sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Li "Novas Cosmicómicas" de Italo Calvino e ...

Sinopse:
"Nesta nova série de Cosmicómicas, a saga de Qfwfq, estranho personagem que habita o Universo desde tempos imemoriais, continua. Através de Qfwfq, o leitor ficará a saber coisas curiosíssimas sobre a origem das aves, os meteoritos, os cristais, as filhas da Lua, as galáxias, etc.
A série termina com um excelente conjunto de Biocómicas.
O volume inclui também quatro magníficos Contos de Dedução: Tê índice zero, A perseguição, O condutor nocturno e O conde de Montecristo."



A minha opinião de leitura:
As Cosmicómicas são pequenas narrativas ou contos que começam com um parágrafo de teor científico (ou pseudocientífico) sobre as origens do universo e dos planetas.
Todavia, as explicações são propositadamente ignoradas pelo autor que, de forma desconcertante, aborda as mesmas através de um surrealismo mágico, transformando-as em histórias hilariantes e cheias de humor.
Não nos é difícil encontrar as inspirações de Calvino em figuras como Giordano Bruno, Beckett, Lewis Carroll, Borges ou o próprio marinheiro Popeye.

Assim, deparamo-nos com Qfwfq, narrador, protagonista e testemunha ocular da evolução de bilhões de anos, presente desde o momento do Big Bang.
O nosso herói fala-nos (através de originais vinhetas de BD) sobre o continente das aves, a sua origem e de como se interpretava o voo das mesmas tentando ler nele o futuro.
Assiste às quedas de meteoritos na Terra e descreve a azáfama que era varrer e limpar todos os dias as poeiras meteoríticas.
Aborda a formação dos cristais enquanto ouve Thelonious Monk. E neste capítulo, apercebo-me do quanto Italo Calvino consegue ser genialmente desconcertante ! Cristais e Thelonious Monk ... ;)
Angustia-se perante o afastamento das galáxias e sofre grandes paixões na época em que a Lua se distanciava da Terra, demonstrando desprezo ( "A Lua é velha - concordou Qfwfq, - esburacada, consumida. Rolando nua pelo céu gasta-se e despolpa-se como um osso roído." ) e sendo sarcástico relativamente às fases da Lua ( "Antigas expressões como lua cheia, quarto crescente ou quarto minguante, continuavam a usar-se mas eram só maneiras de dizer: como se podia chamar «cheia» àquela forma toda rachas e brechas que parecia estar sempre a ponto de ruir numa chuva de caliça sobre as nossas cabeças? Para já não falarmos de quando era tempo do quarto minguante ! Reduzia-se a uma espécie de casca de queijo mordida, e desaparecia sempre antes do previsto. Na lua nova, perguntávamo-nos sempre se voltaria a mostrar-se e quando tornava a despontar, cada vez mais parecida com um pente que vai perdendo os dentes, afastávamos logo os olhos com um arrepio." ).
Relata grandes tempestades solares e a existência do capitão de uma embarcação que por onde quer que andasse trazia sempre consigo perturbações eléctricas e auroras boreais.
Joga com átomos e até vive uma patética experiência de ser o último dinossauro vivo.

O livro inclui também quatro contos dedutivos, impregnados de raciocínios obsessivos e labirínticos não estranhos a certos textos de Kafka.

É uma obra excêntrica, diferente de tudo o que já li.
Não é fácil, e nem creio que seja consensual, não só devido à componente metafísica e filosófica mas também pela complexidade e profundidade do pensamento inerente.
E talvez por isso seja um dos livros mais geniais, inteligentes e surpreendentes que já passaram pelas minhas mãos !


(62º livro lido em 2011 ... 10.353 páginas lidas)

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