sábado, 23 de julho de 2011

Ouvindo uma Música de Schumann


"Nesta música, há um vento persistente. Não um vento permanente, sufocante, pesado, uniforme, e sim uma brisa saltitante, jovial, em rajadas traquinas, sempre surpreendentes, sempre extraviando-se. Parece-nos ver nele a pequena dança em remoinho da areia e da folhagem. É um vento bom, um excelente companheiro de passeio, um camarada de folguedos, alegre, cheio de ideias, ora com vontade de cavaquear ora de correr ou dançar. Flutua e sopra, embala-se e agita-se, dança e saltita nesta música cheia de graça e mocidade, ri e sorri, brinca e graceja, ora traquinas ora afectuoso. Parece mentira que a melancolia tenha feito definhar e morrer o criador de semelhante feitiço. É verdade que a esta música falta sossego, serenidade e até, de certa forma, uma pátria; é, talvez, demasiado alegre, infatigável, agitada e abanada ao vento, mexida e tumultuosa, e terá de acabar por se esgotar. Entre a música de um Schumann com saúde e a vida e fim do doente abre-se o mesmo abismo que existe entre a drôlerie do jovem Clemens Brentano e a austeridade da sua velhice. E, para o nosso mundo complicado e também um tanto sentimental, esta bela música graciosa e agitada, com o seu desassossego juvenil, soa-nos tanto mais fascinante, jovial e adorável quanto sabemos das trevas e profunda melancolia que esperavam o seu autor."

Hermann Hesse in "Música"

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