quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

"Tenho um estranho desejo das coisas grandes, simples e primevas, tal como o Mar, para mim não menos maternal do que a Terra. Parece-me que todos olhamos demasiado para a natureza e vivemos muito pouco com ela. Vislumbro grande sanidade na atitude grega. Nunca falavam do pôr-do-sol, nem discutiam se as sombras na relva eram, ou não, de facto, cor de malva. Mas percebiam que o mar era para aquele que nada, e a areia para os pés do corredor. Amavam as árvores pela sombra que lançavam, e a floresta pelo seu silêncio, à noite. O tratador da vinha embrulhava os cabelos em folhas de hera, para que afastassem os raios do sol, quando este parava sobre os rebentos, e, para o artista e o atleta, os dois tipos que a Grécia nos transmitiu, entrançavam em grinaldas as folhas do amargo louro e da salsa selvagem que, de outra maneira, não teriam tido utilidade para o homem.
Chamamos a nós próprios uma idade utilitária, e não conhecemos a utilidade das coisas. Esquecemo-nos de que a Água pode limpar e o Fogo purificar, e que a Terra é mãe de todos nós. Como consequência, a nossa Arte é da Lua e brinca com as sombras, enquanto a arte grega é do Sol e lida directamente com as coisas. Tenho a certeza de que há purificação nas forças elementais, e quero voltar a elas e viver na sua presença."

Oscar Wilde in "De Profundis"

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