segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Referindo-se a Veneza ...

"No Inverno acorda-se nesta cidade, principalmente ao domingo, ao som dos seus inúmeros sinos, como se para lá das nossas cortinas de tule vibrasse um gigantesco serviço de chá de porcelana, sobre uma bandeja de prata, no céu cinzento-pérola. Abrimos a janela num gesto largo, e o quarto fica instantaneamente inundado desta névoa exterior, carregada de repiques, feita em parte de oxigénio húmido, em parte de café e preces. Por muitos e por mais variados comprimidos que tenhamos para tomar essa manhã, sentimos que ainda não está tudo perdido. Pela mesma razão, por muito autónomos que sejamos, por mais que tenhamos sido traídos, por rigoroso e desanimador que seja o conhecimento que temos de nós próprios, confiamos em que ainda haja para nós uma esperança, ou pelo menos um futuro. Este optimismo advém da névoa, do seu elemento de prece, em particular se forem horas do pequeno-almoço. Em dias como esses, a cidade adquire de facto um aspecto de porcelana, com todas as suas cúpulas revestidas de zinco a lembrar bules ou chávenas viradas ao contrário, e o perfil oblíquo dos campanários a retinir como um molho de colheres abandonadas e a esfumar-se no céu. Isto para já não falar das gaivotas e dos pombos, ora de contornos nítidos, ora a dissolver-se no ar. Embora este lugar seja excelente para luas-de-mel, devo dizer que muitas vezes tenho pensado se não deveriam também experimentar usá-lo para os divórcios - quer os que estão em curso, quer os já consumados. Não há melhor pano de fundo para o dissipar de um enlevo; quer a razão esteja ou não do seu lado, nenhum egoísta consegue conservar por muito tempo o estrelato neste cenário de porcelana à beira da água cristalina, pois o cenário rouba-lhe a primazia."

Joseph Brodsky in "Marca de Água"

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