sábado, 7 de maio de 2011

"O espelho alegre e límpido da minha alma era de vez em quando ensombrado por uma espécie de melancolia mas, nessa altura, não estava seriamente turbado. Ela surgia aqui e além, por um dia ou uma noite, como uma tristeza sonhadora de solitário, mas desaparecia de novo sem rasto, regressando após semanas ou meses. Eu habituara-me a ela aos poucos como a uma amiga íntima, e não a sentia como atormentadora, mas apenas como uma inquietude e um cansaço que possuíam a sua própria doçura. Quando me acometia à noite, em vez de dormir, eu deitava-me horas seguidas no vão da janela, olhava o lago negro, as silhuetas dos montes recortados contra o céu pálido e, por cima, as belas estrelas. Depois, não raro, era tomado por um forte sentimento temeroso e doce, como se toda esta beleza nocturna me observasse com um justo olhar reprovador. Como se as estrelas, as montanhas e os lagos ansiassem por alguém que compreendesse e expressasse a sua beleza e a dor da sua existência silenciosa, como se fosse eu esse alguém, como se a minha verdadeira missão fosse a de, pela escrita, dar expressão à natureza silenciosa."

Hermann Hesse in "Peter Camenzind"

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