domingo, 2 de outubro de 2011

"Oh ! Que fogo devorador me corre nas veias, quando, por acaso, um dedo meu toca nos dela, ou quando os nossos pés se encontram por debaixo da mesa ! E, apesar de fugir logo com eles, como de um braseiro ardente, uma força secreta me obriga a chegá-los novamente, numa vertigem que se apodera de todos os meus sentidos ! Oh ! A sua inocência, a sua alma ingénua não sente o que estas pequenas intimidades me torturam ! E se, durante a conversa, ela pousa a sua na minha mão, ou, no interesse do diálogo, se aproxima de mim, bafejando-me o rosto com o seu delicioso hálito, parece-me que vou cair aniquilado, como que ferido por um raio ...
(...)
Junto dela perco toda a consciência de mim próprio ... é como se a minha alma se me espalhasse pelos nervos.
Há uma melodia que ela costuma tocar no cravo, com alma de anjo. Tão simples, tão espiritual ! É a sua canção predilecta. Mal ataca a primeira nota, sobre Orfeu, inquietações, mágoas e cuidados, tudo se desvanece para mim.
Nenhum dos mágicos prodígios atribuídos à música me parece inverosímil, por isso que tanto me enleva e encanta aquele tão simples trecho. E como ela sabe tocá-lo ..."

J.W. Goethe in "Werther"


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