"O que desejo causa-me desgosto.
O que desejo não amo.
- É um relâmpago, o que desejo,
breve passando no meu gosto.
E o meu amor anda bem longe do meu desejo.
Obedecendo-me,
às vezes
busco juntá-los.
Mas logo entre os dois me vejo,
na desolada estepe da distância,
em lágrimas de fogo a separá-los.
O que desejo sei donde vem,
sei onde vai acabar.
Mas o que eu amo? Mas o que amo é ânsia!
É o que tenho mais perto e mais distante!
Quando me sinto morto,
é uma origem de espírito,
que, misteriosa, adeja,
eterna luz ... mas instante
que me estrangula agora se possuo
e me ressurge logo quando beija.
O meu amor,
não sei donde ele vem nem onde vai acabar.
Não justifico o meu amor.
E a buscar-lhe o tamanho,
à volta do desejo,
penso no céu,
penso no mar,
no sol e nas estrelas.
Mas estas coisas grandes mais ainda amando,
todas elas, em meu amor,
já bem mesquinhas formas vão tomando.
E vejo todo o céu uma nuvem de algodão azul;
o mar um poço quase vazio;
o sol uma fogueira mísera,
extinguindo-se,
matando a luz, fonte de frio,
e as estrelas, insectos que pairassem baixo.
Não justifico o meu amor,
que, logo a um beijo seu,
qualquer milagre universal se opera:
tudo o que é enorme é já sem fim, depressa,
e para cada coisa sou visão sem fim ...
Se eu olho o sol, só vejo o sol,
bem frente à luz!
Se olho mundos a todos vejo perto
e a cada um,
porque se longe estou,
é só de mim.
Até que na minha queda,
por meu amor ainda,
um gesto da beleza me procura,
e a minha lama atingindo-o,
mesmo assim,
esse gesto me guia e me liberta
de tanta humana sepultura.
Matando o meu desejo eu continuo morto.
O meu desejo é forma, que do fogo à cinza
se completa e jamais insinua.
Porém o meu amor é alma, que se esfuma,
na terra,
e alma continua,
numa eterna inquieta miragem de céu aberto ...
Assim, de tudo o que amo ando afastado.
Ando afastado e perto!"
Edmundo de Bettencourt




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