domingo, 22 de maio de 2011

"Sucedeu então, certa noite, ao celebrar-se a Festa das Luzes, que Han Fook deambulava sozinho, pela outra margem do rio. Encostou-se ao tronco de uma árvore pendente sobre a água e, reflectidas no rio, viu mil luzes sobrenadando lucilantes, e em cima dos barcos e jangadas viu homens e mulheres, e jovens donzelas cumprimentando-se mutuamente, em vestes festivas, brilhando como flores vistosas; escutou o leve rumorejar das águas iluminadas, o canto das raparigas, os acordes das cítaras e a doce melodia dos tocadores de flauta, e, por sobre todos, viu a noite azulada, pairando como a cúpula de um templo. O coração do jovem pulsava de contemplar aquela imensa beleza, ao sabor dos seus impulsos, como espectador solitário."

Hermann Hesse in "O Poeta"

sexta-feira, 20 de maio de 2011

"Peguei no cesto dela e continuámos, e os seus passos soavam em uníssono com os meus, a sua alegria harmonizava com a minha, e a floresta murmurava delicada e fresca pelos montes abaixo. Eu nunca sentira tanto prazer em caminhar. Durante um longo pedaço cantei cheio de alegria, até que tive de parar, de tão transbordante plenitude: eram coisas demasiadas as que o vale e o monte, as ervas, as folhas e os arbustos me sussurravam e murmuravam.
E considerei então: se conseguisse abarcar e cantar todas estas canções ao mesmo tempo, as das ervas e das flores, as das pessoas e das nuvens, e de tudo, a floresta e o pinhal, e também as de todos os animais, e ainda todas as canções dos mares longínquos e montanhas, das estrelas e Lua, e se em mim tudo pudesse ecoar e cantar a um só tempo, eu seria então o próprio Deus, e todas as novas canções teriam de ficar no céu como uma nova estrela."

Hermann Hesse in "Sonho para uma flauta"

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Li "Peter Camenzind" de Hermann Hesse e ...

Beleza poética e protagonistas-poetas que investem nas suas vidas com realismo, são alguns dos traços comuns nas obras de Hermann Hesse.

"Peter Camenzind" não é excepção. A sua frase de início é lindíssima: «No princípio era o mito. Deus, em sua busca pela expressão, investiu a alma de hindus, gregos e alemães com poesia, e continua diariamente derramando poesia na alma de cada criança».

Foi, não sem algum misto de ternura, que o narrador trouxe de volta à minha memória outros personagens de Hesse que tanto gostei, como Siddharta ou Goldmund.

À semelhança destes, Peter Camenzind sofre muito, à medida que vai vivenciando as mais variadas jornadas intelectuais, físicas e espirituais. No decurso das mesmas aprecia diversas paisagens da Alemanha, Itália, França e Suíça, bem como várias emoções e sentimentos contraditórios. Nos últimos anos da sua existência, praticou a doutrina de São Francisco, cuidando de deficientes.

E é aqui que conhece e constrói uma belíssima amizade com Boppi, um inválido. Vendo aumentada a sua capacidade de amar e de aperceber-se da beleza em todas as pequenas coisas do mundo, começa então uma maravilhosa reflexão sobre a humanidade.

Enfim, sobre os romances de Hermann Hesse apenas posso dizer que adoro, adoro, adoro, assumindo-se este cada vez mais como um dos meus escritores de referência ! ;)

( 25º livro lido em 2011 ... 3888 páginas lidas )

Book Rest Lamp

Visto aqui !

terça-feira, 10 de maio de 2011

"A inspiração.
A tua inspiração capta as ideias que se amontoam, como uma grande nuvem sobre o planeta.
Nuvem que foi muitas vezes baptizada como «noosfera».
No seu interior as ideias misturam-se, tornam-se híbridas, fundem-se.
Ficas a saber que as ideias são como seres independentes.
Têm a sua própria evolução, a sua própria selecção, a sua própria mutação.
São unicamente filhas dos nossos cérebros.
Já existiam antes dos humanos e continuarão a existir depois.
Umas propagam-se, outras vivem em autarcia.
Outras aguardam para surgirem só no melhor momento.
Outras planam generosamente para serem agarradas por sonhadores e artistas.
Não obstante, sabes que também tu podes colher estas ideias.
Cada vez que te apetecer, podes visitar a noosfera e retirar tudo aquilo de que necessitas para criar no teu domínio privilegiado.
Mas não esqueças de que essas ideias não provêm de ti.
A tua criatividade consistirá em ligá-las de forma diferente.
Debruça-te sobre a noosfera. A tua memória aumenta para armazenar ideias, compará-las, sistematizá-las, fazê-las evoluir no teu laboratório espiritual pessoal."

Bernard Werber in "O Livro da Viagem"

sábado, 7 de maio de 2011

"O espelho alegre e límpido da minha alma era de vez em quando ensombrado por uma espécie de melancolia mas, nessa altura, não estava seriamente turbado. Ela surgia aqui e além, por um dia ou uma noite, como uma tristeza sonhadora de solitário, mas desaparecia de novo sem rasto, regressando após semanas ou meses. Eu habituara-me a ela aos poucos como a uma amiga íntima, e não a sentia como atormentadora, mas apenas como uma inquietude e um cansaço que possuíam a sua própria doçura. Quando me acometia à noite, em vez de dormir, eu deitava-me horas seguidas no vão da janela, olhava o lago negro, as silhuetas dos montes recortados contra o céu pálido e, por cima, as belas estrelas. Depois, não raro, era tomado por um forte sentimento temeroso e doce, como se toda esta beleza nocturna me observasse com um justo olhar reprovador. Como se as estrelas, as montanhas e os lagos ansiassem por alguém que compreendesse e expressasse a sua beleza e a dor da sua existência silenciosa, como se fosse eu esse alguém, como se a minha verdadeira missão fosse a de, pela escrita, dar expressão à natureza silenciosa."

Hermann Hesse in "Peter Camenzind"