domingo, 31 de julho de 2011

" (...) A serenidade não é feita nem de troça nem de narcisismo, é conhecimento supremo e amor, afirmação da realidade, atenção desperta junto à borda dos grandes fundos e de todos os abismos. É o segredo da beleza e a verdadeira substância de toda a arte. O poeta que celebra, na dança dos seus versos, as magnificências e os terrores da vida, o músico que lhes dá os tons duma pura presença, trazem-nos a luz; aumentam a alegria e a claridade sobre a Terra, mesmo se primeiro nos fazem passar por lágrimas e emoções dolorosas. Talvez o poeta cujos versos nos encantam tenha sido um triste solitário, e o músico um sonhador melancólico: isso não impede que as suas obras participem da serenidade dos deuses e das estrelas. O que eles nos dão, não são mais as suas trevas, a sua dor ou o seu medo, é uma gota de luz pura, de eterna serenidade. Mesmo quando povos inteiros, línguas inteiras, procuram explorar as profundezas cósmicas em mitos, cosmogonias, religiões, o último e o supremo termo que poderão atingir é essa serenidade. (...)"

Hermann Hesse in "Música"

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Para Ilona Durigo

"Efémero é o belo, não perdura,
Tu, porém, quando partilhas os teus dons,
Quando cantas os grandes mestres,
De todo o coração, tão calorosamente,
Conferes a esse pequeno instante
Um brilho tão verdadeiro, que ressoa
E se propaga ao mais fundo das nossas vidas,
De tal modo que, sem qualquer pesar,
Se demora numa graciosa permanência
Como uma felicidade genuína."

Hermann Hesse in "Música"

quinta-feira, 28 de julho de 2011

"A música do Universo e a música dos Mestres
Estamos prontos a ouvir com respeito,
Conjurando para uma festa de pureza
Os espíritos venerados dos tempos abençoados.

Deixamo-nos guindar pelo mistério
Das fórmulas mágicas em cujo encanto
A imensidão, a tempestade, a vida
Fluíram em límpidos símbolos.

Como as figuras do céu vibram cristalinos
No seu serviço a nossa vida ganhou sentido
E nada pode dos seus círculos cair
A não ser para o centro sagrado."

Hermann Hesse in "O Jogo das Contas de Vidro"
"As origens da música são muito remotas. A música nasce da medida e tem as suas raízes no grande Um. O grande Um engendra os dois pólos; os dois pólos engendram a força da treva e da luz.
Quando o mundo está em paz, quando todas as coisas estão em repouso e seguem as suas superiores nas suas metamorfoses, então pode-se fazer bem música. Quando os desejos e as paixões não vão por falsos caminhos, então pode aperfeiçoar-se a música. A música perfeita tem a sua causa. Nasce do equilíbrio. O equilíbrio nasce do que é justo, o que é justo nasce do sentido do mundo. Por isso só se pode falar de música com um homem que compreendeu o sentido do mundo.
A música repousa sobre a harmonia entre o Céu e a Terra, sobre a conformidade entre o que é obscuro e a luz."

Liu Bou We in "Primavera e Outono"

sábado, 23 de julho de 2011

Valse Brillante


"Uma dança de Chopin ecoa no salão,
Uma dança alegre e desenfreada.
As janelas revelam a palidez do céu,
Uma grinalda murcha decora o piano.

O piano tu, o violino eu,
Tocamos sem mais parar,
E esperamos cheios de medo, eu e tu,
O primeiro a quebrar o encantamento.

O primeiro a ficar suspenso
E a afastar a luz,
O primeiro a dizer a frase
Que não tem resposta."

Hermann Hesse in "Música"

Ouvindo uma Música de Schumann


"Nesta música, há um vento persistente. Não um vento permanente, sufocante, pesado, uniforme, e sim uma brisa saltitante, jovial, em rajadas traquinas, sempre surpreendentes, sempre extraviando-se. Parece-nos ver nele a pequena dança em remoinho da areia e da folhagem. É um vento bom, um excelente companheiro de passeio, um camarada de folguedos, alegre, cheio de ideias, ora com vontade de cavaquear ora de correr ou dançar. Flutua e sopra, embala-se e agita-se, dança e saltita nesta música cheia de graça e mocidade, ri e sorri, brinca e graceja, ora traquinas ora afectuoso. Parece mentira que a melancolia tenha feito definhar e morrer o criador de semelhante feitiço. É verdade que a esta música falta sossego, serenidade e até, de certa forma, uma pátria; é, talvez, demasiado alegre, infatigável, agitada e abanada ao vento, mexida e tumultuosa, e terá de acabar por se esgotar. Entre a música de um Schumann com saúde e a vida e fim do doente abre-se o mesmo abismo que existe entre a drôlerie do jovem Clemens Brentano e a austeridade da sua velhice. E, para o nosso mundo complicado e também um tanto sentimental, esta bela música graciosa e agitada, com o seu desassossego juvenil, soa-nos tanto mais fascinante, jovial e adorável quanto sabemos das trevas e profunda melancolia que esperavam o seu autor."

Hermann Hesse in "Música"
"Primavera
Farrapos de névoa cobrem os campos e as colinas. Os dias são longos, comparados com os do inverno, e o vento menos cortante. Quando sobrevém a primavera, as águas nos vales, assim como as cotovias no céu azul, os pássaros nos bosques e as rãs - essa tribo solene e estridente - enchem o ar de cantos joviais.
( ... )

Verão
O calor do dia e a frescura do entardecer são coisas simples e elementares, mas é ilimitada a poesia que nelas reside. O mesmo se passa com a chuva, pesada e monótona, e que no entanto transfigura tudo, mesmo o coração do homem.
( ... )

Outono
O outono não se caracteriza apenas pela queda das folhas, mas também pelo declínio das forças vitais de todos os seres, incluindo o homem.
A Via Láctea torna-se mais nítida. Todavia é a lua a alma desta estação. Na sua remota proximidade adensa o mistério da nossa existência.
( ... )

Inverno
O inverno é a estação do frio; não só o frio que enregela os animais, mas também o frio de cujo significado profundo e interior nos apercebemos apenas em raros momentos de medo ou de solidão.
... a poesia do inverno é sobretudo a poesia da imobilidade e do silêncio."

Matsuo Bashô in "O Gosto Solitário do Orvalho"

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A poesia visual de Luís Manuel Gaspar




"Dar contornos e cores a poemas não é tarefa fácil. Somente um poeta poderia fazê-lo. É o caso do português Luis Manuel Gaspar."
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"É o mistério da música, que só nos desafia a alma, mas não a inteligência e a educação, e que, acima de todas as ciências e línguas, representa de várias maneiras, sempre naturais, apenas a alma do homem. Quanto maior for o Mestre, mais ilimitadas e profundas serão a sua contemplação e vivência. Mais: quanto mais perfeita e pura for a forma musical, maior será o seu efeito sobre a nossa alma. Quer o Mestre não aspire senão a encontrar a expressão mais forte e apurada dos seus estados de alma, quer persiga nostalgicamente um sonho de pura beleza, a sua obra terá sempre um efeito natural e incondicional. A técnica só vem muito mais tarde. Pode ser agradável e útil saber que nalguma composição de Beethoven há uma volta que não é muito fácil para o violinista, que nalgum lugar Berlioz se atreve a integrar uma entrada pouco usual das trompas, que este ou aquele efeito espectacular depende de um ou outro acorde do órgão, do silenciar dos violoncelos ou seja do que for, mas é tudo desnecessário para se apreciar uma música.
( ... )
É claro que o entendido desfruta de prazeres que a nós, ignorantes, nos estão vedados. No entanto, só no que diz respeito a pormenores técnicos, porque nenhum ouvido sensível precisa de grandes conhecimentos para perceber a harmonia de um quarteto de cordas constituído por instrumentos puros e antigos, o doce encanto de um tenor extraordinário, a voz quente de um contralto invulgar. Sentir tudo isto é uma questão de sensibilidade e não de formação, embora, naturalmente, também o prazer dos sentidos possa ser educado."

Hermann Hesse in "Música"

terça-feira, 12 de julho de 2011

Art Carved into Books








" ... possuía um espírito sonhador com vontade de escrever contos, uma nostalgia constante que pretendia ligar a insignificante vida diária à grandiosa vida que é apresentada em canções e pinturas, em belos livros e nas tempestades que ressoam nos bosques e nos mares. Não a contentava a ideia de que uma flor fosse apenas uma flor, que um passeio fosse apenas isso mesmo. A flor deveria ser uma sílfide, um espírito dotado de beleza e sujeito a uma metamorfose igualmente bela, ao passo que um passeio não seria um mero exercício físico praticado por obrigação ou com intuitos recreativos, era antes uma apreensiva viagem em busca do desconhecido, um contacto com o vento e os ribeiros, uma conversa com as coisas mudas."

Hermann Hesse in "Música"


segunda-feira, 4 de julho de 2011

"E um jovem disse,
Fala-nos da Amizade.
E ele respondeu, dizendo:

O vosso amigo é a resposta às vossas necessidades.
Ele é o campo que cultivais com amor e colheis com gratidão.
E é o vosso apoio e o vosso abrigo.
Pois ides até ele com fome e procurai-lo para terdes paz.

Quando o vosso amigo fala livremente, vós não receias o «não»,
nem retendes o «não».
E quando ele está calado o vosso coração não deixa de ouvir o
coração dele;
Pois na amizade, todos os pensamentos, todos os desejos, todas
as esperanças nascem e são partilhadas sem palavras, com
alegria.
Quando vos separais de um amigo não fiqueis em dor,
Pois aquilo que mais amais nele tornar-se-á mais claro com a
sua ausência, tal como a montanha, para quem a escala, é mais
nítida vista da planície.
E não deixeis que haja outro propósito na amizade que não o
aprofundamento do espírito.
Pois o amor que só procura a revelação do seu próprio mistério,
não é amor mas uma rede lançada que só apanha o que não é
essencial.

E deixai que o que de melhor há em vós seja para o vosso
amigo.
Já que ele tem de conhecer o refluxo da vossa maré, que
conheça também o seu fluxo.
Pois para que serve o vosso amigo se só o procurais para matar
o tempo ?
Procurai-o também para viver.
Pois ele preencher-vos-à os desejos, mas não o vazio.
E na doçura da amizade que haja alegria e a partilha de prazeres.
Pois é nas pequenas coisas que o coração encontra a frescura da
sua manhã."

Kahlil Gibran in "O Profeta"

sábado, 2 de julho de 2011

"Então Almitra disse,
Fala-nos do Amor.

E ele ergueu a cabeça e olhou para o povo e caiu uma grande
imobilidade sobre eles. E em voz poderosa ele disse:

Quando o amor vier ter convosco,
segui-o,
embora os seus caminhos sejam árduos e sinuosos.
E quando as suas asas vos envolverem,
abraçai-o,
embora a espada oculta sob as asas vos possa ferir.
E quando ele falar convosco,
acreditai,
embora a sua voz possa abalar os vossos sonhos
como o vento do norte devasta o jardim.
( ... )

Mesmo que ele suba até vós
e acaricie os mais ternos ramos que tremem ao sol,
também até às raízes ele descerá e abaná-las-á
Enquanto elas se agarram à terra.
( ... )

O amor só se dá a si e não tira nada senão de si.
O amor não possui nem é possuído;
pois o amor basta-se a si próprio."

Kahlil Gibran in "O Profeta"
"E um velho sacerdote disse,
Fala-nos da Religião.
E ele respondeu:

Aquele que usa a sua moral como a sua melhor indumentária
faria melhor se andasse nu.
O vento e o sol não abrirão buracos na sua pele.

E aquele que rege a sua conduta pela ética
está a aprisionar numa gaiola o pássaro que canta.
Os cânticos mais livres não saem
através de grades nem grilhetas.

E aquele para quem a devoção é uma janela,
para abrir mas também para fechar,
ainda não visitou a morada da sua alma
Cujas janelas vão de aurora a aurora."

Kahlil Gibran in "O Profeta"