quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Li "O Contrabaixo" de Patrick Süskind e ...

"O Contrabaixo" inicia-se com a segunda sinfonia de Brahms e termina com o 1º andamento do Quinteto das Trutas, de Schubert.

Nesta brilhante crítica à sociedade contemporânea, acompanhamos as divagações de um contrabaixista da Orquestra Nacional de Viena, sobre a sua vida e as suas experiências no mundo da música: a técnica de se tocar contrabaixo; o seu lugar na orquestra, que é essencial mas passa sempre despercebido; as invejas; os defeitos de alguns compositores famosos; o seu amor secreto por uma meio-soprano e até a relação amor-ódio que tem com o contrabaixo ( "E depois ponho-me a olhar para ele. E ponho-me então a pensar: um instrumento horrível! Por favor, olhem bem para ele! Mas olhem mesmo. Parece uma velha gorda. As ancas muito descaídas, a cintura perfeitamente fora do sítio, moldada muito acima e pouco estreita; e para além disso estes ombros estreitos, raquíticos e pendentes ... um desgosto! Isto acontece, porque o contrabaixo é hermafrodita, do ponto de vista do desenvolvimento histórico. Na parte inferior parece uma enorme rabeca e, em cima, uma espécie de grande viola de gamba. O contrabaixo é o instrumento mais horrível, mais pesadão, mais deselegante que jamais houve. Até parece um sátiro." ).

Ao longo do monólogo deambulamos entre reflexões sérias e profundas ( em que compara, por exemplo, a estrutura organizada hierarquicamente de uma orquestra com a sociedade humana ) e alguns momentos de humor, nos quais o nosso protagonista atribui a personalidades como Schubert, Mozart ou Wagner certas peculiaridades interessantes.
E aqui, não resisto a publicar mais um excerto em que "ironiza" com a obra "Tristan und Isolde" de Richard Wagner: " ... espanta-vos que dez por cento das pessoas sofra de depressão? Espanta-vos? A mim não. Estão a ver! É por isso que eu não preciso da psicanálise para nada. Teria sido muito mais importante, já que estamos a falar no assunto, que aqui há cem ou cento e cinquenta anos tivéssemos tido uma psicanálise. Nesse caso, teríamos, por exemplo, sido poupados a algumas obras de Wagner. O sujeito era altamente neurótico. Por exemplo, uma obra como o Tristão, a maior que ele jamais escreveu, como é que ela surgiu? Afinal só porque ele andou metido com a mulher de um amigo, que o sustentou anos a fio. Anos a fio! E esta traição, esta, como hei-de dizer, esta forma mesquinha de relacionamento mortificou-o de tal forma em relação a si mesmo que se viu forçado a fazer, segundo se diz, a maior tragédia de amor de todos os tempos. Total repressão através de total sublimação. 'O mais elevado prazer' etcetera, sabem. Naquela época, o rompimento conjugal era ainda uma coisa invulgar. E agora imaginem Wagner a ir, por causa disso, ao psicanalista! Pois ... é certo e sabido que não teria havido Tristão nenhum! Disto não há dúvida, pois a neurose só por si não teria sido suficiente. Aliás ele batia na mulher, o Wagner. Na primeira, claro. Não na segunda. Nessa, nem pensar. Mas a primeira apanhava. Em suma, uma pessoa desagradável. Pode bem ter sido um tipo extremamente simpático, insinuante a mais não poder, mas desagradável. Imagino que ele nem a si mesmo se suportava. Também andava permanentemente com eczemas na cara causados pela ... antipatia. Enfim. Mas as mulheres faziam bicha atrás dele. O tipo exercia um tremendo fascínio entre as mulheres. Difícil de compreender ..."

Nesta obra, e à semelhança de "O Perfume", deparamo-nos com um Patrick Süskind focado na mente do personagem, escavando o seu interior e revelando-nos os seus meandros tortuosos, as suas psicoses e contradições.

Apesar de ser suspeita, uma vez que o contrabaixo, a par com a harpa, é um dos meus instrumentos musicais de eleição, achei este livro fascinante.
De uma forma breve, mas interessante e divertida, o autor leva-nos a conhecer a história do contrabaixo e da música clássica em geral.
Recomendo este monólogo a todos os apaixonados por música e que gostem de alguma "acidez literária". ;)

(64º livro lido em 2011 ... 10.647 páginas lidas)

2 comentários:

Miguel Pestana disse...

gostei bastante deste livro. É escrito de uma maneira sublime e delicada.

Está no meu blog a opiniao.

Maria Ngan disse...

Vou espreitar ... ;)