sábado, 23 de abril de 2011

"O chá japonês, servido invariavelmente sem leite e sem açúcar, que lhe prejudicariam o aroma, é a bebida mais suavemente agradável que possa oferecer-se ao nosso paladar ( não de todos porém, mas um paladar sentimental, um tanto sonhador ... que nisto dos nossos órgãos de sentir há temperamentos, aptidões afectivas, características ... ). O guyokuró, por exemplo, que é o mais celebrado chá de Uji e de todo o Japão, instila tais subtilezas balsâmicas de sabor que mais parece um perfume; poderia dizer-se que uma maravilhosa alquimia conseguiu liquifazer os aromas das flores - flores dos jardins, flores silvestres -, transferindo do olfato ao paladar a impressão do gozo. Assim é o guyokuró; claro está que as palavras não podem traduzir senão por comparação as emoções sentidas; e esta, a do agridoce deliciosíssimo que nos fica nos lábios, persistindo, como na memória persiste uma reminiscência, uma saudade, é incomparável ..."

Wenceslau de Moraes in "O Culto do Chá"

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