domingo, 14 de agosto de 2011

Tarte de Cebolas à la Geoffrey Chaucer

"225 g de massa quebrada simples
1 colher de sopa de tomilho cortado fresco
25 g de manteiga
2 colheres de sopa de azeite
8 cebolas, cortadas em rodelas finas
Sal e pimenta preta
2 colheres de chá de açúcar
1/4 de colher de chá de noz-moscada moída, e a mesma quantidade de gengibre moído
2 ovos, mais 2 gemas de ovo
425 ml de natas para montar
Um punhado generoso de rama de açafrão

Falou enfim o nosso Anfitrião:
- Ouvimos já de cada um do nosso séquito
As receitas que tinham a contar, excepto
De Maister Graham, que prefere sobretudo,
Conforme consabido, histórias de cornudo.
E vós, mulher de Bloomesbury, taciturna,
Mostrastes ousadia tomando o seu turno.
E Deus, que sabe bem o que vos vai em mente,
Por vosso clafoutis vos salve duplamente.
E vós, prior de Praga, esquivai as leituras,
Não serve Ovídio ao pasto que ora se apura,
A haver metamorfoses, sejam da cozinha:
Do caos dos condimentos criamos o cadinho.

«E quando bem conta aplica a voz
À Ars Culinaria, como o fizestes vós,
Não se saciam só as almas dos Cristãos
Como também a pança e os órgãos de expulsão.
E vós, ó Aduaneiro, que tudo isto ouvistes
Sempre a beber cerveja e a anotar alvitres,
Contai-nos, por quem sois, um alegre acepipe,
Pois é altura já que entreis neste despique.»
-De bom grado - anuiu.
-Decerto sei grelhar, guisar, cozer, fritar,
Mas creio que a suprema arte é a da tarte.
Relatarei, portanto, o melhor que souber,
Receita com que espero a todos guarnecer.
Ora escutai atentamente o que eu disser.

Aqui começa a receita do Aduaneiro:
«Estendei fina a massa em pedra enfarinhada,
Acrescentai tomilho e ponde em forma untada.
Com faca de cozinha cortai o excedente
E levai a enrijar em forno meio quente
Derretei a manteiga e untai uma sertã
Que, como sabeis, convém vedar com tampa.
Juntai então cebola em corte vertical,
E mandai lá pra dentro o açúcar e o sal.
Cobri o tacho e ponde o gás em lume brando,
Pra não pegar, é bom mexer de vez em quando;
Fervei a descoberto uns minutos e tal,
Para apurar o molho em tom acastanhado.
Juntai a noz-moscada, mas reservai um tanto,
Ponde o gengibre e devolvei ao gás ligado.
Mexei claras e gemas com mui gentil esmero,
E juntai a pimenta e sal como tempero.
Amornai as natas com basto açafrão,
E ponde os ovos já mexidos na poção.
Vertei a cebolada pla forma da massa,
E acamai a nata e os ovos sobre a base.
Levai ao forno e, ao minuto vinte e sexto,
Dourada há-de ficar a tarte com preceito.»
E disse o nosso Anfitrião: -Vos guarde Deus,
Pois que a todos vosso exemplo enalteceu,
Visto que bem sabeis dessa virtuosa arte,
E haveis cumprido cabalmente vossa parte.
Mas, caro irmão, na culinária não há nada
Que outrem não possa ter já dito no passado.
E só se cria, então, plo modo de contar.
Por vosso ofício, pois, não vos hão-de lembrar,
Inda que vossa aduana seja rara em tudo:
É aos contos, de futuro, que heis de colher tributo.»

Aqui acaba a receita do Aduaneiro de Londres"

Mark Crick in "À mesa com Kafk


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