a Tarde, lá fora não sei como ou onde, dulcifica sobre esta metáfora erguida dentro de mim em Realidade Absoluta a luz ténue e última dum misterioso dia espiritual."

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

"Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos, folheio-os então, como a um livro que se folheia e se torna a folhear sem ter mais que palavras inevitáveis. É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas visões demoradas de paisagens/outras/, e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio. Em todos os meus sonhos ou apareces, sonho, ou, realidade falsa, me acompanhas. Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade, o teu corpo essencial descontornado para planície calma e monte de perfil frio em jardim de palácio oculto. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos. Quem sabe se as paisagens dos meus sonhos não são o meu modo de não te sonhar ? Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou ? Sei eu o que é sonhar para que saiba o que vale o chamar-te o meu sonho ? Sei eu se não és uma parte, quem sabe se a parte essencial e real, de mim ? E sei eu se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não tu um sonho que eu sonhe ?
Que espécie de vida tens ? Que modo de ver é o modo como te vejo ? Teu perfil ? Nunca é o mesmo, mas não muda nunca. E eu digo isto porque o sei, ainda que não saiba que o sei. Teu corpo ? Nu é o mesmo que vestido, sentado está na mesma atitude do que quando deitado ou de pé. Que significa isto, que não significa nada ?

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

"Eu sou a filha da Terra e da Água,
e a lactente do Céu:
Atravesso os poros do oceano e das praias
e mudo, mas não posso morrer.
Pois quando, depois da chuva, sem uma nódoa,
o pavilhão do Céu está nu,
e os ventos e os raios de sol, com o seu brilho convexo,
constroem a abóbada azul do ar,
do meu próprio cenotáfio eu rio em silêncio
e, das cavernas da chuva,
como uma criança do ventre, como um fantasma da tumba,
eu ergo-me e desfaço-a novamente."

Percy Bysshe Shelley in "A Nuvem"