sexta-feira, 15 de julho de 2011

"É o mistério da música, que só nos desafia a alma, mas não a inteligência e a educação, e que, acima de todas as ciências e línguas, representa de várias maneiras, sempre naturais, apenas a alma do homem. Quanto maior for o Mestre, mais ilimitadas e profundas serão a sua contemplação e vivência. Mais: quanto mais perfeita e pura for a forma musical, maior será o seu efeito sobre a nossa alma. Quer o Mestre não aspire senão a encontrar a expressão mais forte e apurada dos seus estados de alma, quer persiga nostalgicamente um sonho de pura beleza, a sua obra terá sempre um efeito natural e incondicional. A técnica só vem muito mais tarde. Pode ser agradável e útil saber que nalguma composição de Beethoven há uma volta que não é muito fácil para o violinista, que nalgum lugar Berlioz se atreve a integrar uma entrada pouco usual das trompas, que este ou aquele efeito espectacular depende de um ou outro acorde do órgão, do silenciar dos violoncelos ou seja do que for, mas é tudo desnecessário para se apreciar uma música.
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É claro que o entendido desfruta de prazeres que a nós, ignorantes, nos estão vedados. No entanto, só no que diz respeito a pormenores técnicos, porque nenhum ouvido sensível precisa de grandes conhecimentos para perceber a harmonia de um quarteto de cordas constituído por instrumentos puros e antigos, o doce encanto de um tenor extraordinário, a voz quente de um contralto invulgar. Sentir tudo isto é uma questão de sensibilidade e não de formação, embora, naturalmente, também o prazer dos sentidos possa ser educado."

Hermann Hesse in "Música"

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