terça-feira, 30 de agosto de 2011

"A Europa é feita de cafetarias, de cafés.Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo.
(...)
Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa».

George Steiner in "A Ideia de Europa"
"Estar à vontade no mundo da cultura significa estar à vontade em muitos mundos, muitas linguagens: estar à vontade na história das ideias, na literatura, na música, na arte. Requer erudição e a capacidade de ver as relações existentes entre os vários mundos.
(...)
É essencial ser elitista - mas no sentido original da palavra: assumir responsabilidade pelo «melhor» do espírito humano. Uma elite cultural deve ter responsabilidade pelo conhecimento e preservação das ideias e dos valores mais importantes, pelos clássicos, pelo significado das palavras, pela nobreza do nosso espírito. Ser elitista, como explicou Goethe, significa ser respeitador: respeitador do divino, da natureza, dos nossos congéneres seres humanos, e, assim, da nossa própria dignidade humana."

Rob Riemen, Director fundador do Nexus Institute

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

"A nobreza de nascimento é puramente acidental e, por conseguinte, insignificante para mim. Procuro noutro local as fontes da nobreza, e bebo dessa nascente. Aqui, uma vez mais, podemos testemunhar o nascimento da nobilitas literaria: a verdadeira nobreza é a nobreza de espírito. As artes, as humanidades, a filosofia e a teologia, a beleza - cada uma delas existe para enobrecer o espírito, para permitir à humanidade descobrir e reivindicar a posse da sua forma mais elevada de dignidade. É a herança cultural, as importantes obras de poetas e pensadores, artistas e profetas, que uma pessoa tem de usar para a cultura animi (a expressão é de Cícero), o cultivo da alma e do espírito humanos - para que a pessoa possa ser mais do que aquilo que também é: um animal."

Carta do humanista Ulrich von Hutten a Willibald Pirkheimer

domingo, 28 de agosto de 2011

"Há Palavras que nos Beijam"

"Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte."

Alexandre O'Neill in "No Reino da Dinamarca"

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

"The End" Bookend

Visto aqui !

Poema mestiço

"escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico

sangro norte
em coração do sul

na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo

hei-de
começar mais tarde

por ora
sou a pegada
do passo por acontecer"

Mia Couto

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Nocturnamente

"Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces."

Mia Couto

Para ti

"Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida."

Mia Couto

Desencontro

"No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos nocturnos lábios entreabertos

E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio."

Mia Couto

domingo, 14 de agosto de 2011

Li "À mesa com Kafka" e ...

Apesar de ter sido publicado em Portugal em Novembro de 2006, ainda é possível encontrá-lo nas livrarias, fresco e pronto a ser consumido. E posso garantir-vos que é realmente delicioso ... ;)

O subtítulo deste livro, "Uma história da literatura mundial em 14 receitas", não poderia sintetizar melhor o seu conteúdo. Deparamo-nos com um conjunto de 14 contos, os quais correspondem a 14 receitas, sendo que a cada uma delas encontra-se associado o estilo literário de um determinado escritor.
A título de exemplo, cito alguns como "Sopa Rápida de Miso à la Franz Kafka", "Bolo Rico de Chocolate à la Irvine Welsh", "Tiramisu à la Marcel Proust", "Fenkata à la Homero", "Queijo Gratinado sobre Tostas à la Harold Pinter" ou "Tarte de Cebolas à la Geoffrey Chaucer". Jane Austen, Gabriel García Márquez, Marquês de Sade, Virginia Woolf ou Jorge Luis Borges foram outros dos autores degustados.

O que torna esta obra tão interessante é o facto de cada uma das iguarias não ser mais do que um pretexto para homenagear a arte literária de cada um dos autores.

Diverti-me imenso a ler este livro, que recomendo como "aquela prenda ideal" para quem gosta de ler e cozinhar.
Além de primar pela originalidade, conseguiu ser igualmente inspirador, a ponto de já estar em fase de retirar do frio um doce Nenúfar de Suspiro à la Claude Monet !
Sim, também vou incorporar suavemente na mistura uma pitada de pintores e filósofos q.b. de forma a conferir uma textura mais densa e aveludada ! ;)

( 46º livro lido em 2011 ... 7303 páginas lidas )

Tarte de Cebolas à la Geoffrey Chaucer

"225 g de massa quebrada simples
1 colher de sopa de tomilho cortado fresco
25 g de manteiga
2 colheres de sopa de azeite
8 cebolas, cortadas em rodelas finas
Sal e pimenta preta
2 colheres de chá de açúcar
1/4 de colher de chá de noz-moscada moída, e a mesma quantidade de gengibre moído
2 ovos, mais 2 gemas de ovo
425 ml de natas para montar
Um punhado generoso de rama de açafrão

Falou enfim o nosso Anfitrião:
- Ouvimos já de cada um do nosso séquito
As receitas que tinham a contar, excepto
De Maister Graham, que prefere sobretudo,
Conforme consabido, histórias de cornudo.
E vós, mulher de Bloomesbury, taciturna,
Mostrastes ousadia tomando o seu turno.
E Deus, que sabe bem o que vos vai em mente,
Por vosso clafoutis vos salve duplamente.
E vós, prior de Praga, esquivai as leituras,
Não serve Ovídio ao pasto que ora se apura,
A haver metamorfoses, sejam da cozinha:
Do caos dos condimentos criamos o cadinho.

«E quando bem conta aplica a voz
À Ars Culinaria, como o fizestes vós,
Não se saciam só as almas dos Cristãos
Como também a pança e os órgãos de expulsão.
E vós, ó Aduaneiro, que tudo isto ouvistes
Sempre a beber cerveja e a anotar alvitres,
Contai-nos, por quem sois, um alegre acepipe,
Pois é altura já que entreis neste despique.»
-De bom grado - anuiu.
-Decerto sei grelhar, guisar, cozer, fritar,
Mas creio que a suprema arte é a da tarte.
Relatarei, portanto, o melhor que souber,
Receita com que espero a todos guarnecer.
Ora escutai atentamente o que eu disser.

Aqui começa a receita do Aduaneiro:
«Estendei fina a massa em pedra enfarinhada,
Acrescentai tomilho e ponde em forma untada.
Com faca de cozinha cortai o excedente
E levai a enrijar em forno meio quente
Derretei a manteiga e untai uma sertã
Que, como sabeis, convém vedar com tampa.
Juntai então cebola em corte vertical,
E mandai lá pra dentro o açúcar e o sal.
Cobri o tacho e ponde o gás em lume brando,
Pra não pegar, é bom mexer de vez em quando;
Fervei a descoberto uns minutos e tal,
Para apurar o molho em tom acastanhado.
Juntai a noz-moscada, mas reservai um tanto,
Ponde o gengibre e devolvei ao gás ligado.
Mexei claras e gemas com mui gentil esmero,
E juntai a pimenta e sal como tempero.
Amornai as natas com basto açafrão,
E ponde os ovos já mexidos na poção.
Vertei a cebolada pla forma da massa,
E acamai a nata e os ovos sobre a base.
Levai ao forno e, ao minuto vinte e sexto,
Dourada há-de ficar a tarte com preceito.»
E disse o nosso Anfitrião: -Vos guarde Deus,
Pois que a todos vosso exemplo enalteceu,
Visto que bem sabeis dessa virtuosa arte,
E haveis cumprido cabalmente vossa parte.
Mas, caro irmão, na culinária não há nada
Que outrem não possa ter já dito no passado.
E só se cria, então, plo modo de contar.
Por vosso ofício, pois, não vos hão-de lembrar,
Inda que vossa aduana seja rara em tudo:
É aos contos, de futuro, que heis de colher tributo.»

Aqui acaba a receita do Aduaneiro de Londres"

Mark Crick in "À mesa com Kafk


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

"Não voltei a esse corpo; e não sei
se aqueles que o vestiram antes e depois
de mim souberam nele o verdadeiro calor
e lhe conheceram os perigos, os labirintos,
as pequenas feridas escondidas. Não voltarei
provavelmente a sentir a respiração
palpitante desse corpo, desse lugar onde as ondas
rebentavam sempre crespas junto do peito, do meu peito
também, às vezes.

Uma noite outro corpo virá lembrar essa maresia,
o cheiro do alecrim bruscamente arrancado à falésia.
E eu ficarei de vigília para ter a certeza de quem me
recolheu,
porque os cheiros tornam os lugares parecidos, confundíveis."

Maria do Rosário Pedreira in "A Casa e o Cheiro dos Livros"

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Nómada

"Sentou-se no porto e abriu aos que o escutavam
o seu livro de viagens.

Conhecera as montanhas geladas do norte
e atravessara de noite
brancas e densas florestas, acossado pelos ursos. Cruzara
cidades luminosas onde as mulheres tinham cabelos louros,
mas ninguém falava a sua língua; e deixara-se arrastar
pelos ventos até às praias quentes do sul onde ganhou
pele morena e olhos verdes. Depois

instalou-se provisoriamente nas ruínas de um continente velho
onde foi monge, amante, homem letrado, e ensinou às raparigas
de um claustro branco os rudimentos da leitura. E, por fim,
partiu para um dos derradeiros lugares do mundo,
onde o tomaram pelo último marinheiro e o perseguiram.

Perdera deus no seu caminho e voltara atrás.

Havia, enquanto recordava, uma pequena ferida na sua voz:
em nenhum lugar achara ainda o nome da sua casa."

Maria do Rosário Pedreira in "A Casa e o Cheiro dos Livros"