domingo, 26 de junho de 2011

"E o tecelão disse,
Fala-nos das Roupas.
E ele respondeu:

As vossas roupas ocultam muita da vossa beleza,
no entanto não ocultam a fealdade.
E embora procureis no vestuário
a liberdade da privacidade, podereis encontrar nele grilhetas.
Pudesseis vós enfrentar
o sol e o vento com mais pele e menos vestuário.
Pois o sopro da vida está na luz do sol
e a mão da vida, no vento.

Alguns de vós dizeis,
«Foi o vento do norte que teceu as roupas que vestimos.»
E eu digo,
ah, sim, foi o vento do norte, mas a vergonha era o seu ofício
e o amolecimento dos tendões o seu tear.
E depois de acabar o seu trabalho foi-se rir para a floresta.

Não esqueçais que a modéstia
é um escudo contra o olho do impuro.
E quando o impuro deixar de o ser,
que será a modéstia senão um entrave do espírito ?

E não vos esqueçais que a terra adora sentir os vossos pés nus,
e os ventos anseiam por brincar com os vossos cabelos."

Kahlil Gibran in "O Profeta"

quinta-feira, 23 de junho de 2011

"Então um homem disse,
Fala-nos do Auto-conhecimento.
E ele respondeu, dizendo:

Os vossos corações conhecem em silêncio
os segredos dos dias e das noites.
Mas os vossos ouvidos anseiam
pelo som do conhecimento do vosso coração.
Vós sabeis por palavras
aquilo que sempre soubestes em pensamento.
Tocais com a ponta dos dedos o corpo nu dos vossos sonhos.

E ainda bem que assim é.
A nascente oculta da vossa alma
deve erguer-se e correr a murmurar para o mar,
e o tesouro das vossas profundezas infinitas
será revelado perante os vossos olhos.
Mas que não haja medidas
para pesar o vosso tesouro desconhecido;
E não procureis
as profundezas do vosso conhecimento com limites.
Pois o ser em si não tem limites nem medidas.
Não digais "Encontrei a verdade",
Mas antes "Encontrei uma verdade".

Não digais "Encontrei o caminho para a alma",
mas antes "Encontrei a alma a seguir o meu caminho".
Pois a alma percorre todos os caminhos.
A alma não percorre uma linha, nem cresce como um caniço.
A alma desvenda-se a si própria
Como um lotus de incontáveis pétalas."

Kahlil Gibran in "O Profeta"

domingo, 12 de junho de 2011

"Eu sou uma menina do mar. Chamo-me Menina do Mar e não tenho outro nome. Não sei onde nasci. Um dia uma gaivota trouxe-me no bico para esta praia. Pôs-me numa rocha na maré vaza e o polvo, o caranguejo e o peixe tomaram conta de mim. Vivemos os quatro numa gruta muito bonita. O polvo arruma a casa, alisa a areia, vai buscar a comida. É de nós todos o que trabalha mais, porque tem muitos braços. O caranguejo é o cozinheiro. Faz caldo verde com limos, sorvetes de espuma, e salada de algas, sopa de tartaruga, caviar e muitas outras receitas. É um grande cozinheiro. Quando a comida está pronta o polvo põe a mesa. A toalha é uma alga branca e os pratos são conchas. Depois, à noite, o polvo faz a minha cama com algas muito verdes e muito macias. Mas o costureiro dos meus vestidos é o caranguejo. E é também o meu ourives: ele é que faz os meus colares de búzios, de corais e de pérolas. O peixe não faz nada porque não tem mãos, nem braços com ventosas como o polvo, nem braços com tenazes como o caranguejo. Só tem barbatanas e as barbatanas servem só para nadar. Mas é o meu melhor amigo. Como não tem braços nunca me põe de castigo. É com ele que eu brinco. Quando a maré está vazia brincamos nas rochas, quando está maré alta damos passeios no fundo do mar. Tu nunca foste ao fundo do mar e não sabes como lá tudo é bonito. Há florestas de algas, jardins de anémonas, prados de conchas. Há cavalos marinhos suspensos na água com um ar espantado, como pontos de interrogação. Há flores que parecem animais e animais que parecem flores. Há grutas misteriosas, azuis-escuras, roxas, verdes e há planícies sem fim de areia fina, branca, lisa. Tu és da terra e se fosses ao fundo do mar morrias afogado. Mas eu sou uma menina do mar. Posso respirar dentro da água como os peixes e posso respirar fora da água como os homens. E posso passear pelo mar todo e fazer tudo quanto eu quero e ninguém me faz mal porque eu sou a bailarina da Grande Raia. E a Grande Raia é a dona destes mares."

Sophia de Mello Breyner Andresen in "A menina do mar"
"A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente.
Depois levantou a cabeça e disse suspirando:
- É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
- Isso é por causa da saudade - disse o rapaz.
- Mas o que é a saudade ? - perguntou a Menina do Mar.
- A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora."

Sophia de Mello Breyner Andresen in "A menina do mar"

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A retórica das sereias

"Alguns autores gregos afirmam que a sedução das sereias não estava tanto na beleza da voz, mas no conteúdo do discurso. Platão comparava o canto das sereias com a maneira de falar de Sócrates.
( ... )
Homero insiste nos dons divinatórios e proféticos das sereias. Cícero (106-43 a.C.), por seu turno, faz notar que a tentação exercida pelas sereias nos homens não incide na luxúria, mas na sabedoria. Elas oferecem aos homens a memória e o conhecimento, a inteligência suprema, a glória e o renome. Numa palavra, oferecem-lhe a imortalidade e propõem-lhes tornarem-se deuses. Qual o mortal que resiste a um tal convite ?"

Édouard Brasey in "Sereias e Ondinas"
"Eu indaguei: Mas afinal quem são o pai e a mãe do Amor ?
Isso é uma história comprida, respondeu. Todavia, vou contar-ta. Quando Afrodite nasceu, os deuses reuniram-se num festim onde, entre vários outros, se encontrava o Engenho, filho da Sabedoria. Depois de jantarem, eis que aparece a Pobreza a mendigar os restos - como é habitual em ocasiões de festa ... - e ali ficou, junto à porta. Entretanto o Engenho, já embriagado de néctar foi para o jardim de Zeus, e tão pesado se sentia, que adormeceu. Então a Pobreza, que na sua natural indigência meditava ter um filho do Engenho, deitou-se junto dele e assim concebeu o Amor. Eis a razão por que o Amor nos surge como companheiro e servidor de Afrodite: concebido nas festas em honra do seu nascimento, é, por natureza, um apaixonado do Belo, pois que Afrodite é bela. Por outro lado, a condição de filho do Engenho e da Pobreza ditou-lhe o seu destino. Condenado a uma perpétua indigência, está longe do requinte e da beleza que a maior parte das pessoas nele imagina ... Rude, miserável, descalço e sem morada, estirado sempre por terra e sem nada que o cubra, é assim que dorme, ao relento, nos vãos das portas e dos caminhos: a natureza que herdou de sua mãe faz dele um inseparável companheiro da indigência. Do lado do pai, porém, o mesmo espírito ardiloso em procura do que é belo e bom, a mesma coragem, persistência e ousadia que fazem dele o caçador temível, sempre ocupado em tecer qualquer armadilha; sedento de saber e inventivo, passa a vida inteira a filosofar, este hábil feiticeiro, mago e também sofista !
Deste modo, não é por natureza mortal nem imortal. No mesmo dia, tanto floresce e vive, segundo está senhor dos seus recursos, como morre para voltar à vida, graças à natureza de seu pai. Porém, os seus achados escapam-lhe continuamente das mãos, de tal sorte que nunca se encontra na indigência nem na riqueza: antes, num meio termo que é, de igual modo, entre sabedoria e ignorância."

Platão in "O Banquete"

terça-feira, 7 de junho de 2011

" - Dado isso, perguntei, o que será o Amor ? Um mortal ?
- Que ideia !
- O quê, então ?
- Exactamente o que disse antes: um intermediário entre mortal e imortal.
- Mas ao certo, o quê, Diotima ?
- Um génio poderoso, Sócrates ! Pois todo o ser genial é um intermediário entre o humano e o divino."

Platão in "O Banquete"
" ... também o amor não caminha sobre o solo mas antes se move e habita em tudo o que de mais brando existe. Porque são, efectivamente, os temperamentos e as almas dos deuses e dos homens que ele elege como sua morada e, mesmo assim, não indiscriminadamente: qualquer uma que se lhe depare com um temperamento rude, rejeita-a; mas àquela que possui um temperamento maleável, essa sim, passa a habitá-la. E eis por que, ao tocar com os seus pés e com todo o seu ser no que há de mais macio entre as coisas macias, possui por força, uma extrema delicadeza."

Platão in "O Banquete"

segunda-feira, 6 de junho de 2011

" ... o amor não tem uma natureza simples, bela ou feia em si mesma: é belo, se realizado com beleza, e feio, se realizado com vileza. Vileza, é quando se concede uma afeição indigna a um homem indigno; e nobreza, quando se concede uma afeição digna a um homem de bem. E por indigno entendemos justamente esse amante popular, que prefere o amor do corpo ao amor da alma, e não guarda constância porque o objecto a que se prende não é também constante: logo ao passar a flor da juventude, objecto da sua paixão, «evola-se e desaparece», renegando as suas muitas promessas e discursos. Pelo contrário, aquele que ama alguém pela beleza do seu carácter, esse permanece fiel pela vida fora, porque se funde com o que é constante."

Platão in "O Banquete"

domingo, 5 de junho de 2011

"Foi portanto Fedro, como digo, o primeiro a apresentar o seu discurso, começando mais ou menos por afirmar que «o Amor era um grande deus, um deus extraordinário aos olhos dos homens como dos deuses, por muitos e variados motivos, entre os quais avultava o da sua origem.»
Efectivamente - prosseguiu - as honras de que goza devem-se ao facto de se incluir entre os deuses mais antigos, e a prova é que não teve pais nem há poeta ou prosador algum que fale deles. Hesíodo, por exemplo, diz que primeiro surgiu o Caos,

... depois a Terra de vasto seio, suporte inabalável de tudo e o Amor ...

E com Hesíodo concorda Acusilau, que também diz que a seguir ao Caos vieram estes dois, a Terra e o Amor. Por sua vez Parménides, ao falar da Geração, afirma:

... pensou primeiro no Amor antes de todas as divindades.

E assim em variadas fontes há acordo em reconhecer que o Amor se conta entre as divindades mais antigas. Ora, é em virtude desse estatuto que dele nos provêm os maiores benefícios."

Platão in "O Banquete"